segunda-feira, 23 de novembro de 2015

BÁRBARAS

Poetisa Bárbara Leite sendo ela mesma.


Poetisas são meninas
mulheres
velhas
árvores que escrevem
nas rugas do próprio tronco.
Pitonisas ciganas
do amanhã
que o ontem conhecem
como um antigo amor.
Poetisas são
a Rosa do Pequeno Príncipe,
Pandora
Cora
Cecília
Bárbaras!
Que manam leite e mel.


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

CANDELÁRIO

Candelário sempre fora um tanto tímido e recluso. Desde cedo seus melhores amigos foram os livros. Na Universidade (formou-se em Letras) conseguiu criar o círculo de amigos que nunca tivera na infância e adolescência. Os amigos o admiravam muito e o tinham quase como um guru. 
Não fosse o hábito de ir à biblioteca pública todos os dias ao fim da tarde, não teria conhecido Eliodora, sua esposa. Ela começou lhe oferecendo um café, depois uns biscoitos, um bolinho feito pela mãe, comentou autores e livros de sua preferência, até o assunto chegar na poesia e ele a lhe recitar os poemas que em horas vagas escrevia.
Do primeiro café, até  os primeiros poemas foram seis meses. Os outros quatro meses foram de amizade. Os seis  meses seguintes, de namoro consentido. O noivado durou pouco mais de um mês, porque a noiva não quis esperar mais.
Casaram-se e tiveram seis filhos. Que até a altura em que estou narrando, lhes deram dezesseis netos. Destes, quatro atrapalham sua leitura na biblioteca, após o jantar em família, para celebrar o recém noivado da filha mais nova.
Feliz e avô, Candelário conversa com seus netos:
_Vovô, quando vai ser o fim do mundo? _pergunta Eliandra, de 12 anos.
_Não se sabe o dia nem a hora, minha andorinha. Isso só Deus sabe. Não se aflija com essas coisas. Viva bem sua vida e seja feliz. Pessoas felizes são boas e pessoas boas vão pro Céu.
_Vovô, é verdade que a Alemanha e a Inglaterra vão entrar em guerra? _indaga Zé Roberto, de 11 anos.
_Ninguém sabe direito, meu filho. Guerras não começam da noite pro dia. Penso que ainda está longe disso. Mas não se aflija, isso acontece na Europa muito longe de nós. Aproveite a vida e realize seus sonhos, pois vivemos em paz e há tempo para você fazer isso.
_Vovô, como é o Céu? Pra onde a gente vai quando morrer? _investiga Pedrinho, de sete anos.
_O Céu e um lugar muito bonito, mas só contempla sua beleza quem hoje vive lá, ao lado de Deus. Não se preocupe com isso, meu menino. Você ainda é muito criança. Obedeça sua mãe, coma bem e cresça forte e com saúde. E quando crescer, seja justo e honesto, pois quem não deve não teme.
Por fim, Benito, de apenas 03 anos, vem lhe trazendo um livro aberto, curioso com um mapa.
_Ah, aqui é a Itália, meu pequenino. E esta aqui é a África... _explica Candelário com satisfação.
Nesta noite feliz de 1901, vimos Candelário aos sessenta e sete anos. O tempo passou, os netos cresceram e, mesmo sem saber, fizeram tudo exatamente como Candelário dissera para fazer. 
Assim, quando a Primeira Guerra veio, não tiveram medo, pois sabiam estar no Brasil, longe daquele conflito. O fim do mundo não lhes parecia próximo e a busca de uma vida correta os fazia tranquilos, sem medo do Inferno após a morte. 
Candelário morreu aos 91 anos, três dias após o Natal. Seus netos já tinha maturidade para lidar com a perda e para reconhecer como é importante saber aproveitar e valorizar a paz.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ANTÔNIO



