quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

PACTOS E CLEMÊNCIAS























Auxilei na construção de uma usina, hoje
fiz um presépio de demônios
e menti beijos para cascatas
Não fui decente, como devia
nem maculei órbitas

minha felicidade perdeu-se em quilômetros de soda
O cão rejeitou meu osso
e fui ficando inquieta, como não devia
a casa pegou fogo e continuei no solo, vadiando sombras
eram futilidades que me possuíam nos sedativos
O cão roeu toda minha praça e comeu as pombas
escrevi uma estória que, certamente
não devia.

Fui declarada inimiga particular das portas
Não compareci em nenhuma aula dos necrotérios de ninfas
nem vendi jóias para os camaleões
a inutilidade sangra como meu único prazer.

Exerci a crueldade, como me foi prometido na última lua
O dia foi belo como um hímen fatigado
Matei bailarinas com dados e teorias psicanalíticas
O funeral acontecerá no meu pulmão e não engolirei flores.


Rita Medusa. Ilustração: René Magritte - La Memoire.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LITERATURA E INTERNET























Jung costumava falar, muito frequentemente, no misoneismo, o medo de tudo o que é novo. Desde de seu surgimento, em meados da década de 1990, que a Internet é alvo constante deste mal. Culpa-se a Internet por muitos males _o pior deles: a pornografia infantil. Suas virtudes, no entanto, são sempre vistas de forma míope, obliqua, estereotipada. Trata-se a Internet ainda como aquela coisa exótica, feita para adolescentes empolgados, para nerds e punheteiros de escritório, para solitários em busca de fantasias, para desocupados e para pessoas "que não sabem viver a vida real". Somente as pessoas que realmente fazem uso _que descobriram! _a Internet _essa mídia direta, feita por mim e por você!... essa ferramenta sem igual para os mais ilimitados fins _é que sabem como ela está repleta de criação, de novo, de um novo mundo que se faz e que acontece!...
A literatura, por exemplo _que para muitos professores e estudiosos, parou lá na Geração de 45, na Beat Generation, no Movimento Mimeógrafo, Marginal dos anos 70 _continua não apenas produzindo, como produzindo uma nova geração de escritores, antenados com um novo momento, com novos desafios, novas configurações, que não é compreendido pela mente arcaica daqueles que continuam defendo que hoje vivemos apenas um triste... pós-tudo (pós-45, pós-marginalismo, pós-modernismo, pós-beat... pós-pós...).
A literatura atual não apenas existe, como possui personalidade própria. Uma personalidade, aliás, muito forte! Espalhados em blogs e comunidades do Orkut, escritores das mais diversas regiões do Brasil _de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Fortaleza, Recife até Manaus _criam, se expressam, renovam o cenário literário nacional. Escritores de todas as idade, de 16 a 60 anos, que, em sua maioria, nunca publicaram um livro, mas já deixaram sua marca na WEB. Para conhcecê-los, basta acessar blogs como este BACANAL - O Canal dos Bacantes (http://canalbacana.blogspot.com/), como o blog da revista amazonense SIRROSE (http://sirrose.blogspot.com/), blogs pessoais como o de Gabriela Nieri (http://peripeciasdegabi.blogspot.com/), de Duda de Oliveira (http://digressaopassional.blogspot.com/), de Denise Machado (http://virgulaantenada.blogspot.com/), de Márcio Santana (http://notasdeumdegenerado.blogspot.com/), Diego Moraes (http://diego-moraes.blogspot.com/) ou blogs como o gótico VALE DAS SOMBRAS (http://valedassombrasmemorte.blogspot.com/), ou do Movimento Tavernista de São Gonsalo (RJ) (http://acorjavirtual.blogspot.com/) e de comunidades do Orkut como o BAR DO ESCRITOR (www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=3891757).
Faz-se literatura no Brasil, mais do que nunca. Mulheres escrevem mais do que nunca. Nunca vi uma geração de escritores com tantas ESCRITORAS!!! Rita Medusa, Sirley Passolongo, IvoneFS, Bárbara Leite, Gabriela Nieri, Duda de Oliveira, Trish River, Jalna Gordiano, Poliana Furtado, Denise Machado, Me Morte, e muitas e muitas outras. A lista masculina também não é pequena: Beto Reis, Márcio Santana, Diego Moraes, Flávio Mello, Muryel De Zoppa, Anderson H, dos Anjos, Zé DS, Eduardo Perrone, Lucas Augustus, Lanoia, Calaça, Antônio Carlos Rocha, Romulo Narducci, muitos outros e eu... Marcelo Farias, é claro! =))...
A literatura deixou de ser apenas uma forma de arte, para tornar-se uma "língua", uma forma de comunicação entre as pessoas. A geração de hoje se comunica através da literatura. E nenhum veículo serve mais a esta comunicação do que a Internet.
A mídia convencional, a TV, sobretudo, tem o dever de descubrir essa nova geração literária, de mostrar ao telespectador, que há um mundo fervendo e brilhando... bem debaixo de seu nariz!...


