domingo, 6 de abril de 2008

Anti-Clímax


por que todo samba dá no mar?
na areia boa de não pisar?
e aquela tal de iemanjá
vem de longe abençoar?

queria um samba que sambasse
longe do terreiro onde nasce
onde onda não rebentasse
ah! se aquele sambeiro provasse!

queria sambar o samba improvável
que falasse torto, de automóvel,
rimasse a rima inerrimável,
e, no fim, de melodia imprestável...

ah se o samba tirasse a roda
onde gira a baiana porque é moda,
podasse o pandeiro e não poda
pois não sabe que o ouvido incomoda

fico na esperança de um dia
ter um samba que não traga magia
não fale da noite, ou do dia
e não tenha uma musa Maria!

Sopro (Um poema sempre inacabado, infelizmente!)




Um índio morre queimado,
indefeso, dormindo.
Descaso.
Morreu.
Problema de exclusão!

Trinta morrem na igreja
de deus, do Quênia.
Peleja.
Morreram.
Problema de uma nação!

Os pais mortos a paulada
ganância, barbárie,
facada.
Morreram.
Problema de educação.

Um menino arrastado,
pela rua, para a morte.
Pecado.
Morreu.
Problema de alienação.

Uma bela arremessada
da janela, pelos ares
Judiada.
Morreu.
Problema de degradação.

Morrem homens todo dia
que somam-se aos índices.
Ironia.
Morreram.
Problema de coração.


Barbara Leite

sábado, 5 de abril de 2008

EM BUSCA DE MIM























A solidão fere meu coração
Esta solidão que me enche por dentro
Esta sensação de impotência
Ferida que dói em constante latência

O muro que construí, ruiu
Estou exposta e isso me assusta
Minhas fraquezas podem ser usadas
Para me derrubar me arrasar sem um piu

Enojam-me as pessoas
Irritam-me suas palavras vãs
Perco-me dentro de mim mesma
E me acho surpresa

Encontro-me em cacos
Pequenos pedaços de cristal, luz
Isso me mostra que mesmo em pedaços
Meus nervos são de aço

Espada em riste luto desesperada
Estou toda machucada, mas ainda viva
Ainda com forças e crenças.
Não importa nada o que pensas

E de embate a embate
Sigo minha estrada de lutas
Perseguindo-te oh felicidade
Com todas as minhas forças


By Ana Kaya. Ilustração: Angústia - Salvador Dali.

(RE)T(RA)TO
















Ontém fiz aniversário.

Ansioso convidei a mim mesmo.
Pensei que não aceitaria, mas aceitei. Pensei que não viria, mas vim. Á porta, me vi trajado a rigor, me visto bem, exercito Armanis. Me cumprimentei, teci alguns comentários sobre Rimbaud, o 3- reich e, pasmem, fiquei-me...
como me gosto!
Só eu e eu na festa de mim.
Impetuoso, tomei-me logo pelos braços e me levei ao quarto, na vitrola Duran Duran, mas gostamos mesmo é de Accept, eu e eu. No quarto, entreguei-me por completo a mim, beijando onde podia e cabia e delineando a entrega do que me tinha, me possui com completude e vigor.
Me despedi quando já amanhecia e prometi me ligar assim que pudesse. Fui.

Hoje estou sábado
e me espero ansiosamente.


Muryel. Ilustração: Metamorfose de Narciso - Salvador Dali.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Encontro de Sentidos Contrários



É em trilhos
abandonados
que eu trilho
meu caminho

com sentido
cidade-subúrbio.

A vegetação
que os encobre
parece devorá-los
aos poucos,

e só não os come
por inteiro

porque tremem,
lá dentro,

ecos de saudade
das passagens
antigas
de trens.

E lá na frente,
pelos mesmos trilhos
abandonados,
tu vens.

No teu sentido,
subúrbio-cidade.

André Espínola

A CORDA
















Das órbitas saltavam lágrimas insolúveis e inquietas, depreendidas em desalinho.

Sentia-se acre, mordiscando a língua que gotejava, na gravata cáqui, baba salina. No CD player, arremedos de folk, enquanto se debatia efusivamente e o roxo entoava e delineava a textura dos lábios... faltando-se a si mesmo. O sabor da jaca, do primo porre, o sabor da mãe a catar piolhos. De todas as arestas, odores sucidas encorpavam o ambiênte.

Da parede, Sartre observava tudo, em silêncio.



Muryel.

O COVARDE























O pior tipo de homem que existe é o tipo covarde.
Aquele que te envolve, te engana, fingindo um amor que nunca terá.
Fala doces palavras pra te encantar. Mas de doce, não tem nem o olhar.
E pior ainda, as mesmas doces palavras as disseminam por todo lugar.

O pior tipo de homem é o que engana até a si mesmo.
Fingindo ser algo, que realmente não é.
Fingindo ser romântico e encantador.
Mas só espalha pelo mundo desencanto e dor.

O pior tipo de homem é aquele que teme os desafios.
Encosta-se no mais fácil, quando a felicidade é um árduo caminho.
Finge que busca, mas apenas se encosta.
Finge que é sábio, mas é apenas um vagabundo.

Para eles, reserva-se o refugo.
Posto que nada melhor seja merecido.
Covarde, fique com o resto e o imundo.
Fique na lama, tu és profano e impuro.

Ser despido de coragem,
Não assume seus atos, nem informa a razão.
Patético Don Juan, pensa que é rei.
Mas é mero vilão.

By Ana Kaya