O nome do primeiro eu não sei pronunciar. Apenas digo que vivia numa caverna, na França, por volta de 30.000 a.C. Gostaria de dizer que foi exímio caçador e que sua múmia foi encontrada em excelente estado de conservação. Mas não, morreu tão anônimo quanto a maioria dos seus pares, mas deixou uma marca de mão na parede de uma caverna. Já na época possuía pendores artisticos e literários.
Após várias encarnações como obscuras mulheres artesãs e cheias de filhos, ele aparece como hebreu que deixa o Egito e chega à Terra Prometida, liderado por Moisés. Sua vida foi então de oleiro. Mas em todas as posteriores foi prostituta, até surgir como pedagogo, na Grécia, ao tempo de Sócrates.
Escravo foi durante várias vidas, até ser o marceneiro que parou para ouvir os estranhos e profundos discursos de um companheiro de ofício, Jesus. Agora finalmente temos um nome, Ezequiel. Que poderia ter morrido martirizado e se tornado santo, mas morreu bestamente, quando um camelo tropeçou em um cachorro novo, que latia o tempo todo, e então desabou sobre ele. Morreu na hora!...
Talvez por isso tenha encarnado tantas vezes no Cáucaso, bem longe dos camelos. Só como armênio, encarnou dez vezes. Depois parece ter-se encantado com o Oriente e foi rendeiro hindú e monge budista do templo Shaolin.
O veremos novamente como o capitão Franz, que morreu aos 36 anos, na primeira Cruzada. Talvez cansado do claustro e das armas,  viveu como trovador por três longas vidas seguidas.
Chegou então a fase cigana. De 1355 a 1498, comeu porco, bebeu vinho, cantou, dançou e andou a Europa toda de carroção. Nasceu três vezes na Romênia e uma na Espanha.
A batina e o além mar porém lhe convocaram a ser Pedro, Miguel e Alonso, nascidos na Espanha e missionários jesuítas em São  Paulo, Minas Gerais e Bahia, respectivamente.
Foi Quintino, vendedor de quitutes feitos por sua mãe, quando fez amizade com Tiradentes. Morreu porém jovem, de malária, antes dos vinte. O que talvez o tenha inspirado a ser Leopoldo, amigo de Álvares de Azevedo, que morreu de tuberculose antes que seus poemas pudessem ser publicados. 
É neste momento que se torna o libertário tipógrafo Antônio, assassinado aos 31 anos, por jagunços liderados pelo filho de um fazendeiro, que odiava os abolicionistas.
Como o professor e poeta Deodato também viveu pouco, mas teve a honra de um singelo livro publicado: Poemas D'Orvalho, onde oscila entre o Simbolismo e o Parnasianismo. Os amigos o definiam como romântico.
Já como o inquieto Alceu, foi boêmio, amante do samba e das letras, no Rio dos anos 30. Professor de língua portuguesa e literatura brasileira e jornalista, preferiu morrer servindo nos campos da Itália, do que nos porões do Estado Novo.
Os porões da Ditatura Militar, porém, não o pouparam como Felipe. O incendiário produtor de fanzines subversivos, morto sob tortura no DOI-CODI, em 1971.
A mistura da fé cristã com o nomadismo cigano e jesuíta, as vidas como trovador e poeta do "Mal do Século" e o dinamismo combativo como jornalista engajado, geraram o meu grande amigo Flávio Mello. Ex-gótico, que hoje milita apenas na educação e nas letras, devoto que é em cultivar sua linda família.

domingo, 10 de novembro de 2013


  A Persistência da Memória - 1931, Salvador Dali.




Eu
gostaria que estes anos
fossem poesia
dos anos 80,
escrita por um quarentão
de 30,
que lembra dos 60.

Um pedaço de queijo 
me faria feliz,
Mr. Stevenson.

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ANJO




Os demônios são anjos caídos
e te chamo de anjo.
Não estaria em perigo?
Não estaria contigo no fogo do inferno,
achando que é o Céu o calor que me abrasa?
Qual a distância entre o Céu e o chão?
O céu toca o chão,
o chão toca o céu
quando em montanhas se ergue
a paixão que em mim
te faz anjo...
Anjo caído.
Anjo bom.
Anjo mau.
Anjo qual
uma estátua que venero.
Pagão...

sábado, 23 de março de 2013

A FADA QUE FUGIU PARA ROMA





À Giuliana Caliri

Da praia nublada de inverno
saiste de pés descalços
e puzeste os tênis para Londres.

Tu vens de Amsterdam
e lá só foi tua estadia.

Sorrias no café de Paris
e agora estás tão arredia,
tão contrariada.

Tristeza
é não ver-te em Portugal,
em Roma,
tirando fotos
enquanto os deuses te contemplam.


Marcelo Farias


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

TRIP



Vermelho entre o azul e o rosa.
Luzes vão do Paraíso.
Só o mistério persiste,
escondido que está
em minha nova cena.

