quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

NOSTALGIA AROMÁTICA

















No meu bamba branco eu voava
nas asas da naftalina para escola:
o perfume primaveril dos jasmins nos cabelos da professora,
o cheiro e o ruido do giz,
letras, números, lousa, horas...

O cheiro da pressa no recreio,
cheiro das nossas lancheiras,
cheiro verde dos pés de frutas,
pitangas, pitombas, frutas- bolas,
o perfume da banana no vento das bananeiras.

O cheiro bom de quintal, da chuva no barro
no mato capim-açú, cheiro de segunda feira
do banho tomado no rio da farda branca e azul.
Nada finito cabia em nossos sonhos
sonhávamos os sonhos perfumados
da infância. Ainda guardo
fragrâncias do passado.


Calaça.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

INFERNO REAL


















Eu tive um sonho
sonhei com vampiros ancestrais
que na calada da noite se fartavam, não de sangue,
mordiam pescoços , arrancavam a carne e cuspiam pra cima

Sonhei com ruas infestádas de zumbis africanos
que batiam no peito e rejeitavam cérebros
abriam corpos trêmulos e roiam os ossos
e suas peles deixavam pros cachorros

lembro-me que nas florestas
pequeninas fadas se prostituiam por fama
não podiam ser penetradas , apenas
lambiam, lambiam corpos e mais corpos
e banhavam-se com esperma...

ah! quantas alegorias atravessando o céu
crianças com cabeças de sapo, jogando burquinha
com os proprios olhos, só gritos e gemidos no mundo não havia mais guerras
só moléstias e feras, o inferno à cada esquina,

Queria manter-me dormindo
e brincar de sodomita com os monstros medonhos
seria mais humano e edificante
pois mais vale monstros sanguinolentos
que humanos genocidas
irmão matando irmão...
lutar e trucidar nossa própria especie


Yzzy Daniel. Ilustração: trecho da Divina Comédia em que Dante e Virgílio atravessam o rio do Inferno, por Eugene Delacroix.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

UM DIA PERFEITO






















Relógio mostrando a hora exata em que a bomba de Hiroshima explodiu.


E quando o dia chegar e seu corpo desaparecer, nenhum mal mais o espera!
TAO TE KING – Lao Tse.



Caro diário,

Hoje acordei prevendo ter um dia daqueles. Trabalhei até 01:30 da madrugada no projeto do supermercado. O senhor Ikeda o queria para hoje, sem falta, e perdi preciosas horas de sono para terminá-lo. Não ouvi o despertador tocando e Yoko teve de me balançar para que eu acordasse. Aprontei-me correndo e só tomei uma xícara de chá para aquecer as entranhas. Perderia tempo se pegasse o ônibus, por isso tive de gastar mais em um táxi. A manhã estava clara e ensolarada, alegre para quem quisesse passear, péssima para quem se atrasava para o trabalho. Para pessoas como eu, um Sol amarelo e radiante no céu apenas quer dizer “você está atrasado, vagabundo!”
Acenei para o primeiro táxi que passou. Ele parou... mas não para mim. Uma senhora idosa o pegou. Não sou um cafajeste, mas estava pouco propenso a cavalheirismos hoje de manhã. Por fim um segundo táxi parou. Entrei, informei o endereço e exigi ao motorista: _Rápido, por favor!... O motorista seguiu o mais rápido que a lei permite. Queria eu estar ao volante, ou estar em um filme americano, pois assim o carro estaria voando. Aliás, foi nesse momento que lembrei que já faz muito tempo que não assisto a um filme americano. Exatamente quatro anos, desde que foi declarada a guerra.
Olhei o relógio, eram 08:00 horas, eu já estava no atraso. Hoje seria dia de eu ouvir... O senhor Ikeda jamais perdoa. Penso mesmo que seu lugar não é em uma empresa de consultoria, mas no comando de uma tropa no Pacífico. Pena que ele não está numa... Um morteiro americano prestaria um grande serviço à humanidade em atingi-lo. Ao invés disso, quem é atingido por um torpedo é Yugoro, nosso ex-office boy. O tiro foi tão bem dado que o navio partiu-se ao meio. Sua família ainda teve sorte de ter seu corpo de volta. Se tudo der certo, Kojiro vai voltar para casa mês que vem, papai ficou muito abalado desde sua ida para a Manchúria.
Aliás, hoje também andei sofrendo abalos... Pouco depois das tomar o táxi, tive uma ligeira perturbação. Uma espécie de flash explodiu em minha vista e ouvi um estalo que fez meus ouvidos zumbirem. Fiquei tonto por um tempo, uns quinze segundos, talvez. Penso que fiquei mais perplexo do que tonto. Quando abri os olhos perguntei ao motorista se também havia visto um relâmpago. Ele riu e disse não ter ouvido falar em rumores de chuva pelo rádio. Perguntou em seguida se eu havia comido antes de sair. Ao responder-lhe que tomei apenas uma xícara de chá, ele arrematou que era isso, eu estava fraco.
Concordei inteiramente com ele, dormi mal e quase não me alimentei, devo ter tido hipoglicemia. De qualquer forma, saltei do táxi sentido-me melhor. Aliás, não sentido nada de errado. Entrei apressado no escritório e para minha surpresa... estava havendo uma festa!... O senhor Tanaka estava de pé sobre uma mesa, como em um palanque improvisado, fazendo um efusivo discurso. Os colegas o aplaudiam e reverenciavam calorosamente. Recitava poemas!... Eu sequer sabia que ele fazia poemas. Perguntei à Keiko sobre o porquê daquilo e ela simplesmente me respondeu que era dia de alegria, para eu me alegrar também e não fazer perguntas.
Logo em seguida, cantando em coro, todos seguiram para a sala de reuniões, onde a mesa exibia um copioso banquete. Meus olhos ficaram estarrecidos com tanta comida. Saburo pôs um disco na vitrola e todos começaram a cantar a música e balançar os braços. Foi neste instante que fiz a ele a pergunta fatal:
_Saburo... será que o senhor Ikeda vai gostar dessa bagunça? Aliás, onde está o senhor Ikeda?...
_Ora, Hiroshi, esqueça o senhor Ikeda, ele deve ter ficado preso no trânsito... ou no banheiro!... rra-ra-ra-ra... _respondeu-me sarcasticamente.
Com esta resposta, decidi simplesmente me juntar aos loucos, pois se fosse despedido, pelo menos seria num dia feliz. Tirei o paletó e fui comer, rir e brincar. Senhora Suzuki cantou esplendidamente para espanto de todos. E... de repente, em uma entrada triunfal, ao som de tambores e flautas, Michiko apareceu de kimono, com o cabelo impecavelmente arranjado e o leque nas mãos. Estava linda!... Meu Deus, como estava linda!... Ela começou a dançar enquanto senhora Suzuki cantava. Foi um momento mágico. Todos ficaram calados, deslumbrados com aquela beleza. É uma pena que ela seja casada... e eu também...
Quando ela terminou todos aplaudiram efusivamente. Kyoko, Haruko e as outras mulheres estavam com lágrimas escorrendo dos olhos. O senhor Matsushita enxugava as suas com o lenço. Em seguida, já começando a palhaçada, Saburo tirou um disco de dentro de um saco verde e aveludado. Escondeu-o atrás de si, olhou com um sorriso rasgado para todos.
_Aaaaahhh... adivinhem o que tenho aqui?...
Todos pediram para ele mostrar. Saburo então virou de costas, tendo cuidado de não mostrar a capa do disco. Tirou o vinil da capa, o pôs no aparelho e... era jazz!!! Louis Armstrong!
_Uuuuuuhhhh... fizeram todos aplaudindo e assobiando.
Dançamos o resto da manhã. Tive o imenso prazer de convidar Michiko para dançar, mesmo ela estando de kimono. Por sinal, o fato de o kimono ser apertado às pernas até deu-lhe um toque de Ginger Rogers. A festa terminou pouco depois do meio dia. Sai relaxado, carregando o paletó às costas. A rua também parecia alegre, muitas pessoas sorriam e se cumprimentavam cordialmente. Onde estava o sisudo corre-corre? Acenei para o primeiro táxi que passou e ele parou. O motorista abriu a porta sorrindo gentilmente. Conversamos durante a viagem e ele me falou que esta seria sua última corrida, pois ia sair de férias.
Eu olhava para as lojas e elas mais pareciam jardins, tantas eram as flores ornamentando suas entradas. Por fim cheguei em casa. Quis pagar o taxista, mas ele me surpreendeu:
_Não precisa, esta corrida foi cortesia.
Abri o portão de casa como se tivesse acabado de chegar de longas férias. Yoko e as crianças me receberam fazendo festa. Rodearam-me pulando e agarrando-me como se tivessem preparado uma surpresa. Novamente me espantei.
_Mas o que está acontecendo? Hoje é o dia dos loucos?... _perguntei bem humorado.
Entrei em casa abraçado à Yoko e com Ken e Tamiko me puxando pelas calças. A mesa estava posta de maneira simples, mas alegre. Sentamos, comemos e nos alegramos. Ao fim da refeição, Ken e Tamiko foram brincar e eu fui com Yoko tomar um banho. Ficamos juntos a tarde toda como se fosse um sábado. Ao cair da noite, ela foi contar estórias às crianças, que logo adormeceram. Depois, enquanto jantávamos tranqüila e confortavelmente, Akira e Haruko chegaram de surpresa. Os recebemos com muita satisfação e eles passaram a noite conosco, lembrando saudosamente o dia de nossos casamentos.
Não quis ser inoportuno, mas perguntei a Akira se ele já pagara sua dívida com o banco. Ele sorriu e respondeu:
_Ora, Hiroshi!... Nem lhe conto! O banco perdoou minha dívida. Ligaram para mim por volta das 08:00 horas e me disseram que eu havia sido agraciado com um prêmio. Meu prêmio é justamente não ter de pagar mais nada e ainda ter todo meu crédito de volta!... rra-ra-ra-ra...
Ao soar das 22:00 horas eles se foram. Quando nos recolhemos disse a Yoko o quanto estava estranhando tudo estar tão bem, tão perfeito.
_Até os Watanabe não fizeram barulho hoje. _comentei. _Aliás, eles viajaram? Sua casa está fechada, não há ninguém lá...
Yoko então segurou meu rosto com suas duas mãos e me disse ternamente:
_Por que se perturba Hiroshi?... Está tudo bem, querido. Tudo em ordem. Foi só um dia feliz, só isso. Vamos dormir, amanhã será um novo dia, você não tem de se preocupar. _ e tendo falado isso, olhou-me cheia de amor e beijou-me.
Estava deitado com Yoko ainda há pouco. Deixei-a dormindo profundamente na cama. Estou agora aqui, prestando contas a você como faço todas as noites. Confesso que ainda estou perplexo. Não apenas com tanta felicidade, mas com as ausências do dia de hoje. O senhor Ikeda não é de faltar e mesmo se faltasse mandaria algum recado. Os Watanabe não disseram a ninguém que iam viajar. Por sinal, ninguém soube me informar para onde foram ou porque partiram. Também acabo de lembrar que Jiro não ligou hoje. Ele sempre me informa o estado de saúde de papai.
É... meu caro diário, talvez eu seja, realmente, um sujeito muito preocupado que não sabe ser feliz, porque nunca se sentiu inteiramente assim. Penso que devo aprender a partir de hoje. É engraçado, nunca pensei que se precisasse aprender a ser feliz. De qualquer forma, o projeto que o senhor Ikeda queria está pronto e não terei de me preocupar com a gritaria dos Watanabe. Estou me sentindo muito bem, apesar do mal estar de hoje de manhã e não senti um pingo culpa pelo que fiz ou pensei. Mesmo quando me maravilhei com Michiko. Aliás, diário, sinceramente, felizes eram os xoguns que podiam ter várias mulheres. Fique com esta! Boa noite.


