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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Traços à Caiero


de tudo que já julgaram inútil
contesto apenas as demências
pois elas fazem sentido
poucos vêem com olhos lúcidos de hora integral

pensar é enlouquecer devagar
a cada segundo enlouquecer
de raiva e ciúme enlouquecer
enlouquecer até de não pensar

e de pensar
e ficar louco
devagar
pouco a pouco
aprendi a não procurar respostas
aceitando os exageros de minha futilidade
e dor

quando penso esqueço das horas saltadas
fora da sanidade
em um mundo de irreflexão e tolices
e volvo insano outra vez
de remorso e alivio bruto
devagar e bruto
louco
bruto

eis a fórmula d'alquimista!
pensar!
prefiro estar doente
a observar em eterno...
e não fazer juízo de minhas impressões

sexta-feira, 10 de abril de 2009

imperfeito



Se eu pudesse que fosse
federico garcia lorca
se fosse eu quem morresse
estripado enforcado a forca

se eu quisesse que fosse
o antipoeta derrubado
e se a vida fosse doce
doce e feliz fosse o fado

se a rima de camões compusesse
para raquel e sua irmã lia
mais amara se não fosse
para tão longa a noite, curto o dia

se d'agua encantada tomasse
que ao menos passasse a sede
se de repente cansado descansasse
que fosse ao vento, ao mar, à rede...

e se por fim do sonho acordasse
e descobrisse: foi pesadelo
ainda torceria para que o fosse
pois nada que é parece sê-lo

sábado, 6 de dezembro de 2008

Construção


Resta, como não há esperança, o descuido
os homens põe-se a sonhar
e acabam desdobrando a vida
em pedacinhos de cimento
e descuidam da certeza

Eu, que há muito não vejo janelas,
faço força rumo ao teto
minha parede e poucas manchas
mas existem
pois descuido também

As manchas de minha parede são reflexos
dos meus descuidos e dos desdobramentos da vida
que, ainda em pedacinhos, são cimentos
em formas ignoráveis
sandias
assustadas

feliz será o dia em que a morte não fizer sentido
ao menos aos desdobrados
que do cimento sairão coroados
com a simplicidade do cimento em forma

eu continuo o mesmo
olhando minha parede e minha vida
não faz sentido
mas, ao menos, está em quadradinhos
todos aceitáveis

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

desrealização


montagens de palco à italiana
quadro emoldurado
retomam o infinito e é como se tivesse fim

todos sabem da necessidade
abarcam, aportam, não se importam
fechados a um cubo de madeira preparada
fingem viver

assim é que no teatro se dança
dançam a vida aqui encenada
isso é nada, mas vale a arte
artifício espaço físico tempo psicológico

dançar é não se matar
e dançam a chuva de engenharia
palco à italiana, caixa fria
de onde é possível todo disfarce

resta a opção de descer do palco
desrealizar a realidade
mas fica o medo do salto para a vida
a bomba, a fumaça, o disparate
range a madeira quando pisam
e é o confortável estar-se à elevada

não me venham com desculpas
vocês são os únicos felizes por natureza
recebem a paga justa pelo eximir-se
são frágeis, mas eternos

a verdade atrás da cortina é mais fácil

domingo, 17 de agosto de 2008

Mascarar

optei pelo disfarce
em minhas contas não conto a verdade
consta que procedo correto

decido a ludibriar o que sinto e penso
(e só de pensar me vem a máscara)
finjo que tudo é etéreo
e que a vida é bonita

de nada vale a carícia
quando precedida pela, e precedendo a explicação
vale o gosto que não se prova
vale a dúvida que não esmorece

o disfarce é a maneira covarde de anunciar tristeza
a que não se anuncia ao primeiro olhar
e tudo passa por belo
por proveitoso
e aceitável

quando me vires novamente
não me digas a verdade
essa serve ao que não anseia e não vive
digas o que faz bem
e assim talvez o disfarce desfaleça

sabes bem que em meu peito bate disfarçado um luto
a luta perdida no afastar-se
na diferença

se eu me chamasse cômodo
e o mundo fosse em camadas
esperaria
esperaria
esperaria

e fico aqui
um eterno dissimular das sensações que não raciocino
elas são meu ser e minha ausência
de pecado e de vivacidade
e que só me serviram para não viver
viver

terça-feira, 27 de maio de 2008

Retratos de Charlotte


Ah, Charlotte!
Quase revolucionária, "sans-coulote"
Que na França "fin-de-siècle"
Deitou armas e Amor
e amou no dezoito...