Não entendo nada 
neste momento.
Do Letes bebi 
e tudo me vem 
em sonhos.
Anotações não serão anotadas.

Você pode explicar um carinho de mãe?
A terra me convida a esquecer
e dormir até um novo dia.

Amanhã será bem melhor.


Marcelo Farias.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

INDIE

Os Young Folks, animação do clip de Peter, Bjorn and John (2006).


Eu nasci em um playground
em um parque de diversões
e não posso deixar de brincar.

Eu não sou o filho preferido,
não sou o centro das atenções,
eu apenas sei brincar.

Eu cresci e não deixei
de ser criança ainda
aos meus trinta e tantos anos...

Eu sou indie!

Eu sou indie, alternativo.
O universo paralelo
foi quem sempre me esperou.

Vou conversar com heróis
de revistas em quadrinhos.
Advinhar brinquedos, animes
que mamãe não quer que eu leia.

Eu sou indie!
Alternativo!
O universo paralalelo
foi o que sempre me esperou.

Quando eu morrer, finalmente,
digam que apenas fugi
para o universo do sonho
aonde sempre vivi.

Eu sou indie, alternativo.
O universo paralelo
foi o que sempre me guardou.


Marcelo Farias.

sábado, 11 de agosto de 2012

TRANSILVÂNIA



A pequena Anna angustiou-se quando não viu ninguém mais à sua volta no quarto. Pulou da cama, apenas de camisola, apesar do frio e desceu. Seus cinco irmãos brigavam sobre a mesa enquanto Nora, a irmã mais velha, servia a sopa e ralhava ao mesmo tempo. Sentou-se em seu lugar e reclamou:
_Por que não me acordaram?!
Nora esbravejou:
_Quem é preguiçoso fica sem comer!
_Eu não sou preguiçosa! _rebateu Anna, malcriada.
Lá fora a neve cobria tudo de branco. Os homens andavam para lá e para cá, entretidos no trabalho, como se estivessem reformando a vila. Anna pulou da mesa e correu dizendo:
_Vou ver papai!
A mão firme da mãe, Eszter, a conteve.
_Nada disso! Você vai comer primeiro e se vestir. Se adoecer, quem vai perder noites de sono sou eu!
Mesmo irritada e chorosa, Anna volta à mesa. A mãe enche seu prato de sopa de carne. Pedaços de batata flutuam sobre o caldo avermelhado de paprika. A mãe lhe dá um grande pedaço de pão e ralha:
_Agora coma! E não saia daí sem ter limpado o prato!
A irritação de Anna passa aos poucos, a cada colherada no caldo pimentoso. Quando acaba, está rosada pelo calor do desjejum. Vendo que a pequena já terminou, Eszter a pega pela mão, lhe dá um breve asseio, e depois a veste. Em seguida, a mãe lhe entrega um pedaço de pão com carne de porco, envolto em uma toalha e diz:
_Dê a seu pai. Diga para não se esquecer de vir almoçar e não se embriagar com a pálinka.
Anna corre para frente da casa, onde está o pai, pintando uma grande cruz na porta, com sangue de carneiro. Ao ver a filha, Ferenc pára o trabalho a toma nos braços e levanta, festejando:
_Bom dia, pequena princesa! 
Anna ri com o gracejo, os beijos e as cócegas que o pai lhe faz, mordendo-lhe de leve. Ele então a põe no chão e termina o serviço pendurando um grande colar de alho na porta. Pega então seu lanche. Anna dá o recado da mãe:
 _Mamãe disse para você não se embebedar.
Ele ri e responde:
_Com este frio, vai levar vinte anos até seu pai possa se embebedar!
Ferenc senta-se então no pequeno banco de três pernas e come. Anna senta em seu colo e ele lhe dá um pouco de pão com porco. Quando termina, ele a pega pela mão e diz:
_Agora vamos passear um pouco.
As ruas da vila estão movimentadas. Homens andam para lá e para cá, carregando ripas de madeira, fachos de lenha, colares de alho e baldes com sangue de carneiro. Mulheres carregam baldes de água e pedaços de carneiro encobertos em panos. Ferenc cumprimenta os amigos enquanto passeia com a filha. Ao passar pelo sacristão, Ciprian, este lhe lembra:
_Não esqueça de ir à missa das seis, Ferenc, já está rosado de pálinka!