Nakamura Hiroshi, Hiroshima, 06 de agosto de 1945, 23:31 da noite.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

DES,PAISAGISMO.JPG


















Troquei de roupa,
desci as escadas.
A cozinha estava vazia.

Subi pro quarto,
abri um livro,
li uma página.
Desci.

A sala estava vazia,
subi.

Toquei um pouco de teclado,
cansei das mesmas notas em alguns minutos,
desci.

Vi um maço de cigarros jogado, eram de mamãe:
dei um trago, engasguei, apaguei, joguei fora, assoprei o cheiro.
Desci.

Subi.

Não havia ninguém lá em cima,
nem la embaixo.

Saí.



Gabriela Nieri.

BORDERLINE






















O sorriso
me sangra
em rendas
negras e brancas...

É tudo ou nada,
de mãos atadas
nas costas
suadas...

E mais uma vez,
a um passo do fim,
perdida em mim..

no resquício sombrio
da insana certeza...

posta à mesa,
eu serei o jantar...



Agatha R. Ilustração: Mulher Chorando - Pablo Picasso.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

ABORTO






















Maria levantou tarde. Era uma das poucas vezes que teve esse luxo. Decidiu não trabalhar hoje, ou quem sabe nunca mais. Da sua janela via mais janelas. Por um momento pensou em ser um pássaro, voar até as mais altas e quem sabe mais perto do céu encontrar um pouco que fosse de conforto. Desistiu. Sentiu mais uma vez as fisgadas em seu ventre. Abaixou-se no canto da sala e implorou para que a dor aumentasse. Queria que aquela dor ultrapassasse a outra que rasgava o peito e a fazia delirar. Maria nunca foi dada a delírios. Gostava mesmo era de “apaupar” as coisas da vida. Apesar de que há algum tempo, era a vida que a estava pegando e dava pra ver Maria sonhando acordada, cantarolando nas ruas, imaginando como seria entrar de branco e véu em qualquer padaria ou farmácia só pra mostrar pra todo mundo que havia se tornado “senhora dele”. Quanta bobagem! Pensava ela. A realidade era outra. Há dias só enxergava coisas marrons ao seu redor. As outras cores, àquelas que de vez em quando nossos olhos teimam em querer ver, já não existiam mais pra ela.Lembrou da dor... das dores... Encolheu o corpo, com a cabeça entra as pernas chorou bem forte. Não entendia porque Deus não a ouvia. Gritava, mas era em vão. Maria estava sozinha. Levantou devagar e sentiu o gozo descer em forma de sangue pelas suas pernas. E só então, teve a certeza do fim.




Carla Abreu.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A DANÇA DE SALOMÉ






















O sabor do fruto comido à noite
tem algo de inebriante.
O jogo entre a luz e a sombra
é como o espelho da alma.
A paixão é a pena que escreve o enredo da estória
e a felicidade é triste,
pois é triste ser feliz.
O amor dói
e o sono é o conforto temporário.
Meus sonhos não me deixam dormir.
Sonho como uma noite de verão!
O dia é a noite de uma estrela só
e a noite é o dia dos que sonham.
Não tenho religião.
O herói é filho dos deuses!
Deus criou a loucura
pra brincar de São João.
Perdendo a cabeça num prato
Na dança de Salomé.
Vamos perder a cabeça!
e brincar de esconde-esconde!
Na noite de São Nicolau
ressuscitaremos ao terceiro dia!




Marcelo Farias - Ultramodernidade. Ilustração: Salomé - John Coulthart (2002).

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

AS JURAS QUE FICARAM NA CALÇADA

















Eu ouço trinta dores e um só cárcere
Da alma enferrujada em contramão
Final de vez, vendido pelo chão
Num peito que abana um Céu de mármore.

As celas que ficaram pela estrada
Prendendo um sem-amor em quase tempo
São juras que ficaram no cimento
Promessas que deitaram na calçada.

Cadeias são correntes besuntadas
Num elo de morfema intransigente
Prisão a sete chaves de palavra.

