domingo, 8 de fevereiro de 2009

A maresia da lama.



Tão salgada quanto a embolia sentimental;
Convicção submersa no mar - doce e vermelho dos teus pés;
Descritiva, a lama pede: "Aos ventos em revoada entrego as almas!
Ao mar entrego em revoltas aladas,
O maior e o menor preço do universo!"

Tenho meu orgulho submerso;
Num mar revolto de saudade;
Mar que se assemelha à igualdade da lama,
E da terra que pisas.
Tu sorri. Tu sente a maresia?

Os favores frios que concedestes;
Renegam o calor do que eu sinto.

Afunda - areia movediça;
Afunda em mim - humana;
Rejeita a si - esnoba teu verdadeiro amor.

Deixe-o ir embora.

EXPRESSO DOS ANJOS


















Andar ruas, esconder-se multidão. Pessoas escondem-se em mim. Sou minhas doenças. Fumaça. O mundo é este nevoeiro de carbono lançado no cosmo por máquinas velhas. Placas, cartazes, sapatos, passadas, passados. Pele descartável. Hoje as flores de plástico tem pétalas de carne. Misturo-me com a pele dos outros. Mal me quer, bem me quer. Despetálo-me neste ônibus ao meio dia. Essa carcaça de ferro e vidro exibe o rosto dos esquecidos na janela. Os postes me acompanham.
A máquina leva seus passageiros nas costas. Pingos de chuva vêm do céu da boca das nuvens. Mexo o braço mexendo os corpos dos estranhos. Como poderei amá-los? Esqueço seus rostos num olhar desinteressado. Esqueço. Não me vejo. Meus pés confundem-se com os passos falsos, sem graça e inúteis dos outros. O ônibus, essa nave sem vôo, é a verdade de seus passageiros. Minto sem saber. Sei que eles mentem em busca de uma verdade imaginada nos botões caídos sobre o metal da nave. O chão não é visto, nem sentido. É preciso chegar no ponto. Chego na estação. O mundo é cheio de paradas. Saberemos sempre onde descer. Aonde chegar? Em casa? Na fábrica? No bar? Na praça? Na morte?
As lâmpadas piscam para se apagarem. Cortes. Portas. Janelas. O ônibus segue lotado. Estou lotado dos outros com meus ombros enrijecidos. A cigarra canta pra morrer. Quando precisarei descer? A cigarra canta pra morrer. Medos de sinetas imperativas. Estou de pé nos pés dos outros. Me conforto vendo sete passageiros sentados. Das costas de suas costas surgem pontas de ossos em vão brotando em forma de galhos venosos. Asas vão cada vez mais crescendo. A penumbra. Pares de asas. Enormes asas. o ônibus não poderá suportá-los, nem comportá-los, muito menos me assombrar. Vejo mães parirem seus filhos para comê-los. s passageiros se incomodam com a penugem dos alados. Apesar das longas asas, eles não conseguem se mexer. O homem de asas levanta-se. Outros ocupam seu lugar. Alívio para os pés cansados. O expresso tem janelas grandes, de vidro. Todas fechadas. As portas automáticas não abrem fora do ponto. Eles precisam sair do veículo e voarem. Pra quê ter asas se não podem voar? Apesar de imensas janelas cristalizadas de plástico preto, a ventania não circula. O dia inteiro será sempre noite de dentro dessas máquinas. Eu quero que este monstro de aço esmaltado se choque no primeiro muro da moral. Que se espedaçe no último desastre. Que se espalhem seus vitrais pelo mundo.
Um menino arranca da sacola um martelo. Quebra as janelas e solta as aves. Os alados escapam damáquina. Voam libertos sobre a cidade suja.



Marcus Ney. Ilustração: Lagarde Perpignan - Salvador Dali.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Um ensaio.


E tu estás aqui de novo – destino insólito!

Trouxe até mim essas belas imagens – já anteriormente esquecidas, e corroídas pelo tempo.


Eu a coloquei como foco;

Eu a entorpeci com os efeitos sonoros dessa vida amarga!

Ela assim me arrastou e me dissecou internamente.

Estou agora pela metade; Tu levaste minha mente!


Sou – o que já não era.

Maldito seja o som das trevas!

Ecoam-se em meus ouvidos o teu bater nos ares envoltos em mentiras;

Consigo sentir teu cheiro em óleo das outras filhas;

Dessas ruas e desertos, nas quais tu dizes possuir.

E tudo não passa de um mártir!


Já pensei ser dona de minhas próprias falas – mentira! Carrego comigo uma leva de pombas giras; Que renascem a qualquer sintoma de amor a ti.


Religião sem fé – seca!

Pequena e imensa solidão – se embaraça e espaça-me aos dedos, tamanho torpor que tu me deixaste.


Alfaiates? Reerguem-se!

Deixam-se os velhos trapos de sonolência que vestimos – abandono!

Relevam-se os sonhos puros que cumprimos – assombros!

Fantasmas e deuses que tornamos a ver – Delírios!

Sinos e sinos!


Talvez não! Estejamos loucos, então!

Em teus olhos de tamanhas cores – desenho cores novas!