_Não me esquecerei, irmão Ciprian! Não me esquecerei! Mesmo que beba toda minha garrafa!
Em certo memento, Anna pede:
_Papai, vamos ficar aqui vendo o pôr do sol atrás das montanhas!
_Tudo bem, Anna! Mas não vamos nos demorar muito, logo teremos de voltar e ir para a missa.
Durante mágicos quarenta minutos, Anna vislumbra o sol se esconder dela _como se sorrisse marotamente _detrás das montanhas cobertas de pinheiros e neve. Quando a escuridão começa a cair, o pai a apressa:
_Vamos, Anna! Hora de ir à missa!
Sabendo ter perdido tempo, Ferenc prefere ir direto à igreja. Lá encontrou a esposa já com os outros filhos. Esta reclamou:
_Devia ter pelo menos passado em casa, para se assear para a missa!
_Cristo nunca rejeitou ninguém por sua aparência, lembra?
Ferenc então assiste à missa ao lado da filha, que nota que não apenas seu pai, mas  muitos homens sairam direto do trabalho para a igreja. Na hora da comunhão, Anna suplica:
_Papai, diz pro padre me dar a hóstia para comer também!
_Não, Anna, você só poderá fazer isso depois de sua primeira comunhão.
Acabada a missa, todos rumam para suas casas. A escuridão já cai sobre a vila. Apesar de se mostrarem apressados, os aldeãos conversam alegremente na rua, a caminho de casa. Ferenc conversa com o amigo, Tamás. Suas esposas conversam entre si e os filhos de ambos fazem algazarra atrás. Ao lado dopai, Anna ouve sua conversa:
_Será que Péter aparecerá entre eles? _pergunta Ferenc.
_Não sei, ninguém o viu desde que desapareceu, nem mesmo o velho Lajos, que mora na floresta. _responde Tamás.
Avistam então, deitado, meio escorado em uma das traves que apoia o teto da taverna, o bêbado Vilmos, entornando mais um longo gole de pálinka goela abaixo. Tamás brinca:
_Eles nunca fazem nada com ele, acho que não gostam de seu bafo!
_Ou do seu cheiro! _brinca também Ferenc.
Os dois por fim se despedem e se separam. Chegando em casa, Eszter ordena ao marido:
_Tire esta roupa imunda, que já esquentarei água para seu banho!
Enquanto o pai se banha, Anna e Friderika arrumam a mesa do jantar, enquanto Nora esquenta a sopa e o carneiro. Os três irmãos homens cuidam de fechar a estrebaria, para que o cavalo do pai e única vaca que possuem estajam bem agasalhados e seguros.
Por fim, a família senta à mesa e Ferenc faz a oração antes da refeição:
_Senhor, te agradecemos pelo alimento e a morada que temos e pela divina graça de tua proteção. Amém!
Todos então começam a comer alegremente. O ambiênte é calmo e feliz, bem diferente da animosidade do início do dia. Após a janta, as meninas ajudam a mãe com a louça e os meninos vão ouvir o pai contar suas estórias. Todos, por fim, se juntam em turno de Ferenc para ouvir suas pequenas aventuras de aldeão, até que Eszter decreta:
_Muito bem! Já ouvimos estórias demais, é hora ir deitar!
Apesar da queixa dos filhos, inclusive Anna, todos sobem. No quarto, no sótão, Nora ainda tem de ralhar com os irmãos menores, para que eles se aquietem e durmam. Por fim, o sono recai sobre todos, mas muito leve sobre Anna, que desperta com o soar do sino da meia noite. Como dormisse próxima à janela, entreabre a cortina e olha a rua. Com passos incertos, por vezes cambaleantes, olhando para o céu, como se adorassem a lua, chegam os vampiros. Homens e mulheres com as roupas rotas, por andarem como bichos pela floresta e pelos cemitérios. Seus rostos são muito pálidos e seus olhos apresentam olheiras arroxeadas. Dois deles, ainda jovens, se aproximam do bêbado Vilmos, que dorme a sono solto. Logo em seguida, dele se afastam, fungando como se tivessem sentido cheiro de peste. Vilmos ainda desperta brevemente e profere pequena queixa. Anna solta um leve riso. E os vampiros continuam seu cortejo pela vila, olhando para o céu, como que alucinados!...