Verdugos são dois pães de uma só lavra
Na grade que circula permanente
As garras dessas cores amputadas.



dos Anjos.

domingo, 21 de dezembro de 2008

DEZEMBRINO


















Dezembrino, faz tempo, vinha rolando aquela idéia feito porronca. Desempregado que era, tinha tempo de andar por aí. Em casa, Saturnia espera puta da vida. Puta mesmo, sugestão do Dezembrino: “como conseguir uns trocos?” na vida, ora porra! No começo não, mas agora, Saturnia até sentia um certo prazer. O que obrigava o marido a sair de casa. Não dava para ficar atrás da cortina e fingir que não ouvia. Era o primeiro chegar e ele abria de casa. E Saturnia, no dia-a-dia, no vamo que vamo, começou a sugerir, exigir, impor coisas que mulher certa não faz. Era um negócio de beijar, pedir mais e até ficar por cima.
Hoje é o dia do Rogério da Balsa. O cliente mais abonado e, coincidentemente o ultimo patrão de Dezembrino. O da Balsa vinha toda quinta as cinco da manhã, e antes de começar o vai-e-vem do Rio Negro, fazia um vai-e-vem na mulher do Dezembrino. Hoje é o dia do Rogério da Balsa.
Dezembrino não podia mais enrolar aquela idéia. Hoje tira o pé da merda ou se lasca de vez. Era só abordar o macho na hora e pegar a grana. Escondeu-se debaixo do barraco e esperou. O da Balsa chegou batendo os pés para limpar as botas. O barro caindo na cabeça do Dezembrino.
Entre Rogério e Saturnia, nem bom dia. Direto pra cama coisas e fazer barulho. O homem debaixo da casa esperando. “Vixe, que é agora!” Sorrateiramente, pega a peixeira e vai pro quarto. O lençol sobe e desce no compasso do coração ferido do Dezembrino. Mira na nuca e enterra firme: “Uh!!” levanta o lençol e o Rogério o encara. Saturnia se debate aperriada e o sangue esguicha.
– Porra, mulher!! Não falei que esse negócio de mulher por cima é coisa de vagabunda, porra!!”


Artur Farrapo

sábado, 20 de dezembro de 2008

ÉDIPO






















Passo o tempo vendo minhas resoluções
Lapsos de hemorragia que me empurram
Em regressão descompassada intensa
Filho de um ventre imundo que se fez calar
Mudo ao longo de minha pobre vida
Imagem áspera petrificando carinho
E o mesmo esbanjando pelas ruas, reavivado
Pelo gosto barato do dinheiro, confesso
Que afundado pensei na saudosa figura que
Tanto me açoitou...
-Saudosa seria a carência, não a vivência
E nas picadas na veia, se afundou estúpida, depois
De dar-me a ultima surra.
Imóvel minha postura manteve-se
Ao contemplar suas combinações nervosas, fervorosas em espasmos
E pasmo com uma única lagrima, sorria a deteriorar a força de seus
atos
com sua cabeça logo abaixo de meus pés.



Yzzy Daniel. Ilustração: Édipo e a Esfinge - detalhe de cerâmica grega antiga.

Além Mundo



Sob o velcro do dia, os projéteis dissimulam em picadeiro,
Aos pensamentos que me tem em sabotagem,
Vazam espectros, de tormentas que distorcem sobre mundos.

Ao passante, tem por arte a pintura do passado,
Que distante, visa adentro das memórias e
Discorre ao próprio vândalo que intercede.

Implode ao real, por toda linha, as circunstâncias.
Entre a vontade que se move o cancro em atitudes,
E se estende em sol poente sobre os olhos.

Razões surgem surdas sobre as faces,
Por impulso que sussurra lentamente,
Arranhando pelo muro dos meus veios,

Vaga um mundo nas estradas, minhas veias.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A ENTREVISTA


















Eu havia vendido alguns dos meus livros naquela noite e pare no bar do Lusitano para tomar umas cervejas que ninguém é de ferro. Foi lá que conheci Anne Rocha, uma cantora da noite. Ela bebia sozinha no balcão bem ao meu lado. Olhava curiosa para mim e para a pilha de livros dispostos no balcão de vidro. Quis saber se eu é que tinha escrito aqueles livros e eu respondi que sim, que eu era escritor. Pediu gentilmente para olhar e eu a deixei deixei folheando um deles enquanto fui apanhar uma cerveja. Quando voltei, ela me recebeu com um sorriso doce de bêbada e perguntou: "Quanto é que está vendendo?" Disse-lhe que era R$10,00, então ela disse: "Não posso levar hoje porque estou dura, mas você pode divulgar esse seu livro na Rádio Porto Fluvial, fala com o Saraiva amigo meu que é locutor, diz pra ele que você é escritor e que é amigo da Anne Rocha." Então eu disse: "Poxa, que legal! Tudo de que preciso é de um espaço, ainda mais numa rádio. Quando posso ir?" "Amanhã, as dez. Eu vou estar lá." "Então eu vou." E ficamos conversando um pouco mais até ela anunciar que já ia embora porque esava ficando pesada demais, então eu resolvi ofertar-lhe um livro de graça e prometi que pela manhã, as dez, eu estaria lá na tal Rádio. Aí ela se foi.
Não pude ir pela manhã porque acordei com uma puta ressaca e já passavam das onze, de modo que arrisquei ir à tarde. As três em ponto, eu já estava lá atravessando a rampa do Porto Hidroviário atrás da tal rádio. A tarde declinava em calor, tédio e ressaca. Eu ainda ouvia vozes dos bares de ontem chacoalhando dentro da minha cabeça. Alguém me informou que o estúdio ficana na parte superior e eu subi as escadas que me levariam finalmente à rádio. Como era uma sexta feira, o movimento era intenso no Porto, "Se aquela gente toda me ouvir vai ser muito legal!", eu pensei alegrementeenquanto passeava meus olhos ao redor. Chegando, dei logo de frente com o Saraiva, o locutor. Um cara com uma cara de Amado Batista; um rosto redondo e chato, mas ele me sorriu amigavelmente e pediu para que eu entrasse e sentasse enquanto anunciava a chegada de um barco que vinha de um interior desses qualquer. Quando pôde mé dá uma atenção, eu disse: "Sou um amigo da cantora Anne Rocha, ela canta na noite e divinamente bem, diga-se de passagem, (eu na verdade menti, nunca a vi cantar até ali, mas é preciso rolar os dados)ela falou da rádio e do espaço que eu poderia ter para eu divulgar o meu livro. Sou um escritor." Mostrei o livro pra ele. Ele pegou o livro. olhou a capa como quem se olha algo estranho, virou as páginas e deteve-se numa das linhas, foi aí que percebi que seu semblante foi ficando pesado à medida que ele aprofundava-se na leitura. Vi logo que o livro pareceu não agradar muito, dado a grave estética facial dele que se avolumava. Depois de um tempo, ele finalmente disse: "Mas isso aqui é um livro pornográfico!" Aquilo me pegou de surpresa. Reagi. "Livro pornográfico?" Me ajeitei melhor na cadeira e equilibrei o riso. "Meu amigo, voce fala aqui de vagina, pênis, cu e sei lá mais o quê, e vem me dizer que não é pornográfico? Eu não vou divulgar isso aqui na minha rádio não, cidadão." "São símbolos, metáforas; trata-se de um recurso estilistico muito usado pelos realistas mágicos." Tentei convencê-lo. "Mas olha isso aqui: "o pênis apontava em direção ao firmamento explicando as estrelas, pois que gostava tanto da física quanto das palavras." E olhando sério pra mim, disse: "O cara segurando um pênis, porra!" Começava a ficar engraçado. "Não há ninguém segurando o pênis, Saraiva (e eu já estava ficando intimo do cara) o pênis tem articulação própria, assim como a vagina e o anus, eles são membros desprendidos do corpo e portanto, tem vida própria, estão em busca de uma identidade, de afirmação, pois que não dependem mais do conjunto humano. É disso que eu falo: do desmembramento." "Meu amigo, isso aqui é uma rádio de respeito, lá embaixo tem gente de família, crianças e eles não vão gostar do que vão ouvir. Isso é literatura pornográfica!" "Não é não,Saraiva, está sendo taxativo, isso é literatura universal." "Se ainda falasse das coisas da terra, como os outros artistas que aqui estiveram, mas convenhamos, falar de vaginas e outros orificios, isso aqui não rola na minha rádio. " "Já tem gente que faça isso. Eu escrevo sobre outras coisas. " "Foi uma luta pra não tocar mais esses forrós de baixo calão, pra moralizar essa rádio, e voce vem com esse livro." Nesse instante, entrou um cara alto e bem vestido e interrompeu a conversa. Trazia consigo um cd da Mariza Monte e pediu para que o Saraiva tocasse.
Ele ouviu um pouco da conversa e quis saber com polidez do que se tratava, tendo em vista a irritação estampada na cara do Saraiva. "Este rapaz aqui quer divulgar um livro que ele escreveu, mas não tem condição, doutor. " Olhei de relance pro cara e notei que ele usava um crachá da policia civil. Agora ferrou de vez. Certamente ele iria pensar o mesmo. O mundo estava perdido. A minha literatura estava perdida. Pensei tudo isso. "Posso olhar?" Perguntou ele. "Sim, por favor!" " O conteúdo é pornográfico!" Insistiu o Saraiva. " Do que se trata o teu livro mesmo?" "Bom, - me posicionei como um pugilista pronto para um outro round -é sobre um órgão sexual feminino que surge na testa de um cidadão comum, aspirante a escritor, e esse órgão fala, tem vontade própria e acaba transformando a vida pacata desse cidadão num completo absurdo. Mas é claro que não se trata apenas disso, o livro trata também das relações humanas, da busca pela afirmação, do amor, de um cotidiano brutal a que todos nós incondicionalmente estamos inseridos. " "E o que há de errado nisso, Saraiva? Eu também tenho uma vagina na testa, você não?" Respirei com alivio. Havia ganho um aliado. "Deixa que o leitor faça a sua própria interpretação. Nelson Rodrigues - e aí ele se estendeu um pouco - foi um escritor muito censurado em sua época porque achavam que o que ele escrevia eram textos pornográficos, no entanto, o que ele falava era tão somente da hipocrisia de uma sociedade. E ele está aí, e é o mais lido na atualidade e eu adoro Nelson Rodrigues." E virando-se pra mim, perguntou: "Você já leu o Anjo Pornográfico?" "A biografia? sim, já li." (e eu de fato lera, também gosto de Nelson Rodrigues). "Viu Saraiva? vê-se logo que o jovem aqui tem leitura. Deixa o cara! Quanto é esse teu livro?" "R$10,00" Sacou da carteira com a insignia da policia civil e retirou de dentro dela a quantia certa. "Assina ai: Tenente Álvaro." Autografei o livro com uma satisfação e com uma alegria que não cabia dentro de mim. Fiquei imaginando a reação indignada do locutor com cara de Amado Batista. "Pronto!" Entreguei o livro a ele. "Vou ler ainda hoje. E não esquenta não, ele vai divulgar o teu livro, não é Saraiva?" E aquele homem bom e sensato despediu-se dando uns tapinhas nas minhas costas. Saraiva virou pra mim com uma cara de poucos amigos e disse: "Escuta, Mário, eu vou divulgar esse teu livro sem mencionar esses detalhes, embora eu não aprecie este tipo de literatura." E pegou o microfone e divulgou o livro. Foi estranho e engraçado ouvir o meu nome e o nome do meu livro sendo anunciado no alto falante de uma rádio. Não rolou entrevista alguma, é claro, tampouco apareceu alguém no estúdio para ver o livro. Mas que importância tem? Deixei o lugar com a certeza de mais uma vitória e subi feliz como um gigante pequeno a Avenida Eduardo Ribeiro em direção ao Bar do Lusitano para comemorar.