Semi-novas planícies de montanhas novas – mais novas do que os sentidos!

Qualquer fossem os dizeres agora...

Não seriam dignos de lágrimas vossas.

Senhorinha de tamanho imaculado – anjinho malvado.

Envolta entre mantos de mentira;

Tu és tua própria cria;

Teu princípio e teu prazer;

Sente-se feliz ao comover qualquer um de seus amantes;


Rodando sua saia afora;

Tua indecência – mente interna -, doçura infame;

Delícia entrando-me aos poros – sempre!

E fazendo-me lembrar de ti.


Só, eu não sou.

Não. Não és.

Somos. Podemos.

Morreremos sabendo.

Escrevemos e encenamos;

Deveras fossem nós dentre tantos;

Capazes de sermos – não fomos!

Nem seríamos - talvez!

Tamanho fosse o sofrimento de prazer,

Que teríamos ao nos encontrar.


Não hesitei em lutar por ti.

A categoria de minha falácia decai sempre – ruína!

Minha única menina – em um mundo com almas a me comprar.


Os instantes desgastam.

Recebo os passos de pessoas que não me vêem – risos!

Amigos, e familiares!

Palmas lineares!

Tudo muito ensaiado – peça e teatro!

Ruído calado de algo que eu disse.


Reino sozinha! Queimo-me!

Fogueira inquisidora;

Fácil conter-me em seus braços!


Restos. Apenas.

Inteiras são as pernas;

Que ousam trilhar o mesmo caminho.


Sozinha! Sempre!

Contigo em mente – contente!

Mentindo através do soluço e ardor;

Fingindo sentir amor por esse humano – sou!

Me envergonho...

Me calo...

Abandono o papel...

Deixo o corcel correr sozinho;

E me abençôo com o vinho.


(Imagem: Hyatt Moore - Flamenco Trail.)


Odisséia



Tinha lá seus pés pregados nas nuvens,
Com a cabeça em meio ao mar,
Navegando com seus olhos no destino,
Em meio aos seus sentidos, sua nau,
Errava em busca do poente ao fim do mundo.

Rilhando em seus punhos o caminho,
Numa pena que instaurasse sua estrada.
Vagando aos sete mares do deserto,
Vagando pela sombra em sua voz,
Fazendo de seus sonhos meias léguas

Que o levassem sob o centro da memória.
Um viajante que trilhava as desventuras.
Velha criança que se perdeu no horizonte,
Lá nas cores, sobre o logro de seus dias,
Lá no ventre do oceano, um coração.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009























Meu corpo,
esta imunda porção
de células natimortas
se autodecompõe ao pesar
dos anos insanos que passam
regados desregradamente
entre mesas, álcool, copos
e putas que flagelam
minha alma errante de ser.
Meus tecidos epiteliais
desfibrilam-se em soturnos bacanais.
Meu hipotálamo mudou-se há tempos
para o lado mais obscuro da vida.
Meus olhos macambúzios
debaixo dessas pálpebras ébrias
teimam em desvirtuar o horizonte.
Minhas pernas me levam sempre
ao bar mais próximo da morte.
Meus sonhos são recheados
de covas de terra fria
procurando aplacar
a embriaguez em que me encontro.
As vozes que ouço são murmúrios
e lamentos satânicos dos que
diuturnamente me acompanham
nessa empreitada sem volta
que a cada amanhecer se renova.



Amarildo Maciel. Ilustração: Boris Karloff como o monstro de Frankenstein.

CRIADORA DE SÍMBOLOS























Não sei definir o que há,
nem consigo segurar o que sinto
Expressão de forma cabalística
Mil formas de pensamentos "sem sentidos".
É porque é bom.
Adoro brincar de Deus!
Mas crio coisas "inúteis"
sufocando os meus instintos.
Indefinindo, confundindo os olhares.
De vulgo luxurioso
vocabulário reprimido.
Comunicação bloqueada,
numa tênue reflexão,
de tanto buscar o clímax...
Afasta-se,
nefasta
e nada.
Pois se contenta com burburinhos;
de honrarias fáceis.
Destruindo o verdadeiro
templo da salvação
de uma criadora de símbolos.


Pollyanna Furtado. Ilustração: Leda Atômica - Salvador Dali.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

NEBULOSA DE EMISSÃO


















não que o coração me fosse pai
ou que a paixão devota me apanhasse
pela espinha inocente em chicotadas.

minha questão interior com as estradas
começa
no ponto
em que a veia adultera o fluxo contínuo do sangue

e me põe rios de lavas
a correr montanha acima,

na direção da boca,
do cume incauto da língua,
no rumo do “eu te amo”.

nunca fui exangue de passos
e sempre que pude
caminhei pelo mais difícil.

forçar movimentos, dominar peristaltias,
fumar crisálidas e cuspir borboletas de artifício
é de minha essência nó em fumaça.

a bem da verdade,
por amor,
não há o que eu não faça

e bem sabe
minha amada
que por mais que a voz me falte,

não titubeio em subir à amurada do sol
para gritar seu incasto nome em chamas.


Anderson H. Ilustração: nebulosa de Órion, em imagem do telescópio Hubble.