Marcelo Farias. Ilustração: Brasov no inverno.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

PARTO



 A minha insônia é a mesma tua.
É a filha que está por vir,
o marido que não vem,
a esposa que resolveu virar puta.

A minha vida é a tua própria
reticência...
Não sou Deus, nem ateu.
Apenas a punheta que se personificou
em ato!...
Ou pacto carnal...

O meu e o teu sorriso é um escárnio
e fechamos a bíblia de nossa
ignorância!...

Rojefferson Moraes

sexta-feira, 30 de março de 2012

BLANCA














Hoje me reservo calar diante destes versos
Ir e sem olhar para trás partir em busca de uma musa qualquer
Me ensopar nas línguas molhadas das ruas
... Num ritual de iniciação para a noite
Voz, cheiro e tempestade temperando a boca da rua que me engole sedenta

Não tenho versos hoje para te oferecer poesia!
Não tenho minha voz alterada
Só este corpo baixa cambaleante mirando
As casinhas enfileiradas que se confundem
Enquanto o que me sobrou do dia ainda me consome...

Um brilho breve e bravo incalculados nos teus olhos
Embriagues desatinada no riso
Entrando em convulsão depois do tédio...
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Rojefferson Moraes.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Um Breve Monólogo de Um Bêbado Saudosista

Batem os sinos da nostalgia. Abrem-se os portões lúgubres da saudade. Morrer, viver, seguir a torpes e tortuosos passos num rumo desesperado e inquieto. Caminham com o peso dos corpos ressequidos, ouço os passos no corredor. Vendendo almas vazias a preço barato? O silêncio já não é a paga que busco para a exasperação do infinito que vejo cair como vidraça estilhaçada diante dos meus olhos cansados e arenosos de uma noite mal dormida de bebidas, sexo, risos e lágrimas, onde já não há espaço para poemas e canções antigas. Promessas são esperadas - ofereço o meu corpo -, desmonto todo o ciclo de orações. Sangro. Busco o equilíbrio químico do meu estômago. Veneno na taça? Vinho na veia se dilui com o cansaço do dia. Batidas cansadas do coração. Tão novo ainda... Tão velho amigo do sofrimento. Exílio é resposta? Putaria é solução... Religião, talvez, não! Quantos amigos se voltam contra a pátria? E os sinos insistem na saliência híbrida com as ensurdecedoras buzinas e caos que massacram da poesia a um cálculo matemático. Ah, a nostalgia... Uma bela mulher mostra rugas ao sorrir e continua ainda mais bela. O vinho está acabando. Mas no supermercado vende-se mais sonhos e desilusões engarrafados de todos os sabores, marcas e tamanhos. Respirar é preciso, navegar é perigoso quando se aproxima a tempestade. Sangro. Busco o equilíbrio do corpo. Venta. Os sinos se calam quando me calo embriagado no meu quarto escuro e vazio. A noite se cala. E os portões da saudade se fecham para sonhos indecifráveis.  

Os bêbados ou Festejando o S. Martinho Quadro de José Malhoa
Museu José Malhoa - Caldas da Rainha
http://www.romulonarducci.blogspot.com/
.  

