domingo, 7 de fevereiro de 2010

A MULHER INFIEL


















A mulher infiel anda pela rua coberta de rosas.

Sente sua saia dançar
com uma brisa limpa e leve
vinda do interior de uma alma cheia de tudo que somos
e também deixamos de ser.

Uma alma que é sua
Uma alma que ela nem usa mais.

Sente sua blusa azul e amarela
destacando o que deveria esconder.
E o seu cabelo
preso em uma fita cheia de flores coloridas.

Não ouve a voz que dentro dela
Grita
Esperneia
Implora por atenção; bate o pé irritada.

Com suas unhas discretas ajeita o cabelo
E retoca com vermelho a boca fechada,
tão pequena.

A mulher infiel finge não saber de toda dor
que passeia pelo seu vazio e espaçoso coração.

Melindrosa,
ela corta praças e parques
e ruas movimentadas,
entupidas de todos os ruídos tristes deste mundo.

O sorveteiro lhe serve creme com morango
e além de moedas aquecidas
recebe também seu melhor sorriso brejeiro.

A melindrosa mulher infiel
percebe.
E sente
como o sopro de uma mãe sobre o joelho esfolado;
a melindrosa mulher infiel
caía por todos os lugares
todos os dias
há tantos anos.

Logo
A dor volta a gritar,
passeando frenética.
A voz esperneia,
querendo atenção.
A cabeça pesa, vazia
fazendo-a enganar-se que é a fita de flores coloridas
apertando-lhe os pensamentos.

A mulher e melindrosa infiel
segue pela rua coberta de rosas.
Uma fita cheia de flores coloridas no cabelo
Uma blusa azul e amarela e
uma saia cheia de vento.

Ela não quer escutar.

E pelo seu coração vazio
passeiam livremente
todos os homens
e todas as dores
Deste mundo abarrotado de coisas e amor.


Jana Lauxen

sábado, 6 de fevereiro de 2010

VIAGEM





















Na viagem que eu tive
Os sopranos não sopravam mais
E os tenores
só temiam o silencio
que preenchia a sala

Era tanta ausência,
Tanta falta, tanto quarto,
Tanta cama
A chama se apagando
Em cada olhar, em cada trago
Em cada sopro

E a ventania chamando ora pra leste ora pra oeste
Na viagem que eu tive
Os sopranos só sopravam
E os tenores destemidos
Recitavam aos pardais

Versos curvos
E o silencio não preenchia mais...


Jair Fraga V. Neto & Debora Tieppo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O PECADO DA MENINA MULHER























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papai, pequei! foi tão gostoso e tão cheio de culpa que pensei cá, com meus botões: "dancei". mas não deixei barato como Eva porque pequei mais do que há de castigo pra pagar. e gostei. ah papai, me judia, me quebra a cara, me senta o cinto, me queima o couro... mas não pela tentação que sucumbi, mas pelo modo sutil com que olhei pra mamãe pra dizer que gozei...

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Leonardo Spoke Quintela

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

CONVERSA DE CHUVA



















não sou eu,
é o destino!

ele me cai do céu,
me enfia
no meio da terra

e prenha o mundo dos outros.

se dá de nascer esperança
fazem festa em minha enchente.

se dá de chorar a dor
na hora viva do parto
me cantam à capela,

com direito a roupa preta,
vela grande, branca e acesa
no meio das mãos da santa.

não sou eu,
é o destino!

só faço fechar os olhos
quando me precipita
o avolumado negro das nuvens...

Anderson H

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

POR QUE DÓI?


















Diga, o que dói
Na menina,
Se é a sina
Que assassina seus conceitos.
Quisera-a comigo
Apertada bem forte
Contra meu peito,
Afagando seus cabelos negros
Que - não nego -São lindos
Sim.

Eu a quis para mim,
E não a queria longe.
Transformei-me
De mundano, a monge.
Mas cada uma daquelas dúvidas
Fizeram nossas viagens
Viúvas
Uma da outra.

Como não lembrar daquela boca...
Abrindo o céu para mim?
Da alma despida,
Do sorriso lindo
Adornado...
Como esquecer,
De ter sido amado
Com toda a força
Da imprudência?

Talvez tenha sido essa a dor,
Essa mesma que dói, dói, dói...
E que corrói
Cada momento em que tento
Entender.

