domingo, 30 de novembro de 2008

QUARTO ESCURO


















Se estivesses aqui
neste quarto escuro,
ao som do ventilador de teto
e de David Bowie,

Talvez hesitasses no início,

mas depois repousarias
tua cabeça
em meu peito nu,
e ouvirias
meu coração bater,
finalmente tranqüilo.

Quanto aos olhos, tu
fechá-los-ia,
como se estivesses a dormir.

Eu escolheria algumas palavras
e as escreveria com o dedo
_uma carta
na tua pele.

Talvez entendesses, talvez não,

mas em teu corpo estaria escrito,
como tatuagem indolor.

Tudo o mais estaria esquecido.

Mas meus olhos abrem...

e vêem o mesmo quarto escuro
ao som do ventilador de teto
e de David Bowie...

e a mesma solidão.



André Espínola.

sábado, 1 de novembro de 2008

MEU, TEU PRAZER



















Amputa as pernas
e não estará satisfeito

arranca os olhos
corta os braços

e não estará satisfeito

desvia o sonho
tapa a boca
fecha os ouvidos

e não estará satisfeito

mas eu me abaixo,

de joelhos,
te provo o contrário.


Ivone fs.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

PARA ABRIR A CABEÇA



















Imagine um cidadão de bem, um candidato a escritor, que um belo dia acorda e se depara com uma VAGINA!!!... em sua testa. Isso mesmo! Uma vagina viva, dentada, irreverente, polêmica, que fala e vira sua vida de cabeça para baixo. É com este argumento escatológico, mesmo para Franz Kafka, que Márcio Santana nos apresenta sua obra mais recente, O HOMEM COM A ABERTURA NA TESTA, um livro que transforma o absurdo em uma delicada reflexão sobre a realidade. Autor de DOZE CONTOS AMAZÔNICOS (1998), A FUGA (romance - 2003) e ANOTAÇÕS PARA UM CONTO (conto - 2008), Márcio Santana mantém-se fiél ao realismo mágico, construindo estórias que desafiam a racionalidade, mas são plenas de conteúdo simbólico. Lançado no último dia 25 de outubro, no Espaço Cultural da livraria Valer, o livro pode ser adquirido ao valor de 10,0 $ reais, por reembolso postal. Basta acerssar o orkut http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=4124719550095143876. Grato amigos e boa piração!


Marcelo Farias.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

GRITO



Ah este sonho de amores perenes
Esta necessidade de tí tão exacerbada
Esta dor que dilacera e sangra
Em meu corpo, nos meus genes.

Esta saudade de um tempo
Que talvez nem existiu
É que esta dor é tão forte
Que não me deixa dar um piu

Nos insondáveis limites sem fim
Quedo-me de joelhos, perante ti.
Dono de minh´alma senhor de mim
Prisioneira em meu mundo só dizendo sim

Como um robô eu me submeto
A esta dor, a estas correntes
A estes grilhões que me impões
A este mundo escuro, preto

Esta solidão implacável
Ainda há de me matar
Dói demais, é impossível
Aguentar o tranco, suportar.

Eu só grito!


By Ana Kaya

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

desrealização


montagens de palco à italiana
quadro emoldurado
retomam o infinito e é como se tivesse fim

todos sabem da necessidade
abarcam, aportam, não se importam
fechados a um cubo de madeira preparada
fingem viver

assim é que no teatro se dança
dançam a vida aqui encenada
isso é nada, mas vale a arte
artifício espaço físico tempo psicológico

dançar é não se matar
e dançam a chuva de engenharia
palco à italiana, caixa fria
de onde é possível todo disfarce

resta a opção de descer do palco
desrealizar a realidade
mas fica o medo do salto para a vida
a bomba, a fumaça, o disparate
range a madeira quando pisam
e é o confortável estar-se à elevada

não me venham com desculpas
vocês são os únicos felizes por natureza
recebem a paga justa pelo eximir-se
são frágeis, mas eternos

a verdade atrás da cortina é mais fácil

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Despedida do sonho




a Jacques Barcia


Tive um sonho que se despediu de mim,
Sussurrou um adeus sentido e caiu na vida
Deu a mão a uma esperança e partiu.
Sequer olhou para trás enquanto seguia
Deixando pedaços na estrada perdida.

Gritei.
Gemi.
Implorei.
Pedi.

De nada adiantou
E vi se afastar
Um sonho que se despediu de mim.

O “Corte”



... quando ouviu D. Firmina
um som trepido e cristalino,
que ela bem conhecia por
tê-lo muitas vezes escutado. (...)1


Capítulo II
Senhora
José de Alencar


E pressenti no mórbido e nácar sorriso,
O opaco cristalino...
A taça de Vinho Tinto;
Quebra-se, estilhaça-se, quebra-se...

e heis que surge um corte profundo que lhe rasga a boca,
e, o sangue rubro...

Mancha-lhe a camisa toda!


Flávio Mello