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O FARMACÊUTICO


















Cresci numa farmácia, meu pai era farmacêutico. Eu "viajava" nas imensas estantes e prateleiras repletas de frascos com drágeas, pílulas, xaropes e cosméticos. Eu adorava cheiro de remédio. Nunca reclamei quando tinha de tomar pílulas. Ao contrário, adorava engoli-las. Aquelas coisinhas sempre tão "científicas e futuristas". Já os xaropes me pareciam mais tradicionais, século XIX. Costumava levar xarope Vick para tomar na escola, e adorava me embriagar com Biotônico Fontoura. Papai brigou várias vezes comigo, ao me encontrar recostado na parede, "entorpecido" pelo biotônico. Era o meu Láudano.
Sempre ajudei papai de bom grado na drogaria. Era capaz de passar o dia inteiro nela, fecha-la com ele, se fosse preciso. Fiz isso muitas e muitas vezes, abri e fechei a drogaria. Era mágico ver a lagarta subir. Triste, mas romântico, vê-la baixar.
Perdi minha mãe aos 9 anos, câncer. Sempre fui filho único e papai precisava muito de mim. Não me queixava, nunca me queixei. Aos 12 anos tive minha primeira "viagem": tomei duas pílulas de gardenal. Foi louco! Papai brigou comigo. Experimentei outros remédios. Alguns me deram dor de barriga, outros me fizeram vomitar, outros me acalmaram, outros mais... novamente me fizeram viajar.
Quando conheci minha primeira namorada, Pamela, a levei para meu mundo mágico: a farmácia. Por algum motivo ela gostou e namoramos cinco anos. Papai pensava que nos casaríamos, morreu pensando isso. Um avc o levou de repente, numa tarde, quando ela contava 56 anos. Estava colocando os remédios na prateleira. Quando ele caiu para trás, pensei que fosse um tolo acidente. Porém, quando cheguei no hospital com ele, o médico o mandou para a UTI. Pamela ficou comigo durante o enterro e depois dele. Não houve velório, não tinha dinheiro nem parentes próximos para isso. Meu namoro com Pamela acabou seis meses depois. Como papai, ela não gostava de minhas brincadeiras com remédios. Ela foi a única mulher decente com quem me relacionei. As que apareceram depois foram todas doidas de festa, nada mais.
Vendi a drogaria e trabalhei como estagiário em outra, enquanto terminava a universidade. Mas que nunca, eu experimentava remédios. Para aliviar a depressão pela perda de papai, tomava remédios de tarja preta. Para elevar o astral, tomava anfetaminas. Foi quando um colega de sala me apresentou o LSD. Foi como dar a varinha ao aprendiz de feiticeiro. Mas que nunca conheci _e reconheci! _minha alma!...
Depois do LSD, conheci a cocaína, a morfina e a heroína. Cocaína só usava quando bebia e em pouca quantidade. Morfina começou a se tornar um costume e heroína era difícil, mas apreciava muito seu efeito. Uma vez formado, aluguei uma casa onde montei um laboratório particular. Passei a sintetizar as drogas que conhecia. Não mais comprava drogas na rua, usava apenas as que eu mesmo produzia. Com o tempo, passei a vender para os amigos. Estes trouxeram mais amigos. O dinheiro começou a aparecer.
Comprei uma casa nova, espaçosa, com piscina, ótima para festas. Adaptei meu laboratório lá e dei festas onde lucrava horrores. Em meu jardim também fiz experiências. Fui um dos primeiros a produzir a cannabis hidropônica. Mal o extase se tornara mania na Europa, eu já o havia conseguido numa viagem à Holanda. Aprendi a sintetizá-lo e fui um dos primeiros a produzí-lo e vendê-lo por aqui. Minha vida era uma rave. Patrocinei bandas techno, contratei um dj, Jonas, para trabalhar em minhas festas. Quando não dava festas em casa, levava meus produtos para festas de amigos. Meu esquema era fechado, privado, por isso conheci muita gente famosa.
Minha vida foi uma viagem até 2003, ano em que passei de todos os limites e tive uma overdose. Havia aberto o dia com barbitúricos, me empolgado e tomado ácido, me empolguei mais ainda e cheirei cocaína. Tudo isso regado à álcool. Por fim, tomei uma dose de morfina e algumas horas depois, uma de heroína. Queria dormir e fui parar na UTI. Os médicos não sabem como escapei. Talvez tenha sido Pamela e sua aura de anjo. A reencontrei depois de muito tempo. Não sei porque ela resolveu aparecer naquela festa. Ficou até o final... e me levou para o hospital.
Comecei então minha recuperação. Vendi minha casa e o laboratório. Me acostumei a levar uma vida careta. Não sei se me casarei com Pamela, apesar de me dar bem com a filha dela, Astrid. Só o que preocupa minha mente agora... é que fui apresentado a um novo laboratório, de mágicas paredes de azulejo azul!... Imensas prateleiras repletas de frascos! A luz fluorecente chamando como neon. A empresa em que trabalho quer que eu produza drogas lá. Estou em 2010, tenho 56 anos... Um dia desses sonhei com papai.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