Dói. Eu sei.
Mas
Porquê?


Eduardo Perrone

domingo, 24 de janeiro de 2010

A RELATIVIZAÇÃO DA FAMA























_No futuro, todo mundo terá seus 15 minutos de fama.
Andy Warhol


Quano Andy Warhol proferiu a frase acima, não imaginava que a mídia mudaria tanto, que mesmo aquilo a que chamamos fama (a tão almejada deusa grega) passaria por profundas modificações. Na época de Warhol, a fama tinha seu espaço nas revistas, nos jornais, no rádio, no cinema e, acima de tudo, na televisão. Isso a tornava inacessível para a esmagadora maioria das pessoas. Você tinha de "merecer" ou "conquistar" seu espaço na mídia, para poder ser famoso.
A partir do nascimento da Internet, isso mudou dramaticamente. A nova mídia, feita de forma direta por qualquer pessoa, criou novos pop stars, que existem apenas nela _como a modelo erótica norte-americana Tawnee Stone http://www.tawneestone.com/, a musa dos internautas dos anos 2000, lançada pela empresa Lightspeed, em 2001. A Net também cria "famosos comuns", pessoas que, em um espaço restrito _blogs, comunidades do Orkut, etc... _são conhecidas por várias pessoas no Brasil e no mundo (exemplo brasileiro: a escritora gótica Me Morte, que tornou-se conhecida no Brasil inteiro a partir de seu blog: Vale das Sombras http://valedassombrasmemorte.blogspot.com/ e por sua imagem fake de mulher ninja, ou talibã). Essas pessoas acabam se tornado, sem exagero, os "jornalistas" da nova geração!... Por fim, a Web lança novas celebridades, como a cantora e compositora Mallu Magalhães _que se tornou conhecida graças ao site My Space.
Porém, para além da fama, a Rede Mundial de Computadores também redimensionou a própria experiência com a imagem. Você não mais precisa comprar revistas especializadas, nem ir a desfiles para ver meninas vendendo moda e estilo. Com o advento da câmara digital e de sites de páginas pessoais _como os já mensionados Orkut http://www.orkut.com e My Space http://www.myspace.com/brasil _toda uma geração de garotas pode ter sua fase de "modelo" e ter seu "book" pessoal, sem ter de procurar agências, ou fotógrafos profissionais. Aliás, a própria profissão de fotógrafo ganha nova dimensão. Dá-se adeus à sala de luz avermelhada, com fotos de molho na água. A câmera digital, fez de cada pessoa um fotógrafo. Sendo assim, uma única menina pode ser, ao mesmo tempo... modelo, estilista e jornalista. Basta ter vontade e personalidade!....


Marcelo Farias. Ilustração: minha linda amiga Mayara Müller, cheia de charme e estilo, acessando a Web em seu notebook.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O VAMPIRO DA BELEZA



















Márcio Santana não produz literatura... vive!... Jamais haveria Márcio Santana se não existissem as letras. Carregando seu bloquinho para quaisquer anotações casuais, Márcio fotografa momentos no papel. Produz esboços para depois transformá-los em quadros de intensa vida, como um Degas, um Van Gogh, um Lautrec das letras. Seus textos parecem exalar cheiro, emanar calor... São quentes e úmidos, como a Manaus em que vive.
Espírito da noite, Márcio vaga por bares e praças, boates e bordéis. Convive com amigos e estranhos. Se alimenta de ambiêntes e pessoas como se fosse um vampiro benévolo, que suga a vida para transformá-la em beleza. Seus personagens são o bêbado, a puta, o vagabundo, o drogado, o travesti... Tudo o que cheira, ou fede à vida lhe apetece. São como ilustres anônimos que ganham dimensões gigantescas sob sua pena.
Mas Márcio também delira. Entusiasta do realismo mágico, envereda pelo absurdo para expressar uma outra dimensão do real: a interna. Escreve contos surrealistas que são como sonhos, quase ininteligíveis. Porém, ao decifrá-los, podemos visualizar nuances da realidade que nos passavam despercebidas, ou que não queríamos ver. É como se Márcio fosse parido por Freud e criado (como bastardo!) por Jung. Uma vez adulto, tornou-se irmão de Reich... e rompeu com todas as carapaças!...


Marcelo Farias