Márcio Santana.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Extra Extra! Tecelão!



Com vida que se estende em corda por seus nós,
De linhas-palavras entrelaçadas por ponto e cruz,
Com verbo em agulha evocando a ação,
De driblas em meias-curvas, penetrando no corpo de vestes.

Dedilha em maestro um dedal,
Traja colete de versos brancos,
Economiza em estrofes pobres
Por não ter dinheiro do porte burguês.

—Dá bainha naquele impulso, Sinhá!
—Nossa! Cai como luva em seu inverno!
—Dá-lhe cinta! Segura o fecho mediano
Pra que não caia em samba, canção.

Acaba por fechar os botões (de rosa) da gola,
(H)À quem fica sufocado!
Em reservas por sua manga em punho,
Ao reger partitura nas meias, ou meios...

Guarda a máquina na cuca,
Desconfia das indústrias bélicas,
Lá pro meio das Avenidas,
Daquela de São Francisco à Los Angeles.

É empenho por comissão,
Crochê embotado e fora de moda,
Extra! Extra! Tecelão faliu!
Revolução Industrial!

Virou tecido sintético...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A ROSA E A RAPOSA





















Para Ivone


Teu olor de rosa se calou
e no espelho tu viste a raposa.
O planeta era muito pequeno.
Uma volta
e clareava o dia.
A noite era tua ilusão,
passageira,
diante do Sol.
Vale a pena limpar os vulcões?
A rosa não sabe varrer
e a raposa comerá trigo
pra morrer de fome e promessa,
cega de amor.



Marcelo Farias.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Iris.



Ao compendio que se subentende sobre a face,
Pela maquiagem que lhe mente ao seu excelso...

De cinzas de tomos que se expressam,
Por ser dos sentimentos vulgo torpor do sonhador,
Que ora, pois, dos teus erros e sentires, tens de si, criador.
Estrelas que implodem em Super Nova!

Cuidado! Quer-se suicidar não pensa!
O próprio saber peca por se esquecer.

De acordes que destoam em réquiem,
Tragando com dissabor as palavras,
E findar barco à vela em deriva.

(Resposta ao Espinha Dorsal, de todo grado, mereça o resposteiro como presente de gratidão.Inté.)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Espinha dorsal.


Singulares - as falcatruas nuas!
Puras e cruas - as palavras pronunciadas sem sentido;

Fingindo uma cor - lazer em dor -, não sabes o significado do amor;
Talvez o temor de sentir demais acabe comigo - contigo.
Flutuantes almas resistentes(?) - inconstantes somos!

Principiando o que mais poderia doer - o suicida sabe o que faz;
Suas vidas excitam os que não sabem seus valores.

O principal de tudo ainda são as letras;
Contente-se com o que carregas - lentamente -, indecentes são as afirmações jogadas ao vento.

(Resposta ao poema "Grilhões de uma Alma em revoada".)

Grilhões de uma Alma em Revoada.



Jazem taciturnos os filetes de alma da Vida,
Ela que vai desenhando o próprio demônio na alma dos homens.

De homem, ao que livre se desterra em razões e palavras que o elevam,
Se prende nos sentimentos que claustram os ventos do fôlego,
Que rasgam a pele do ânimo,que implode em tripas as verdades.

Ao abono que se abstém de glória, dos vícios e preceitos que cercam,
Por todo o adjunto que é o espírito, driblado por vontades, palavras imantadas,
Como ímã guiando por uma morte magnética, decifrado os vazios,
Buracos negros e lacunas da Vida, essa senhora virtuosa que sempre sabe
Onde colocar o ponto final.

Ao suicida, se tem somente por querer matar a dor,por certas memórias.(Ou a falta...)
Ao deserto que se tolda o mundo subcutâneo, é por miragens que se fazem as ilusões.
E por sístole, é o que se tem o recuar de todo compasso, revolta do marco e do ritmo.

É Tempo que toma chá com a Vida, só pra nos tirar das férias. Por findar em tragédia.

(Texto em resposta do Redoma de Vidro, que o resposteiro se faça suficiente e que supra a mote de tais versos, até logo.)

Redoma de vidro.


Sobro com uma parte de mim ainda dentro;
Recipiente sujo - nojento -, cinzeiro de demônios ligeiros.