POEMA DAS COISAS DESENCONTRADAS

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O HOMEM A QUEM PERTENÇO


















(leia ao som de Piaf)

ou não é pra ser gostoso


Ele me empurra Piaf goela abaixo com tanta força que sinto minha alma ser espremida. Me remexe o útero, o ovário me faz tremer..., ao me morder, ao me ferir a pele. Unhas afiadas de gato vira-latas.
Ele me sente pálida nos dedos grossos, me penetra, arteiro, artilheiro, cheirando a futebol, grama, bola e batom, me viola o corpo enquanto lavo a louça do almoço, que ele nem comeu, mas me come enquanto derrubo um prato, um copo, um garfo.
Piaf me cala, me engasga como cubos de gelo, com as pontas dos dedos.
A agulha circula os sulcos do vinil, arranha minhas ranhuras, minhas digitais, minhas entranhas. Me engasgo com sua saliva quente, melada, cheia de mim. Cheia de mim a escorrer por nossas pernas que se cruzam, animais de rua, sob a chuva, sob a lua e eu sou tão sua.
Obediente me mantenho calada.
Sinto minha vida de escrava todinha em seu olhar, capitão-do-mato que me mata e me dilacera com seu chicote quente, enorme e viril. Meu homem.
O homem a quem pertenço me reza feito terço, não perde nada do meu corpo, enquanto rezo... ele me suga, feito manga me descasca, me morde, me devora, e aquilo que lhe escorre pelos cantos da boca sou eu. Esse homem tão cheio de si, tão sem instrução, mas que faz de mim mulher, faz de mim o que quiser.


Flávio Mello http://www.escritorflaviomello.com.br

sábado, 12 de novembro de 2011

LOUCURA








Helena Ignez, musa e esposa de Rogério Esganzerla



A Márcio Santana


A loucura bateu na minha cara quando eu nasci.
Ela vinha vestida de vermelho vivo, com um xale azul.
A loucura fazia tudo ser à cores,
de plástico,
blues!...
A loucura estava em tudo, e todos,
Até nos simples casais.
Estava nas pedras, e nas portas,
Nos carros volkswagen,
e na genitália das mulheres.
A loucura fazia crescer pintos e nascer piolhos,
ou seriam pimpolhos?...
de Pintos, Ramos e Carvalhos,
ou seriam CARALHOS? CARALHO!...
O fato é a que a loucura se deu
e desceu bem antes de quando nasci.
A vi de frente e de costas.
Parecia brinquedo eletrônico,
mas falava e andava
e tinha nos olhos óculos grandes,
Ray Ban.
A loucura me disse um monte de coisas.
Veio com um papo errado, cheio de lições,
cheio de palavrões e especulações sobre o que não sei,
pois só o que sei é que ela estava bêbada,
com bafo de drogada!
A loucura é prostituta.
Disso eu sei muito bem.
Só que se veste de dama e se diz:
"Garota de Programa"!
Na sua cama não dorme ninguém,
só chupa!
e só escuta os discos de vinil velhos que ela tem.
A loucura é menina moça que fugiu de casa e brigou com os pais.
Ela não se toca que tem 40 anos!
50 anos...
60 anos!
A loucura não diz sua idade
e por caridade deixei-a dormir...
no chão!...
Foi ela quem pediu.


Marcelo Farias

domingo, 18 de setembro de 2011

PESSOAS FELIZES (ou O Retrato de Dorian Gray)























Pessoas felizes riem forçado,

para mostrar a alegria

que nunca existiu.



Pessoas felizes sorriem aberto,

para que a foto

saia bonita.



Pessoas felizes enrustem derrotas

e cantam vitórias

sem público, ou mérito.



Pessoas felizes têm filhos bonitos,

têm filhos perfeitos

para o Diabo ver.



Pessoas felizes só choram no quarto,

quando a luz se apaga

e não cega mais...


e o retrato se decompõe.



Marcelo Farias

domingo, 19 de junho de 2011

Febre-"quentum".




(A iniciação de um pré apóstolo: água, joelho em rosca e febre; química, só após as nove horas)


A creolina tratou como

dose, o emblema

salivar, que deveria ser salvo

em memória de

Rimbaud;


“Dormi aos quilos,

cabeça pesada trouxe-me

febre”


O quadrangular ato “declamar profecias” sugere desordem. Trata-se de “mastigação vascular”. Não havia sequer encordado os pulsos à maneira de Judas.

Reinou até sua janela-exclusiva-fora-da-gema-décima-sétima-chuva. A cada gotícula – nova-abertura.


“As pernas caem em pé,

porque os bíceps dos homens

estavam separados dos troncos.

Tenho que manter o sol”;


A visão tetraplégica

Minguou consigo as

mãos, chaves-verduras e competência:

“És preciso que migre Deus

para trazê-lo próprio

de volta à vida”;


Rimbaud-tá-morto.

