domingo, 18 de setembro de 2011

PESSOAS FELIZES (ou O Retrato de Dorian Gray)























Pessoas felizes riem forçado,

para mostrar a alegria

que nunca existiu.



Pessoas felizes sorriem aberto,

para que a foto

saia bonita.



Pessoas felizes enrustem derrotas

e cantam vitórias

sem público, ou mérito.



Pessoas felizes têm filhos bonitos,

têm filhos perfeitos

para o Diabo ver.



Pessoas felizes só choram no quarto,

quando a luz se apaga

e não cega mais...


e o retrato se decompõe.



Marcelo Farias

domingo, 19 de junho de 2011

Febre-"quentum".




(A iniciação de um pré apóstolo: água, joelho em rosca e febre; química, só após as nove horas)


A creolina tratou como

dose, o emblema

salivar, que deveria ser salvo

em memória de

Rimbaud;


“Dormi aos quilos,

cabeça pesada trouxe-me

febre”


O quadrangular ato “declamar profecias” sugere desordem. Trata-se de “mastigação vascular”. Não havia sequer encordado os pulsos à maneira de Judas.

Reinou até sua janela-exclusiva-fora-da-gema-décima-sétima-chuva. A cada gotícula – nova-abertura.


“As pernas caem em pé,

porque os bíceps dos homens

estavam separados dos troncos.

Tenho que manter o sol”;


A visão tetraplégica

Minguou consigo as

mãos, chaves-verduras e competência:

“És preciso que migre Deus

para trazê-lo próprio

de volta à vida”;


Rimbaud-tá-morto.

Judas excomunga.


Travestir cães eucariontes enquanto

o mundo está ardendo,

e não culpar “melódico”

ao gerir espectral

confundes o feto com

“parir à mão-falácia”;


Disfarças

a ligeira extinção:

do que vale cortar as mãos fora,

pensando em sacrifício, carne,

tempero humano e sátira, se “Nimbus”

é oratório por dentro

de Pedro e seus leões

magistrais?


(As nove bestas voltaram às tranquilas e desenvoltas frases – acrescentei três:)


- Birra do conjunto.

- Célebre.

- Profetizar espaço.

- Mundo-acabar.

Rimbaud ingere veneno, observemos.


-||-


Cataclisma. Invenção e “Aufos”.

Os bichos desidratados por

sangues. Sem dor.

observa-se por Tekir –

ao nome da montanha – o

que vier de religiosidade

incrementa o

linguajar-de-pano:

§ That fat cigarrete §


|--|


Movimenta a boca,

frenteira rocha,

de ré-possível;

Noé desembaraça a criação

de nova década


(Por inventos, remava em sangue)


& “Yggur” prazer “movimentício”


Os dois nobres cavalheiros

já mantém seu fosco rasante

“Giacinto, quebras?

A dicção Rimbaud

processou alumínio;

Tragá-lo-ei na volta?”


A monstra cessou o que parir. Ungiu o translúcido objeto de nádega. O hummano desdém perdia o uniforme “sente-se”.


Retumbou a explicação-em-semi-latim:

“Ol mundio – língua desgraça –

jirás trendefe;

orimás desquigucero”


(O portal fechou-se. Coma, segundo os médicos. Cata-vento obsoleto. “Gíria-hydrus”)

Detonar Platão e seu raciocínio enxuto. Achar o “suicida diplomático” enfermo. Trazer coragem e meias; obstruir os pés

Pedi que me levassem. Os “Tácagros” vendiam cabeças felinas.

E o sangue continua pesado; passado tempo fora...


“Aturdi, MESTRE!

Comeste alma até chegar aqui!”

Os chifres “elpucidaram” o

apocalipse.

Denegrir o funco plasmo

da “lenda-Jesus”


-||-


Enlouqueças, pense que és mundo. Covário em corjas

Cintilantes.