Risos e vômitos sobre a alma que inventei;
Comédia longa e cansativa - nada mais me convêm.
Tirem-me a vida! Tirem me a dor!
Porém, que permaneça o calor desse inferno.

Inverno quente;
Ritmo contente que invadem nossos(?) ouvidos.

Escute-os...

sábado, 13 de dezembro de 2008

OS SAPATOS

















É uma quinta-feira de julho e hoje eu sou o único homem na face da terra com essa cratera no peito. Clarice não me ligou. ainda bem que existem os sapatos. Sim, os sapatos! estão sempre presentes pra te confortar os pés e a alma. são sem dúvida os melhores amigos do homem. Sempre com voce, antes, durante e depois da sua morte. Ao contrário do que se pensa, não são os cães os melhores amigos, não: são os sapatos! Quanto mais velhos, mais solidários eles ficam. Vou à varanda olhar a rua antes de ir trabalhar. Depois do trabalho, já não faço muita idéia aonde vou. Quem sabe até ao bar mais próximo beber com meus sapatos novos; animar um pouco o meu dôce e pândego fígado. Olho o sol e ele me retribui com um sorriso caridoso. Faz sua parte lá de cima enquanto as coisas aqui embaixo se arrastam. ahhhh, se não fossem os sapatos! me sento aqui um pouco na varanda de casa e olho para eles. Sapatos novos! os vi expostos esta manhã na vitrine de uma loja na sete. estavam lá, pousados como pássaros. Dois belos e serenos pares de sapatos marrons que me acompanhariam desde então na minha árdua jornada de todo o santo dia. Sapatos para se usarem até a exaustão.
O funcionário se aproximou de mim e perguntou: "_Deseja alguma coisa, patrão?" "_Sim. Aqueles sapatos ali." "_Quanto o senhor calça?" "_38/39, eu acho." "_Vou pega-los." - Sentei um pouco e fiquei ali olhando para todos aqueles sapatos expostos na vitrine, como passarinhos. Me olhavam, me queriam. Se eu pudesse os levaria todos comigo. Não somos nada diante dos sapatos e isto é um fato. Toda nossa existencia miseravelmente humana não vale uma pedrinha dentro de um sapato. Meus prediletos morreram ao lado dos seus sapatos: Dickens, Dostoievsky, Genet, Bucowsky, Guimarães, Lima Barreto, Andersen, Artaud, uma porção deles. Antonin Artaud, por exemplo, morreu enquanto amarrava o cadarço de seus sapatos num quartinho, em Paris. Dickens achava seus sapatos um tédio, mas no fundo ele os amava. Pediu para ser enterrado com eles. Os sapatos são tudo na vida de um homem. Solidários, generosos e nos ouvem. Não falam, e claro, mas nos ouvem. Ficam ali paradinhos ouvindo as nossas dores. As dores do mundo. São os únicos que não se queixam da vida. São safos. O cara que os inventou tinha uma alma larga e generosa. Não custo a crer que os sapatos possuem alma, dada a relevância de seu caráter e de sua estética.
Ele tornou: "_Prontinho, meu patrão. Os seus sapatos!" Jás eram meus. Sorri. Perto, eram bem mais elegantes e austeros. Senti sua textura. Seu cheiro. Experimentei. Me senti leve e feliz. "_Então?" _Ele perguntou."_Couberam direitinho." Reparei que o vendedor calçava tênis em vez de sapatos, por isso perguntei: "_Voce não usa sapatos?" "_Não gosto de sapatos, patrão." "_Mas deveria." "_Porque deveria?" - Pensei um pouco. "_Porque os sapatos nos deixam mais humanizados." Sorriu novamente sem entender patavinas. Tinha um pouco mais de vinte. Foi divertido."_Essa é nova." _Ele me disse. "_Vou leva-los." "_r$45, com descontinho. "_Não me importei muito. Não me importo muito com o preço quando se trata de calçados. Dei mais uma olhadinha neles e me senti renovado. Foi como calçar uma alma nova. "_Acha que vou morrer aos 45?" perguntei pra ele. "_Que nada! o senhor ainda vai provar muitos sapatos." _Disse-me fazendo a notinha.Sai da loja calçando meus sapatos novos, radiante e feliz. Vejo-me aqui agora, sentado na varanda de casa, apreciando a tarde e curtindo os meus sapatos novos. Acho que não vou trabalhar, é. Ficarei aqui quieto no meu canto olhando para os bicos dos meus sapatos que me sorriem. Uma revoada de pombos grisalhos cruzam os céus da cidade em vôos rasantes. Pombos grisalhos como o tempo que se agrisalha. E Clarice que não me liga. Sabe o que eu acho? Acho que esses sapatos vieram em boa hora. Me ajudarão a cauterizar um pouco, a ferida que hoje eu trago no peito.


Para Mariza Marques. Manaus, 28 de março de 2007.


Márcio Santana. (blog: http://notasdeumdegenerado.blogspot.com/).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O SOLO SEM FINAL




















Eu vi na face de um pequeno lodo
O chão abandonado à própria sorte
De cacto que geme em plena morte
De um germe deserdado pelo todo.

Banhei-me na tormenta que secou-se
Por boca de um crepúsculo sem dentes
Em baldes de quimeras, pés dormentes
Sem voz do meu resíduo que calou-se.

Eu durmo numa rede presa em mangue
Com rastros de uma corda-mãe profana
Nas bênçãos de poeira em todo mal.

No testamento que eu vivi com sangue
A capa era uma cruz parnasiana
E a letra era um solo sem final.



dos Anjos. Ilustração: John "Bonzo" Bonham em ação.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

FECUNDO























A lua estava divina, imensa,
ainda que só metade
refletisse o brilho do sol
em um amarelo perturbador.

Pendia como se fosse
escapar pelo rasgo do céu.

Eu viajava por fora,
pedalando ao seu encontro,
e por dentro,
onde o whiskey paraguaio
e a cannabis me eximiam
de qualquer possível lucidez.

Assim, louca, livre e feliz
pela primeira vez eu vi
o céu grávido da lua.



Agatha R. Ilustração: Terra vista do espaço - NASA.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

TINY BRICKS






















Build a playhouse for me.
With tiny bricks painted red,
cut crystal windows,
miniature geranium beds.
Build a playhouse for me to play in.

Build a passion for me.
With small gestures and mounting tension.
Build a passion for me to play with.



TIJOLOS DE CRIANÇA


Construa para mim uma casinha de brinquedo.
Com tijolos minúsculos pintados de vermelho,
janelas de cristal lapidado,
canteiros de gerânio em miniatura.
Construa uma casa de brinquedo, para eu brincar nela.

Construa uma paixão por mim.
Com pequenos gestos e tensão crescente.
Construa uma paixão para eu brincar com ela.



Betty Vidgal (Liz).

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

IRA DE VERÃO


















Cão furioso,
sarnento, sem pêlos,
que apodrece
babando câncer,

sobe ao pino,
torrando pele e ossos,
irado de ódio,
velando carne

todos os dias
no crepúsculo doente
queima estilhaçada
a cidade de concreto


Calaça. Ilustração: Cérbero - Gustavo Doré.

