quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PRÁTICAS ANTIGAS























Eu dançarei sobre teu túmulo
Paganismo inerte
Música que aprendi de ouvido
no pulsar envenenado
que me perverte mas sustenta o fôlego

Desfarei no giro dos quadris
A mandinga e a modorra
que lançaste-me sobre a libido
Terei teu jazigo revolvido
e até o verme cuidarei que morra
sob as coreografias febris

Ocorre que as hordas infernais
são palavras esmurrando minha porta
e as logro no encanto das cantigas
E entre ritos novos e práticas antigas
vislumbro-te carne exposta
nas manchetes dos jornais

Breve dançarei sobre teu túmulo



Iriene Borges

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

SEM TÍTULO

















Eu que falava de abismos
Cansei-me de cair
E munido de pá
Decidi me (a)fundar
Pra não tirar os pés do chão.

Eu, que dizia sentir,
Aceitei meu lugar de pedra
E como peso morto
Mantive portas abertas
Sem sair do lugar.

Mas agora, como todo mineral,
Vou me lembrar de ser lava
E ter inveja do vento
Que me varre aos poucos
Ao meu fim de pó.

Eu que falava de asas
Hoje não passo
Das penas.

(Cuiabá, 16 de fevereiro de 2009)


Vinicius Paioli.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

DOIS LADOS


















Chove.
Por dentro.

Olho na janela do quarto.
Pressinto:
toda a minha vontade
já vem brincar miragens
vidrando tons de beleza,
companhia e saudade.

Cúmplice desse desassossego,
um relâmpago
trança as cores do firmamento
e as deita
- líquidas -
sobre a pele nua do parapeito.

O céu fica todo aceso
enquanto ouço úmida
a voz do tempo dizendo:

"- Serena, céu!"

(...)

Tudo é só o gosto dela
que veio condensar de pressa
os horizontes da nossa janela."


Cel Bentin

domingo, 15 de fevereiro de 2009

ENCRUZILHADA


















Dentro desta rua presa pelo crepúsculo
Me encontro desprendido dentro
Da sina diária de ser gente.

Um risco abusivo, mediado
Pela morte siamesa (minha)
Na cara da odisséia de uma
Tinta pintada pelo tempo.

E agora, só restam grãos do
Meu rosto, aquele mesmo (dificílimo)
De apreensão pela capa
Do fim verdugo.

Sol – miserável sol – te puseste contra
A embriaguez do meu corpo
Transformado em bruma,
E numa pedra rasteira que me
Sobra como espaço vivo
De uma morada em fezes (preces).

Anátema bondoso de clausura
Suprema em uma via extensa
Ultrapassada pelo cancro
Do meu Mar Morto em descanso
E desuso.

Sol – Miserável Sol – somos
Todos santos de sangue, pelas
Veias do cimento cínico
E viscoso do entardecer.



dos Anjos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O AVESSO DAS COISAS


















♂

queria que contasse
o que vê do alto

desenhos traçados na areia
linhas confusas

essas que se embaraçam
nos meus passos

trançam meus cabelos
que me prendem aqui
no avesso das coisas

queria não ouvir
as canções gritadas no vento

essas notas dissonantes
que me enlaçam
prendem do lado avesso

a pantera fugiu
sou apenas a sombra da fera

♀

Rosa Cardoso.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

PARADOXO



















Eis que me ofereceste o veneno
disfarçado em beijos e caricias

forte, intenso e alucinante
sem antídoto, cheio de malícias...

E vieste assim, inconseqüente
um vendaval em meu corpo,
um alucinógeno em minha mente

me impregnaste do teu veneno
e se tornaste um paradoxo,
agora, és meu oxigênio.



Sirlei L. Passolongo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

PSICOLOGIA DAS CORES


















As ruas - pintadas de negro.
Meus olhos - pintados de branco.
Branco meus olhos negros
nessa rua de branco.
Todo branco, vermelho,
mais que negro, duplicado
dois aziagos negros:
um vermelho e um manchado.
Fossem seus cabelos negros
brancos, como ainda são;
num futuro hei de vê-los
brancos de um negro vão.
Todo azul, se vermelho,
é um azul mais maduro.
Como o céu que é vermelho,
já sem futuro algum.
Todo espelho é mais velho
que seu dono - absurdo
é não ver que o espelho´
é duplo em tudo.
Já meu peito é mais velho
que sua jaula no mundo
o tempo de pensamento
é claro-escuro.


Adriano Furtado. Ilustração: vitral - foto de Gilson Camargo.