segunda-feira, 8 de junho de 2009

MEDIDAS DO NOCAUTE






















Estátuas de sal crucificadas
Meu corrimão entardece
Tenho quilos de desvantagem na tua frente
Empobreço os olhares
Um beijo asséptico me condena
Tenho horrores nobres na tua frente
Encolho passáros venenosos
Um campo desnutrido me arreganha os dentes
Frente e verso de deslocamentos
Não tenho nudez
Esferas líquidas me vestem
Deduz-se que estou morta e procurada
Envolva-se com a minha vaidade
Artilharia desvirtuada de cínicos
O ritmo fervilhando
Os metros de inutilidade
Procuram-te.


Rita Medusa. Ilustração: Sempre Há Um Prisma - Rita Medusa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

DESARMAMENTO























Quando ainda era sinal de luta
e revirei coisas e saí em chamas
e procurava o labirinto infinito
onde as unhas se quebravam

o quarto escuro, a teimosia
ansiava a desordem, que fosse
a imprevisão do previsível
o triunfo de ver novo, insistia

ora, se durmo e acordo
e hoje é outono, o sol não queima,
mas o vulcão me habita

talvez o segredo, em que não creio.
seja o inexplicável, o grande desconhecido
a verdade, que intocável permanece

o que me faz seguir...


Ivone FS. Ilustração: Le Reveil Posters - Christian Coigny

terça-feira, 26 de maio de 2009

OSCULUM OBSCENO























num perfeito meia nove
me pressiona contra o ventre
como louca ela se move
até que a língua entre.

ela geme, urra, chora
e encara a minha vara,
que bom seria se agora
ela peidasse em minha cara.


Artur Farrapo

segunda-feira, 18 de maio de 2009

FULCRO



















Minha vontade: um desgaste
sem fulcro
Estou a fenecer,
estou sentado no pátio
deste império natimorto.

Perdi meu nome
no cancro espalhado
dos teus olhos. Agora sou
um lazarento infeccionado
pela lepra da tua boca.

Estou de partida, sim, estou
de partida.
Na partida me esbarro no
caroço de pus prestes a estourar
no teu pútrido.

Já não me escondo nas faces
que tenho. Sou quando estou
numa delas.

Ao me ver com a face
fria e pálida, lembres
que sou somente mais um.

Alguém passará por meu
cadáver e comentará
até o que não fui.


Vagner Castro

segunda-feira, 11 de maio de 2009

"Obra de Arte"



Você sabe desenhar um coração? Então desenha com um giz de cera aqui no meu peito, pode ser? Com giz de cera, pois me queimei feito uma vela esse ano, e acho que essa cor escarlate combinaria comigo... O quê? Giz de cera não “pega” na pele? Tem que pegar! RAM! Eu já fiz coisas mais difíceis, e olha que sou humana demais! Anda logo, me risca logo! (Não interprete de modo errôneo – não me risque da sua vida!) Eu vou fingir que vai sangrar. Perto do coração sempre sangra – não sangra? Faz um tempo que não vejo sangue, mas eu o sinto escorrer, sabe? Aperta mais!!! Não estou sentindo fincar na pele... Como assim não vai dar certo? Me dá isso aqui! Eu mesma desenho.


(...)


Ficou bom? Bem, eu nunca desenhei muito bem... Mas você gostou, não gostou? Ah, não ligue, eu sangro mesmo. E sim, o meu sangue é dessa cor. Deve ser pela demora, ou talvez ele esteja bem curtido aqui dentro. É quase um “tempero”, sabe? Eu deixo o meu sangue em conserva pra... O quê? Não! Hahahaha! Nunca desenhei um coração por ninguém. Me desculpe mesmo por você não ter gostado. Quer que eu desenhe outra coisa? Uma montanha...Ou até outro mundo pra você...! Não! No meu peito não cabe um mundo todo, mal coube esse coração mal desenhado... Você consegue enxergar? Não, não é um urso – apesar de ser tão grande quanto. O que você acha de eu tentar desenhar um em você também? Ah, tudo bem. Entendo... É realmente necessário estar preparado pra isso, não é? Ah, tudo bem. Nos vemos mais tarde então? Que pena... Certo. Até mais, então...


- E agora? Como faço pra apagar?



(Escrito em meados do ano passado.)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

AM(AR)























É difícil amar,
pois amar é oceano:
pairando
para lá e para cá.
Se amar fosse sólido,
seria pedra de gelo.
Melhor então ser vapor
e pairar pelo infinito.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

COMO EU QUERIA VIRAR NUVEM...























e sou tão absurda
quando jogo comigo mesma!

mas inventar alguma coisa
daria uma tonalidade audaz
nesse quadro inanimado:

o branco incendeia
o breu da noite atormentada
a cada linha delineia:

anjos de asas e armaduras
adornam vielas com casinhas acesas
as janelas, os segredos

(que nem são segredos,
mas não tenho acesso)

liláses, vermelhos, arredores
"Rosa-e-Azul"

montanhas, pincéis, crianças, nus
Renoir, Van Gogh, Monet, Degas



Ivone FS. Ilustração: Madame Monet e seu filho - Claude Monet.