O OLHO
















"Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!"
(René Magrite)


Na madrugada de maio daquele ano bissexto, Valdivino foi surpreendido com a presença de um Olho humano parado bem no meio do corredor de sua casa, quando ele dirigia-se ao banheiro para urinar. Valdivino que jurava já ter visto de tudo áquela altura de vida - tendo ele aqui, quarenta e poucos anos - achou que era mais uma daquelas aparições absurdas que sempre pontilharam sua vida até ali; ou então foi mesmo a pamonha estragada de D. Marcinha. Fosse o que fosse, havia ali, bem a sua frente, um Olho humano a encará-lo, e a propósito desse Olho humano, tratava-se de um Olho escuro e gordo. Um escuro e gordo Olho humano.
Um pouco mais calmo, Valdivino pôs-se a observar curioso o tal Olho. À parte do corpo que constitui o conjunto humano - raciocinou ele - um olho sozinho não teria função alguma, de modo que ele não poderia ameaçá-lo. Mas um olho é sempre um olho: Asqueroso. Punitivo. A função de um olho é tão somente a de bisbilhotar a alma alheia; cobrar dela aquilo que não se pode ver. Eis a função de um olho. Sem dúvida, o mais terrível dos órgãos. "Não é mesmo?" perguntou Valdivino ao Olho que não disse nada, limitando-se apenas a uma piscadela maliciosa. Valdivino recuou em passos leves de volta ao quarto, e ao lá chegar, cutucou a esposa que dormia á sono solto, sussurrando-lhe ao pé da orelha, "Mulher, acorda! Tem um Olho parado no corredor de nossa casa. O que faremos?" Em protesto a ouviu vociferar palavrões cabeludos que aqui não comvém mencionar. Amofinou-se. O queixo longo sobre as mãos em concha. Quem haveria de acreditar nele? E por que haveriam e acreditar nele? Quem até hoje acreditou na chuva de rãs coloridas que desabou no quintal de sua casa quando ele enviuvou de sua terceira esposa? E da pata de seu viveiro que às escondidas flertava com o rusker siberiano do vizinho ao lado, dando cria a oito cãeszinhos de igual raça? O mais recente daqueles casos escabrosos - e aqui ele lembra amargamente - quase foi linchado na fila de um banco ao afirmar veementemente que Cristo batera à porta de sua casa para juntos tomarem um aperitivo. É. Quem haveria mesmo de acreditar nele? E por que haveriam de acreditar nele? E quem era Valdivino afinal? O fato é que ele estava sozinho outra vez e agora às voltas com um Olho humano bloqueando-lhe a passagem.
AS PESSOAS NÃO CRÊEM NAQUILO
QUE ELAS NÃO QUEREM VER!
Desabafou Valdivino.
Voltou ao corredor decidido mesmo a encarar o Olho e acabar logo com aquilo. O Olho continuava lá, imóvel, porém mais gordo, pois que havia aumentado alguns diâmetros. Já poder-se-ia-ver a metade apequenada de Valdivino refletido dentro da pupila dilatado do Olho. Ele que nunca fez mal algum a um olho, perguntou, "O que você quer de mim afinal?" O Olho não disse nada. Olhava-o direto nos olhos. "Está atrapalhando a passagem e eu preciso ir ao banheiro." De nada valeu o apelo, o Olho só piscou em sinal de resposta . Valdivino sondou o sexo do Olho. Decerto que era um Olho feminino, levando em conta a delicadeza dos cílios e a pureza chamejante da íris. Ainda sim, era um Olho, e todo Olho é uma punição.
PUNIÇÃO
PUNIÇÃO
PUNIÇÃO
Uma solução imediata coriscou-lhe a mente. Pegou da espingarda presa à parede do corredor e apontou na direção do Olho, que aquela altura já havia crescido mais alguns diâmetros, tornando-se, portanto, mais asqueroso e ameaçador. "Diz logo o que voce quer?"
"BRAHMS!
BRAHMS!
BRAHMS!"Balbuciou o Olho. "Brahms? Mas que porra é essa de Brahms?" Valdivino engatilhou a arma no instante em que seu celular que ele trazia num dos bolsos de seu pijama ridiculo, vibrou. Atendeu. Uma voz lânguida e chorosa de mulher sussurrou do outro lado num tom conspiratório, peculiar das amantes. "Valdivino? Sou eu, amor, Ester! Por que não tem me ligado mais? Ando preocupada? O que tá acontecendo? Han? Fala Valdivino! Ela tá aí do teu lado, não é? Sei que tá; essa tua mudez eu conheço..." "Não posso falar com você agora, Ester." "Por que? Ela tá aí, não tá?" "Não é isso amor, é que tem um Olho bem no meio do corredor de casa; um Olho humano e eu preciso me livrar dele." "Um Olho, Valdivino? A desculpa agora é um Olho? A porra de um Olho, Valdivino?" "Amor, entenda..." "Sempre inventado coisas, Valdivino (E alterando a voz) VOCÊ É UM FILHO DA PUTA! UM GRANDISSISSIMO FILHO DA PUTA!"
"Querida, é verdade, juro!" "VOCÊ PEGA ESSE OLHO VALDIVINO E ENFIA ELE NO RABO!
E NÃO ME PROCURE MAIS!"
E é claro, desligou. Valdivino deu de ombros friamente. Voltou enfurecido para o Olho e tornou a apontar a arma em sua direção.
"BRAHMS! BRAHMS! BRAHMS!" O Olho insistia em tom jocoso. Um filete de lágrima descia calado pelo canto do Olho. Valdivino que podia ser bobo, lunático ou o que quer que fosse, mas não dado a chantagem alguma - e podia vir de quem quer que fosse, ainda mais de um Olho - disparou um certeiro no meio dele, dando o caso por encerrado. O interessante, e talvez ele não tenha se tocado disso, a não ser você e eu, leitor, é que o impacto do tiro sobre o Olho, foi semelhante ao estouro de um balão cheiinho d´água. Em menos de segundos, o globo ocular nada mais era do que uma poça de substancia cristalina e gelatinosa se espalhando pelo corredor. Valdivino tomou bastante cuidado para não escorregar na tal poça, e ao chegar ao banheiro ele pôde enfim urinar como um potrozinho. Depois voltou para o quarto e meteu-se debaixo do edredon para junto do corpo quentinho da esposa que ainda sonhambulava emitindo roncos de motor. Ele ficou ali de olhos abertos pensando que amanhã, após o trabalho, ele ligaria para a amante e tudo ficaria em paz outra vez. A vida é assim - pensou medianamente - é como um copo que sempre se recoloca de volta à prateleira, ou então como remendo de uma bota velha e gasta. Agora quanto ao Olho, jamais saberia o que ele buscava afinal. Mas e daí? foda-se! Ninguém iria acreditar mesmo!
E Valdivino fechou os olhos.



Márcio Santana. Ilustração: O Falso Espelho - René Magritte.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

POODLES VITORIANAS






















Com rímel e pó
maquilou-se
de sonho e de criança.

O tempo lhe trouxe
mais que rugas,
palidez e temperança.

O choro que enxugas,
não mais rega
tua face.

Floresce-te num impasse
entre borrões e delineadores.
Apaga vidas,

estica amores,
corrige feridas
e te faz senil.

Mas não te preocupes,
Deus te fez de carne,
costela e renil.



Jack. Ilustração: esboço de Yvette Gilbert - Henri de Toulouse Lautrec.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Construção


Resta, como não há esperança, o descuido
os homens põe-se a sonhar
e acabam desdobrando a vida
em pedacinhos de cimento
e descuidam da certeza

Eu, que há muito não vejo janelas,
faço força rumo ao teto
minha parede e poucas manchas
mas existem
pois descuido também

As manchas de minha parede são reflexos
dos meus descuidos e dos desdobramentos da vida
que, ainda em pedacinhos, são cimentos
em formas ignoráveis
sandias
assustadas

feliz será o dia em que a morte não fizer sentido
ao menos aos desdobrados
que do cimento sairão coroados
com a simplicidade do cimento em forma

eu continuo o mesmo
olhando minha parede e minha vida
não faz sentido
mas, ao menos, está em quadradinhos
todos aceitáveis

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

DESTILADOR























Escrevo destilando fel.
O doce sabor que tu sentes,
vem das bordas de carvalho
de tua caixa craniana,
ou das artérias entupidas
de mágoa
que trazes em ti.


Marcelo Farias.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Notre Sang.























Por acaso soubestes, qual força nos envolvia?

Quais sons profanos tu emitia;

Para que eu fosse amaldiçoada por inteiro?


Seu demônio ligeiro!

Trancastes-me dentro de seu peito,

E com desrespeito, me tirou o fim.

Me dando a vida eterna...


Devolva-me à ela! Òh, sentimento mundano!

Seus sons de tamanha proporção,

Me fazem gritar de emoção...