Judas excomunga.


Travestir cães eucariontes enquanto

o mundo está ardendo,

e não culpar “melódico”

ao gerir espectral

confundes o feto com

“parir à mão-falácia”;


Disfarças

a ligeira extinção:

do que vale cortar as mãos fora,

pensando em sacrifício, carne,

tempero humano e sátira, se “Nimbus”

é oratório por dentro

de Pedro e seus leões

magistrais?


(As nove bestas voltaram às tranquilas e desenvoltas frases – acrescentei três:)


- Birra do conjunto.

- Célebre.

- Profetizar espaço.

- Mundo-acabar.

Rimbaud ingere veneno, observemos.


-||-


Cataclisma. Invenção e “Aufos”.

Os bichos desidratados por

sangues. Sem dor.

observa-se por Tekir –

ao nome da montanha – o

que vier de religiosidade

incrementa o

linguajar-de-pano:

§ That fat cigarrete §


|--|


Movimenta a boca,

frenteira rocha,

de ré-possível;

Noé desembaraça a criação

de nova década


(Por inventos, remava em sangue)


& “Yggur” prazer “movimentício”


Os dois nobres cavalheiros

já mantém seu fosco rasante

“Giacinto, quebras?

A dicção Rimbaud

processou alumínio;

Tragá-lo-ei na volta?”


A monstra cessou o que parir. Ungiu o translúcido objeto de nádega. O hummano desdém perdia o uniforme “sente-se”.


Retumbou a explicação-em-semi-latim:

“Ol mundio – língua desgraça –

jirás trendefe;

orimás desquigucero”


(O portal fechou-se. Coma, segundo os médicos. Cata-vento obsoleto. “Gíria-hydrus”)

Detonar Platão e seu raciocínio enxuto. Achar o “suicida diplomático” enfermo. Trazer coragem e meias; obstruir os pés

Pedi que me levassem. Os “Tácagros” vendiam cabeças felinas.

E o sangue continua pesado; passado tempo fora...


“Aturdi, MESTRE!

Comeste alma até chegar aqui!”

Os chifres “elpucidaram” o

apocalipse.

Denegrir o funco plasmo

da “lenda-Jesus”


-||-


Enlouqueças, pense que és mundo. Covário em corjas

Cintilantes.

Emendarei o fel nas construções de paraíso

(Rimbaud gargalha. Apaixonou-se por meu fim de sua época.)


quinta-feira, 14 de abril de 2011

OLHAR DE FURACÃO



















Revi seu olhar

No olho do furacão


Mas resisti


Seus lábios Calados

Fadados a me levar


Como um desatino


Seu corpo queimava

No sopro a me entreter


Mas me contive


Seus lábios falantes

Falavam palavras pelo ar


Me resguardei


Refiz meu altar

No centro do coração


E desisti


Calados meus lábios

Deixaram-se levar


Pelo desafio


Meu corpo teimava

Seu sopro entrever


Lhe contive


Meus lábios farsantes

Caçavam palavras no ar...


Me guardei


Remei no espaço


Mas era tão vago


O teu olhar


Que nada pude

fazer



Jair Fraga & Sonia (Anja). Ilustração: furacão Katrina.

sábado, 9 de abril de 2011

O ÚLTIMO ENREDO DE CHICO CHAPÉU






















...

>.


Cerrou

os olhos ontem depois de uma roda de samba , o poeta

chiquinho, conhecido pela alcunha de chico chapéu.

o bamba do samba da vela era cobra criada porreta,

jovem ainda vistoso, maciço de poesia, um bom menestrel.


Chico

tinha aquele andar de onça mansa suçuarana,

um gingado dançante de asas moles, mas um porte bacana.

ainda ontem o tinha visto num barzinho, na esquina do molejo

disse olá para ele e toma-mos uma branquinha com torresmo.


No

morro da malagueta, hoje a dor é mais ardida e veraz.

no meio da multidão, por entre acenos e lenços brancos,

escorregava o féretro do poeta Francisco da Silva Ferraz.


Foi-se

o Chico com seu chapéu e sua sombra incandescente,

iluminado. O nosso faquir africano sambou, brincou e foi brinquedo.

ao repique da bateria, o morro cantou seu último samba enredo



Calaça. Ilustração: Cartola.