Marcelo Farias

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

PÓ E CINZAS
















Pó e cinzas

Participarei do vento

Que vai ao mar

Na praia da Sununga

Quando voltar

À dimensão do nunca.


Antes de chegar

Voarei com a gaivota

Sobre ondas do mar

Repousarei na tartaruga

Que dorme na ilhota.


Na boca de um golfinho

Entenderei palavras

Que tentam aconselhar o homem,

Mas ele não escuta,

Ou apenas faz de conta.


Quase no fim da viagem

Serei grão do castelo de areia

Onde dorme a princesa

Lembrança que se apaga

Do meu sonho de menino.


Antonio Carlos Rocha

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

OGUNIÊ, AGÁ!
















tenho alguns cabelos e pensamentos africanos
que me foram colocados na época de menino:

- coisa de cosme e damião...

eu andava pelas ruas com uma sacola de papel
a pegar tudo quera bala e pirulito e diagrama
e novidade de vidro e céu, de terra e cor.

mas também havia aquele lance dos tambores,
dos pés velozes,
dos colares carmins e coralíneos,

e aquele esquema de fechar corpos
e da insurgência da mulher entidade
que batia de mão fechada...

minha avó de branco,
meu avô de azul,
eu atabaque e meu primo Siê,

Siê de pai e mãe,
a cantar inocente sem saber na vida
que tudo que é espírito carnavalesca!

nesse finalzinho de ano,
do ano em que perdi minha avó,
me resta imaginar São Jorge
derribado do cavalo
a gritar do meio da favela
em que nasci lá nos setenta:

- oguniê, Agá minino! oguniê!


Anderson H

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O PALHAÇO DE VIDRO: Um comentário sobre Flávio Mello.























Flávio Mello é qualquer coisa entre Capinan e Torquato Neto. Se é que é possível conciliar estas duas personalidades em alguém... De fato, Capinan faz com que Flávio não se mate. Se Flávio fosse apenas Torquato, não nasceria, seria abortado!... A escrita de Flávio Mello é um vômito do codiano. Ela flui com a própria imprevisibilidade do imediato. Esta forma de narrar está bem em cotexto com os dias de hoje. Se observarmos a sequência de imagens de um filme brasileiro atual, veremos que é assim: cortes abruptos, tudo é mostrado em sequências fragmentadas... porém lógicas! É a lógica interior.
A literatura, bem antes do cinema, adotou essa forma de narrar faz tempo. Na época de Proust, isso era chamado de "tempo psicólogico". Flávio, no entanto, não expressa apenas tempo, mas uma forma de ser e sentir. Um sentir que está em sintonia com os dias de hoje, com 1 milhão de outros Flávios e Flávias existentes por ai e até dentro de nós. É como se você interpretasse alguma peça do Asdrubal apenas para si mesmo, tendo você como único ator... e não querendo ser engraçado. Se você é um palhaço, não o é por opção, mas por maldição!... A maldição de todo ser moderno: viver sobre a corda banba do picadeiro abaixo dos edifícios... com os carros correndo como crocodilos no rio grafite de asfalto, onde será arrastada a pasta do teu corpo quando ele cair... para o delírio e aplauso da platéia!...
Talvez seja uma forma mais dramática, mais "trash metal" , ou "mangue beat" de Luís Fernando Veríssimo. O fato é que Flávio Mello nos reporta ao imediato, ao agora, como se você estivesse vendo a cena se movimentar de dentro dele: o narrador. O narrador "é" você! Pois você vive o cotidiano que ele vive. Ache você medíocre, ou não. Sei que é chato se sentir um palhaço de vidro: ridículo, engraçado e que se quebrará daqui pra ali... (e isso é que fará todo mundo rir!). Mas isto é o cotidiano. Uma peça em palco pobre, onde entramos desde o dia em que nascemos. E que talvez, quando morrermos... percebamos que foi apenas um sonho. Um sonho tolo que julgamos ser real.


Marcelo Farias. Ilustração: Palhaço, de Michel Mendes.

sábado, 28 de novembro de 2009

QUEDA (LIVRE)























Subiu a escada
Desceu a escada

Como sempre, tudo muito normal

Subiu a escada
Desceu a escada

Como sempre, tudo muito comum

Subiu a escada
Desceu a escada

Como sempre, tudo muito trivial

Subiu a escada
Caiu da escada

E nunca mais subiu a lugar nenhum

Eder Ferreira

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Escolha




Em tudo crio
um lânguido olhar teu - infame sacrifício
À enterrar-me aos pés de ilusões perfeitas.

Assim como o sol arde em claridade;
Assim, a claridade segue apagando meus ideais.


Do desencanto,
espero nascer a nostalgia (engano)
desde os teus pés a caminhar sobre o meu chão
até o meu rosto que encontra-se entre os dois...

Quero queimar-me!