E me comandam por um inferno perfeito.


E já não me atrevo a tentar;

E nem ao menos tento.


Deixo.

“Re-deixo-te”!

Alimento-te com uma alma estranha;

Completamente banhada em lama,

Na qual estive submersa por anos.


Já não sinto.

Minto.

Sinto muito;

Teu puro afago, banhado em almas vadias;

Acompanham suas mãos frias,

Por dentro desses cálices profundos.


E pra você:

“Que se dane o mundo

Tenho comigo um belo cajado,

E poderia jogar carteado,

Com essas almas que possuo...”


Cruel.

Não, melhor!

És um resto de areia

Que apenas me cega, e se faz poeira

Diante de meus olhos.


Vá-se!

Deixe-se ir!

Não se permita prender agora;

Encontraremos-nos outrora;

Talvez numa outra estória...

Escrita por suas insanas mãos.


-14/11/2008.

POLAROID





















O dia apagou-se ao meu rastro,
como se por luz me perdesse em foco,
e ainda que me deixasse em partes,
não me tem por baliza...
Discorre fora de grau e do campo.

Rouba-me os cílios, induz-me os passos.
Montando errado o agora em terceira pessoa,
escondendo traços sob jargões, enganado
demais em meandros de interlocuções...
Catódico em versões, populismo bíblico.

Meu quebra-cabeça de prismas,
quebra a razão sobre cores
e faz da alma, espectro.
Que pelas minhas atitudes
a verdade esteja em foco.

e minha real face, em negativo.



Lucas Augustus. Ilustração: Intervenção sobre imagem de mediadas.lemond.fr - Alberto Taveira.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A FEBRE CAVA TEU DORMITÓRIO


















Quebra-me em três oitavos
e diz que está tudo lindo,
que o passo não é tão fundo
e as águas não são rasas.

Para tua informação,
eu preciso que me cavem
como enfiam o dedo no bolo
da gula coletiva.

É preciso que me deixem à deriva
nas senhas das bocas fechadas
_um segredo sussurrado
e lavagem estomacal periódica
na surdina.

Se o fixo perguntar por mim
diga que flutuo,
que do certo
não me asseguro e, por favor,
cava-me.

Deixe que as asas nasçam entupidas
e as cores transbordem translúcidas.
As nascentes de marasmos
e a vadiagem nas pegadas

_o torto no seu mais sincero sorriso _
evitando as minhas trapaças
e os pássaros alucinatórios
nos divãs sambistas.

As pétalas cruas nos olhos.
Não evites o sétimo solo!
O olhar enviesado,
as unhas na terra,
a cama de cratera
_dormitório de toxina.



Rita Medusa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

SONETO CHEIO DE LIBERDADE
















Razão assiste ao submisso escravo
que beija e lambe os pés de sua dona,
pois que se amam, o gilhão é largo
e o cativeiro lhe é feliz redoma.

Mas não se iluda, ó Flor, que o amor é entravo

no ser feliz que a vida lhe abandona,
posto que o dócil traz em si o bravo
a tomar vida quando o vil questiona.

Para onde vaz? E quando volta? Gris?!
Com que perfume o mar em ti navega?
Me tens lacaio! Por que não sois feliz?!

Será o odor que a terra em ti esfrega
quando deitada em meus ervais carris?!
Dizei-me, musa, por que não te entregas?

Por quê?



Anderson H.

domingo, 30 de novembro de 2008

QUARTO ESCURO


















Se estivesses aqui
neste quarto escuro,
ao som do ventilador de teto
e de David Bowie,

Talvez hesitasses no início,

mas depois repousarias
tua cabeça
em meu peito nu,
e ouvirias
meu coração bater,
finalmente tranqüilo.

Quanto aos olhos, tu
fechá-los-ia,
como se estivesses a dormir.

Eu escolheria algumas palavras
e as escreveria com o dedo
_uma carta
na tua pele.

Talvez entendesses, talvez não,

mas em teu corpo estaria escrito,
como tatuagem indolor.

Tudo o mais estaria esquecido.

Mas meus olhos abrem...

e vêem o mesmo quarto escuro
ao som do ventilador de teto
e de David Bowie...

e a mesma solidão.



André Espínola.

sábado, 1 de novembro de 2008

MEU, TEU PRAZER



















Amputa as pernas
e não estará satisfeito

arranca os olhos
corta os braços

e não estará satisfeito

desvia o sonho
tapa a boca
fecha os ouvidos

e não estará satisfeito

mas eu me abaixo,

de joelhos,
te provo o contrário.


Ivone fs.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

PARA ABRIR A CABEÇA



















Imagine um cidadão de bem, um candidato a escritor, que um belo dia acorda e se depara com uma VAGINA!!!... em sua testa. Isso mesmo! Uma vagina viva, dentada, irreverente, polêmica, que fala e vira sua vida de cabeça para baixo. É com este argumento escatológico, mesmo para Franz Kafka, que Márcio Santana nos apresenta sua obra mais recente, O HOMEM COM A ABERTURA NA TESTA, um livro que transforma o absurdo em uma delicada reflexão sobre a realidade. Autor de DOZE CONTOS AMAZÔNICOS (1998), A FUGA (romance - 2003) e ANOTAÇÕS PARA UM CONTO (conto - 2008), Márcio Santana mantém-se fiél ao realismo mágico, construindo estórias que desafiam a racionalidade, mas são plenas de conteúdo simbólico. Lançado no último dia 25 de outubro, no Espaço Cultural da livraria Valer, o livro pode ser adquirido ao valor de 10,0 $ reais, por reembolso postal. Basta acerssar o orkut http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=4124719550095143876. Grato amigos e boa piração!


Marcelo Farias.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

GRITO



Ah este sonho de amores perenes
Esta necessidade de tí tão exacerbada
Esta dor que dilacera e sangra
Em meu corpo, nos meus genes.

Esta saudade de um tempo
Que talvez nem existiu
É que esta dor é tão forte
Que não me deixa dar um piu

Nos insondáveis limites sem fim
Quedo-me de joelhos, perante ti.
Dono de minh´alma senhor de mim
Prisioneira em meu mundo só dizendo sim

Como um robô eu me submeto
A esta dor, a estas correntes
A estes grilhões que me impões
A este mundo escuro, preto

Esta solidão implacável
Ainda há de me matar
Dói demais, é impossível
Aguentar o tranco, suportar.

Eu só grito!


By Ana Kaya

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

desrealização


montagens de palco à italiana
quadro emoldurado
retomam o infinito e é como se tivesse fim

todos sabem da necessidade
abarcam, aportam, não se importam
fechados a um cubo de madeira preparada
fingem viver

assim é que no teatro se dança
dançam a vida aqui encenada
isso é nada, mas vale a arte
artifício espaço físico tempo psicológico

dançar é não se matar
e dançam a chuva de engenharia
palco à italiana, caixa fria
de onde é possível todo disfarce

resta a opção de descer do palco
desrealizar a realidade
mas fica o medo do salto para a vida
a bomba, a fumaça, o disparate
range a madeira quando pisam
e é o confortável estar-se à elevada

não me venham com desculpas
vocês são os únicos felizes por natureza
recebem a paga justa pelo eximir-se
são frágeis, mas eternos

a verdade atrás da cortina é mais fácil

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Despedida do sonho




a Jacques Barcia


Tive um sonho que se despediu de mim,
Sussurrou um adeus sentido e caiu na vida
Deu a mão a uma esperança e partiu.
Sequer olhou para trás enquanto seguia
Deixando pedaços na estrada perdida.

Gritei.
Gemi.
Implorei.
Pedi.

De nada adiantou
E vi se afastar
Um sonho que se despediu de mim.

O “Corte”



... quando ouviu D. Firmina
um som trepido e cristalino,
que ela bem conhecia por
tê-lo muitas vezes escutado. (...)1


Capítulo II
Senhora
José de Alencar


E pressenti no mórbido e nácar sorriso,
O opaco cristalino...
A taça de Vinho Tinto;
Quebra-se, estilhaça-se, quebra-se...

e heis que surge um corte profundo que lhe rasga a boca,
e, o sangue rubro...