Emendarei o fel nas construções de paraíso

(Rimbaud gargalha. Apaixonou-se por meu fim de sua época.)


quinta-feira, 14 de abril de 2011

OLHAR DE FURACÃO



















Revi seu olhar

No olho do furacão


Mas resisti


Seus lábios Calados

Fadados a me levar


Como um desatino


Seu corpo queimava

No sopro a me entreter


Mas me contive


Seus lábios falantes

Falavam palavras pelo ar


Me resguardei


Refiz meu altar

No centro do coração


E desisti


Calados meus lábios

Deixaram-se levar


Pelo desafio


Meu corpo teimava

Seu sopro entrever


Lhe contive


Meus lábios farsantes

Caçavam palavras no ar...


Me guardei


Remei no espaço


Mas era tão vago


O teu olhar


Que nada pude

fazer



Jair Fraga & Sonia (Anja). Ilustração: furacão Katrina.

sábado, 9 de abril de 2011

O ÚLTIMO ENREDO DE CHICO CHAPÉU






















...

>.


Cerrou

os olhos ontem depois de uma roda de samba , o poeta

chiquinho, conhecido pela alcunha de chico chapéu.

o bamba do samba da vela era cobra criada porreta,

jovem ainda vistoso, maciço de poesia, um bom menestrel.


Chico

tinha aquele andar de onça mansa suçuarana,

um gingado dançante de asas moles, mas um porte bacana.

ainda ontem o tinha visto num barzinho, na esquina do molejo

disse olá para ele e toma-mos uma branquinha com torresmo.


No

morro da malagueta, hoje a dor é mais ardida e veraz.

no meio da multidão, por entre acenos e lenços brancos,

escorregava o féretro do poeta Francisco da Silva Ferraz.


Foi-se

o Chico com seu chapéu e sua sombra incandescente,

iluminado. O nosso faquir africano sambou, brincou e foi brinquedo.

ao repique da bateria, o morro cantou seu último samba enredo



Calaça. Ilustração: Cartola.

terça-feira, 15 de março de 2011

SONETO IMPERFEITO























Soneto imperfeito
Gravetos pontiagudos
Perfeitos, espetados
No peito do próprio conceito

Fazendo do corpo
Saleiro de sangue
E na carne que dorme
O cerne que se consome

Mas e a meta do mote?
A métrica é o norte!
Enlace com corda puída

Sapatos versados de lama
Perdem-se na ponte caída
Enquanto se esvai a alma...


Daniel H. M. de Carvalho

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

ME PASSA A "MUÇARELA"!...



















- Me passa a muçarela.
- hein?
- a muçarela. Me passa?
Ela me olhou desconfiada.
- o que é muçarela?
- oras, aquele queijo ali.
Pegou o queijo.
- isto é mussarela.
Encrenquei.
- não! Segundo o dicionário é com cedilha. Muçarela. Me passa?
- o correto é passe-me.
Discussão logo de manhã. Haja saco.
- até o Cartola já teve birra da colocação pronominal. Deixa disso.
- deixe disso.
- hein?
- o correto é deixe disso.
Tudo bem, é importante unificar a língua, mas convenhamos: frescura é dose.
- eu tô me fazendo entender? Pára com isso e me dá a merda do queijo.
- me dê.
- arrá! – gritei. – é dê-me! O correto é dê-me a muçarela.
- tome. – ela fechou a cara e bebericou um gole de café.
Limpei a garganta e fiz meu olhar galã.
- você vai me dar mais tarde? – cafunguei em sua nuca.
- vou pensar. – desdenhou. Depois me olhou de cima. – só se você gemer sintática, morfológica e ortograficamente correto.
Pensei, pensei e respondi: - tudo bem. Agora me passa a mortandela! – e completei. - Você não vai tomar seu "iorgute"?


Giovani Iemini

domingo, 23 de janeiro de 2011

A ALMA ESTENDIDA























Poemas.
De que sou feito?
Ou do que me fiz?
Sou feito da não comunicação de
um ser que me levanta na ponte
do Infinito que nunca passa
Nem desaparece na contagem
dos meus dias.

Vivo em espaços dividido
sem quase nada, do que me sobrou
da alma esticada pelo tempo
e pendurada em um varal daquilo
que aprendi no Céu.

dos Anjos. Ilustração: A Crucifixão, de Marc Chagall.