Ah, Charlotte!
que renasceu russa século e meio
depois
cubana meio século depois
paris sessenta e oito e retornou
"à la maison"
sem menção de reacionar
só de armar e Amar
e amou no mundo inteiro

quinta-feira, 15 de maio de 2008

oriente tripartido

(I)
de manhã quando
minha lua vai embora
fico lembrando

(II)
vida é axioma
mine a esperança
viva em coma

(III)
um haikai
faz que vai sair
e não sai

quinta-feira, 1 de maio de 2008

palavras pequenas


acredito que a palavra existe
e dela faço uso
sempre que as palavras verdadeiras faltam

dizer e falar palavras
é minha maneira de não dizer
não falar
pois o que o poeta fala sem verbo
só de perfumes e mãos geladas
(acredita!)
diz mais

não penses que com palavra minto
pelo contrário
são verdades necessárias
mas sublimam... carecem do concreto
mesmo que de sentido abstrato

tudo o que eu já te disse
resume-se ao que quase não te disse
(mas disse)
apenas é mais belo quando rima
e rimo quase a me perder
no que preferiria te dizer

as palavras são belas porque vazias
não seriam belas se não o fossem
e é de saber, do vazio, recolher mundos
(como fazes e faço)
a essência de toda beleza
toda verdade

se julgas o meu merecimento em palavras
apagas meu merecimento em mim
se mereço, o que mereço é simples
o que mereço, se mereço, é o "sim".

quinta-feira, 24 de abril de 2008

zero


Fiz do zero a resposta mais justa
Mesmo que nula
Enxuta
Agora respondo a tudo com o zero
Só ele completa a fórmula das improbabilidades
O zero completa o sim e o não

Contar é não ver limites
Por isso não conto
Dou de ombros às reminiscências
Semidemências
Querências
Paro no ponto devido
Preciso
Embora não precise

Hoje quando acordei
Não vi números
Não vi
E é como se argumentasse contra as regras
Rezei para que não chovesse
A chuva zero atendeu
E não caiu baixinha
Fina

Que importa se as coisas vão certas
Mais vale a certeza não número
Certeza é necessidade do culpado
E eu
Incerto
Contos os passos em regressiva
Do zero ao zero

Meus pensamentos são o zero
Completa ausência
Zero de tristeza
Zero de prazer
Zero de culpa
zero e não
zero e um
zero

domingo, 6 de abril de 2008

Anti-Clímax


por que todo samba dá no mar?
na areia boa de não pisar?
e aquela tal de iemanjá
vem de longe abençoar?

queria um samba que sambasse
longe do terreiro onde nasce
onde onda não rebentasse
ah! se aquele sambeiro provasse!

queria sambar o samba improvável
que falasse torto, de automóvel,
rimasse a rima inerrimável,
e, no fim, de melodia imprestável...

ah se o samba tirasse a roda
onde gira a baiana porque é moda,
podasse o pandeiro e não poda
pois não sabe que o ouvido incomoda

fico na esperança de um dia
ter um samba que não traga magia
não fale da noite, ou do dia
e não tenha uma musa Maria!

domingo, 23 de março de 2008

moças que não amo

1.
olhei atrás daquela cortina
pensando que aquilo era
um bicho,
peguei rapidamente o martelo!

cheguei perto na surdina,
não agüentando a espera.
que lixo!
era a moça do dente amarelo!



2.
pensei de passagem em pesar os prós
e quem sabe os contras
se valeria a pena ou não
namorar aquela pequena

não notei nada novo nem os nós
amarrando as pontas
da tira de tecido na mão
segurando a gangrena



3.
duvidas de minha sinceridade?
achas que não sou correto?
digo que pensas demais
digo que ages de menos
menina doce-de-amora!

e eu que nem sei sua idade?
nem o quão tua pureza afeto!
atrás dos coqueirais
atrás do monte de feno
dando a mamãe uma nora!