Mancha-lhe a camisa toda!


Flávio Mello

domingo, 7 de setembro de 2008

FIM DE TARDE

















Um dia sentei no teu colo,
no meio da rua.

Fui mais nua
que a rua

e nunca mais te vi,
nem nunca mais me despi.



Ivonefs.

sábado, 6 de setembro de 2008

Enquanto reza o terço



de Flávio Mello



Enquanto reza o terço caminha sob uma singela brisa, mas o suficiente para deixar seus cabelos úmidos, seus passos se espalham pela galeria, o som dos saltos do sapato de verniz, ora metódicos, ora descompassados, sente que está sendo seguido, olha para trás, nada, vira a direita no fim da galeria, desce uma pequena ladeira em direção ao ponto de trólebus, enquanto reza o terço.


Não sabe ao certo que horas são, talvez dez, talvez onze, pouco importa saber que horas iremos morrer, não é.


Ele desce, como já disse, em direção ao ponto onde tomará o coletivo, as poças d’água são como espelhos estilhaçados que aos pedaços se espalham por um chão grafite, as luzes artificiais são como anjos que cercam as pessoas trazendo conforto e segurança, menos para ele que sente o lobo que o segue, sente o cheiro de seu pêlo úmido, de seu hálito carnívoro, dá sinal de ok ao motorista que pára rente ao meio fio, Noite fria não, Sim senhor, como todas de início de inverno, Boa noite, Boa, caminha pelo coletivo que não estava tão cheio como de costume, alcança o meio, vê um acento vago, acomoda-se, percebe que após sentar-se, outro passageiro entra e passando por ele fica ao fundo.


Faz tudo, tudo o que faz é rezando o terço comprado na Igreja Nossa Senhora de Fátima em uma de suas viagens habituais pela fantástica Europa, um homem de intelecto maduro não é homem sem ter conhecido a Europa.


Reza o terço enquanto olha as árvores passando, reza o terço enquanto olha os carros passando, as casas, as placas de anúncio, as de procura-se, as de sexo, percebe ao lado uma senhora, disfarçadamente olha para o outro fingindo não vê-la, Os velhos sentaram a vida toda, ora, agora é a nossa vez, reza, prende o dedo num pai nosso, faz um pedido, tudo bem, Deus perdoa invasões territoriais à custa de sangue, por que não perdoaria um homem de meia idade que nega acento a uma senhora de idade, de outro modo, diga-se de passagem, de muita idade, reza.
Sente a pessoa sentada a sua frente levantar-se, com isso roçar-lhe a perna direita, Desculpe, pensou que o moço daria lugar a velha, mas não, uma delicada flor abriu suas cores revelando suas formas ao cultivador, e uma jovem lívida de cabelos negros se senta, sorri harmoniosamente para ele e recebe um aceno de cabeça, Boa noite, Boa noite, chove, É, bastante, percebe que a jovem carrega ao colo uma criança, É sua, Sim, minha filha, tem uma semana, E como se chama essa coisinha de Deus, Graça, Maria das Graças, como a avó que Deus a tenha, Amém, em meio a conversa ele sente que está sendo vigiado, mas por quem, porque sente os olhos perfurarem a nuca como estilhaços de ferro aquecidos, o sorriso da jovem o acalma.


Continua com suas orações, uma Ave Maria, um pedido, e continua.


A criança no colo da mãe denuncia a fome com um choro terrivelmente desafinado, o sensor materno é ativado e o mamilo libera gotas do suco vital umedecendo a camisa, deixando-a transparente, ele percebe o ato biológico e se ajeita para poder ver e apreciar melhor a cena, a moça com uma das mãos liberta o farto e vívido seio branco, adornado com uma delicada jóia rosa, e eleva a cabecinha da criança ao prazer alimentício, ele por sua vez sente o membro mover-se dentro das calças, sempre carrega um lenço no bolso do paletó, porém dar a mãe tal segredo acabaria com aquela imagem festiva aos seus olhos, os lábios ainda por formar da criança sugando aquele seio delicioso, o cheiro era sentido como um buquê de flores após serem colhidas, o membro se contorce querendo liberdade, seus lábios queriam ser os da criança, suas mãos queriam ser as da menina, pára seu Pai Nosso, o suor desprega de sua testa, o rosto ruboriza, os lábios tremem, e uma mancha seguida de um orgasmo traumático surge, ninguém percebeu, ninguém, aliviado respira, retira o lenço do bolso e seca as gotículas do rosto, a moça vê o lenço, ele lê em seus olhos, entende os pensamentos da jovem, percebe que passara do lugar onde deveria ter descido, puxa a sineta estrangulando-a, caminha inquieto à porta, a moça o segue com os olhos, Será que ela viu a mancha gigantesca em minhas calças, será que percebeu que eu olhava seu seio, a porta abriu, o sentimento de culpa não era maior que o desconforto sentido por estar sendo seguido, Paranóia minha, desce sorrindo, continua a oração.


Enquanto o coletivo se afasta sua respiração se acalma paulatinamente, percebe que não estava sendo seguido, que a moça não o percebera, joga o lenço em um latão de lixo, e como um passe de mágica um temporal cai sobre suas costas, olha para trás e alguns metros à frente o coletivo pára, desce o que parece um homem de estatura colossal, vira-se e aperta o passo, sabe que é ele que o segue desde que saira de casa, sabe que ele é quem o olhava dentro do coletivo, a chuva castiga a cidade, os vapores desprendem-se das casas, dos carros, das bocas-de-lobo, reza com mais fé, será que é fé ou apenas modismo, apenas por ter um pino onde se possa segurar, reza com mais força, está prestes a terminar o terço, sente o cano frio do revolver encostar-lhe à nuca, sente o gosto do chumbo, o cheiro do ódio, o sabor do sangue, não pára de rezar, não pára de pensar na moça, na criança, no seio, no coletivo, a mancha de esperma na calça, que agora a água da chuva misturou como um rio de milhares de crianças afogadas, sente a morte beijar-lhe a testa que outrora estava lavada de um suor pecaminoso, sente o dedo no gatilho, a bala percorrer o cano, penetrar-lhe o crânio, perfurar o cérebro, cai antes de dizer amém.

in Seleção Natural

..........


Flávio Mello


Escritor, Palestrante, Professor e Editor.


Nascido em 1978 na cidade de São Paulo, capital, cidade onde se criou e vive. Casado com Rosimeire da Silva Mello, Bióloga e Artista Plástica, com quem tem uma filha, Alice nascida em 2006.


A literatura para o autor:


"A literatura já não me consome como outrora, já fui mais obcecado por essa entidade filosófica e amórfica, desviei o foco: minha loucura e dedicação agora são minha esposa e minha filha. No entanto, aprendi com isso que posso criar uma literatura mais prosaica, e ao mesmo tempo profundamente preocupada, voltada à realidade em que vivo, ou que gostaria de viver. A literatura, hoje, apenas soma, não mais me dilacera! Haverá um dia em que o que escrevo deixará de ser sonho, passará a ser verso e permanecerá eterno como o vento, a brisa, o sonho... o amor!”


Obras:


· Autor do livro de contos – SELEÇÃO NATURAL, Publicado em abril de 2006 pela Ed. Espaço Idea em Guarulhos;


· Autor do conto O PILÃO, participando de uma coletânea nacional, ENTRELINHAS;


· Escreve – para diversos sites na internet;


· Tem três outras obras escritas (coletânea de contos) a serem publicadas;


· Finaliza o segundo livro de contos – AMAR – SÓ SE FOR ARMADO (título provisório);


· Atualmente se dedica ao seu primeiro Romance Infanto-juvenil (Título provisório: O Menino sem Face).


Mais sobre o autor:


http://flavio-mello.blogspot.com/


http://vervetente.blogspot.com/


semanalmente em:


http://www.gostodeler.com.br/curriculo/377/flavio_mello.html