quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

POR DEBAIXO DAS PALAVRAS (A polifonia da mulher)


Toda mulher alimenta sempre um certo desprezo pela... mulher!
Friedrich Nietzsche - Além do bem e do mal.


Mulheres são vulgares quando falam de sexo,
por isso preferem ser pseudo-românticas.
A "entrega" é menos culposa que a sinceridade
(Ser vítima é uma arte feminina).
A mulher teme abrir a boca,
para que não digam que abriu as pernas.
As que abrem, não raro, o fazem
muito mais tarde,
lambuzando o rosto de incesto
para não virarem mortas vivas.




Marcelo Farias - Ultramodernidade.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

POESIA MATINAL


As roupas estendidas no varal.
A velha casa de madeira.
O sabor do vento matinal.
Uma bola, um novelo, uma meia...
e o cachorrinho malhado!
Que não teria significado
se a mocinha semi-nua
não deitasse sobre o chão,
as costas, brancas, ao Sol,
a ler receitas de amar.




Marcelo Farias - Para Entender a Mágica. Ilustração: Jody Foster.

O QUARTO BRANCO


É domingo. Dia chuvoso, dia choroso... Estou sozinho. Tenho às mãos os fragmentos do que um dia será meu livro. O rádio toca soul. Tenho um copo de vodka com limão. À minha frente, o tabuleiro de xadrez, numa partida inacabada.
Entre um movimento no tabuleiro e um gole de vodka, escrevo uma ou duas linhas. Tenho dormido mal e lembranças do que não aconteceu me incomodam. Apenas algo é constante há dias: a imagem de um quarto branco, sem janelas, apenas com uma porta em uma das paredes e um quadro pendurado, na parede oposta à porta.
No quadro, num vasto campo verde, um menino chora, de braços abertos, por algo que perdeu. Seu olhar fixo, fita um horizonte imaginário, infinitamente distante. seus lábios parecem chamar por algo que não virá. Seu grito inaudível, parece ser abafado pelo gesto de saudade, que mostra seu corpo.
O álcool começa a se fixar em meu organismo e o jogo de xadrez começa a ficar simples demais. De repente, me volta a visão do quadro: o menino do quadro se parece muito comigo (só que mais jovem) e o quarto se preenche com uma suave fragância de almíscar. Almíscar?!!... Uma fragrância animal retirada de um veado! (É melhor cortar o álcool).
O vasto campo verde parece ter ficado azul. Mudou de cor como se tivesse mudado de humor. Típico de pessoas de caráter, mas inconstantes e imprevisíveis. Mudo o gênero musical, Raul Seixas parece mais apropriado para meu atual estado psico-físico. O que terá perdido o menino em sua aparente tenra idade? Nesta idade, de valioso, só se perde o tempo. Terminei a partida de xadrez e ganhei de mim mesmo. Mas, afinal, qual a vantagem de ganhar de mim mesmo?.
Sem eu menos esperar, o vasto campo azul fica castanho esverdeado. Me distanciei e percebi que o menino está em pé sobre... não um campo, mas um globo ocular!... De quem será este constante olhar sob "mim"? E se só vejo o olhar, como vou poder identificar o detentor deste inquisitor visto?
Meu braço esquerdo dói intensamente. É o típico sinal de stress emocional (nada que um bom vinho não resolva...). Cheio de dúvidas, olho o quarto mais uma vez. Saio do quarto e tranco a porta. Tranco a porta, mas espero poder voltar aqui, literalmente, e desvendar os mistérios do quarto branco.




Beto Reis. Ilustração de Magritte.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Culpa


Cheguei cansada.
Colhi as flores
Murchas, coitadas,
Descoloridas, empoeiradas,
Pareciam mortas...
Reguei as flores,
Como sangue em carne viva,
Dilaceradas, de pétalas escorridas
No ralo da pia.
Não ressucitaram.
Agora vão me culpar por todas as queimadas da vida.

Me Morte
(foto de Miriam)

NOTURNA


Linda e austera.
O semblante.
Do meu coração
o açoite!
Moça que vejo adiante.
Azul!
Vestida de noite.



Marcelo Farias - Para Entender a Mágica. Ilustração: Nastassja Kinski.

domingo, 2 de dezembro de 2007

DANIEL



À Luiz Ruas


Meu repouso encontrei em mim,
ou em Ti, quem sabe?...
Minha sina era o calmo andor
de um rebanho manso, pensei
e nem sequer divisei a tormenta,
quando as nuvens se fizeram cinzas
sobre a minha cabeça oca...
Sim, aprendi...
Nem só de jejuns, nem só de orações,
nem só de quaresmas, nem só de festas,
nem só de vitrais, mas de cruz!
De sangue escorrendo na testa,
de trave pesando nos ombros
e gostas descendo suaves
(_Ah, vinho com gosto de ferro!...).
E nem pude dizer: _Afasta de mim!
O cálice é minha missão!
E como anjo caído vi,
na arena, entrarem os leões.
E gritei: _Daniel! Daniel!
Fecha-lhes as bocas!




Marcelo Farias - Ultramodernidade. Ilustração: A Tentação de Santo Antônio - Salvador Dali.

sábado, 1 de dezembro de 2007

DESEJO DIVINO


No braços de Érebo
cultivei meus anseios.
Busquei Urano,
esposo de Gaia,
para tentar vencer seu filho,
Cronos.

Sei que seu filho,
arguto dominante do tempo,
usa seu poder,
hoje,
para tornar-me...
Velho!

Peço a Homero,
pai de todos nós (poetas),
a redação de uma carta,
uma ode ao Olimpo,
que me desse
o direito a um pedido:

Ser HEFESTOS por uma noite!!!



Beto Reis