sábado, 15 de março de 2008

das sortes do mundo


queria ter um filho
um filho é a máxima expressão do que se foi
do que se gostaria de ser sempre
um filho resolve a si e a mim

queria ter um filho
metonímia de mim mesmo, sorriso aberto
que se pusesse a rir para me fazer esquecer
que as minhas escolhas foram péssimas
menos ele

queria ter um filho que me enxergasse
não como o homem que lhe guia
guiar não é trabalho que o valha
dava-lo ao cão pastor e feito estava o trabalho
me visse como o herói que não sou
para o mundo que não carece de tê-los
mas o filho vê o que não vê profeta

queria ter um filho
e acreditar que se é feliz quando alguém te diz que é
pois felicidade rareia por essas bandas
queria ter um filho
para me por de novo na vida que é só vida
mas que às vezes esqueço
que é preciso estar de pé
pra balançá-lo no que ele chama "balango"

queria ter um filho pra me ensinar que
a vida não é só trabalhar
mesmo que seja para pô-lo em dia com o bem estar
ele sabe que é assim
"mas pra que tanto?" diria
e eu, cansado, esgotado,
teria energia para correr atrás dele pela casa

queria ter um filho
porque o que se quer
é ser para alguém a sorte que o mundo não te foi
não me deixou ser
queria ter um filho...

domingo, 2 de março de 2008

Lodo Vivo

















Abaixo a coisa do tempo medido
que prende aqui
prende ali
não solta!

abaixo a discrepância do espaço psicológico!
que pega no pensar
uma praia
fugidia...
e transforma no ponto chave da narrativa

abaixo o narrador onisciente
abaixo o narrador testemunha
abaixo o narrador "terceirapessoa"
abaixo...

abaixo o clímax indevido
fora de hora
impreciso
dono de resposta que a leitura prazerosa não pede.

abaixo o literato que,
dono de si,
acha respostas onde nem o perguntante as busca

abaixo a literatura que não é paixão
não comove e
se move
como se da prova-dos-nove
tirasse a beleza

abaixo a estética que não
prova,
não desova
não se renova
num querer lúdico de se fazer inovar...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Noites de Nova Iorque

A noite se levanta no meu quarto.
Eu não meu deito, dado a cafeína.
E crente que ainda acho a heroína,
Em horas revoltas, incauto, parto...

Num braço dado à solidão reparto
Ruas desertas (não paz), jogatina.
E nessas "noites ruas" não rotina
Multidão infeliz de que estou farto.

Ah! Menina dos olhos, Nova Iorque,
Na noite escura que assalta, assedia,
Procuro lugares. Onde não ir?

Para encontrar aquela que me enforque,
Antes que a luz da lua vire dia
E eu, cansado, volte a ter que dormir...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Pronominadas

não ver-te
é um erro tão gramatical
quanto perder-te.

mas da gramática
cuida aquele que não vive
do coração,
não vive.

eu vivo num mundo que aflora.
passo horas a contar estrelas,
ver a lua,
olhar
o velocímetro e o farol
com o qual viajo.
eles pouco me mostram.
têm lá seus momentos
mas a estrada fica sem lume.

os gramáticos
e os acentos circunflexos.
meu rogar genuflexo.
quem mina mais
ainda é a estrada
pois tu não corres.

volto à próclise
e ela nada me diz
não me contenta
me contunde
como a ausência.
meu mundo faz minha mesma viagem.
estou a ponto de esquecer
a estrada,
pouco iluminada,
não é nada.
o problema é viajar.

quando eu tinha coerência
as placas eram guias.
hoje, tudo isso é apenas entorno sem razão
e eu palpito
mais que o motor violento que me leva ao sabor do acelerar.
tu me fazes não ter coesão
e eu gosto desse
detalhe.

as pessoas dirão que estou louco,
mas a verdade
é que, quando chegarem,
já estarei novamente na estrada, pois só
ela
me faz feliz
quando não estás no banco do passageiro mantendo-me desperto.

sonho em ainda te ter na estrada,
ao meu lado,
dizendo que a viagem assim faz sentido.
mesmo que vaguemos sem rumo
que já é rumo certo quando pegas minha mão.

quinta marcha.
aperto o passo e acelero.
um carro de farol alto passa,
dou sinal,
ele abaixa.

a gramática das placas e a minha gramática
todas inúteis
cerebrais
objetivas.
e o ideal onde está?
faz-me perder o rumo, oh flor do acalanto.
canta-me a canção que o vento
leva.
enxuga o suor tropical de minha fronte
ame-me como te amo.
tudo assim vai se acertar.

ontem quando adormeci
não vi a estrada,
sonhei gramaticalmente certo
pois dar-te-ia mesóclises no futuro.
e tu,
sem querer,
negaste-as, já sendo ênclises.

estrada, colocação pronominal,
estrelas, lua,
gramática.
orações coordenadas desordenam minha alma.
subordinadas relações me subordinam.
oração principal.
a oração principal é conjugar o verbo devido.
quisera-te queria-te quis-te quero-te querer-te-ei querer-te-ia.