segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

POODLES VITORIANAS






















Com rímel e pó
maquilou-se
de sonho e de criança.

O tempo lhe trouxe
mais que rugas,
palidez e temperança.

O choro que enxugas,
não mais rega
tua face.

Floresce-te num impasse
entre borrões e delineadores.
Apaga vidas,

estica amores,
corrige feridas
e te faz senil.

Mas não te preocupes,
Deus te fez de carne,
costela e renil.



Jack. Ilustração: esboço de Yvette Gilbert - Henri de Toulouse Lautrec.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Construção


Resta, como não há esperança, o descuido
os homens põe-se a sonhar
e acabam desdobrando a vida
em pedacinhos de cimento
e descuidam da certeza

Eu, que há muito não vejo janelas,
faço força rumo ao teto
minha parede e poucas manchas
mas existem
pois descuido também

As manchas de minha parede são reflexos
dos meus descuidos e dos desdobramentos da vida
que, ainda em pedacinhos, são cimentos
em formas ignoráveis
sandias
assustadas

feliz será o dia em que a morte não fizer sentido
ao menos aos desdobrados
que do cimento sairão coroados
com a simplicidade do cimento em forma

eu continuo o mesmo
olhando minha parede e minha vida
não faz sentido
mas, ao menos, está em quadradinhos
todos aceitáveis

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

DESTILADOR























Escrevo destilando fel.
O doce sabor que tu sentes,
vem das bordas de carvalho
de tua caixa craniana,
ou das artérias entupidas
de mágoa
que trazes em ti.


Marcelo Farias.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Notre Sang.























Por acaso soubestes, qual força nos envolvia?

Quais sons profanos tu emitia;

Para que eu fosse amaldiçoada por inteiro?


Seu demônio ligeiro!

Trancastes-me dentro de seu peito,

E com desrespeito, me tirou o fim.

Me dando a vida eterna...


Devolva-me à ela! Òh, sentimento mundano!

Seus sons de tamanha proporção,

Me fazem gritar de emoção...

E me comandam por um inferno perfeito.


E já não me atrevo a tentar;

E nem ao menos tento.


Deixo.

“Re-deixo-te”!

Alimento-te com uma alma estranha;

Completamente banhada em lama,

Na qual estive submersa por anos.


Já não sinto.

Minto.

Sinto muito;

Teu puro afago, banhado em almas vadias;

Acompanham suas mãos frias,

Por dentro desses cálices profundos.


E pra você:

“Que se dane o mundo

Tenho comigo um belo cajado,

E poderia jogar carteado,

Com essas almas que possuo...”


Cruel.

Não, melhor!

És um resto de areia

Que apenas me cega, e se faz poeira

Diante de meus olhos.


Vá-se!

Deixe-se ir!

Não se permita prender agora;

Encontraremos-nos outrora;

Talvez numa outra estória...

Escrita por suas insanas mãos.


-14/11/2008.

POLAROID





















O dia apagou-se ao meu rastro,
como se por luz me perdesse em foco,
e ainda que me deixasse em partes,
não me tem por baliza...
Discorre fora de grau e do campo.

Rouba-me os cílios, induz-me os passos.
Montando errado o agora em terceira pessoa,
escondendo traços sob jargões, enganado
demais em meandros de interlocuções...
Catódico em versões, populismo bíblico.

Meu quebra-cabeça de prismas,
quebra a razão sobre cores
e faz da alma, espectro.
Que pelas minhas atitudes
a verdade esteja em foco.

e minha real face, em negativo.



Lucas Augustus. Ilustração: Intervenção sobre imagem de mediadas.lemond.fr - Alberto Taveira.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A FEBRE CAVA TEU DORMITÓRIO


















Quebra-me em três oitavos
e diz que está tudo lindo,
que o passo não é tão fundo
e as águas não são rasas.

Para tua informação,
eu preciso que me cavem
como enfiam o dedo no bolo
da gula coletiva.

É preciso que me deixem à deriva
nas senhas das bocas fechadas
_um segredo sussurrado
e lavagem estomacal periódica
na surdina.

Se o fixo perguntar por mim
diga que flutuo,
que do certo
não me asseguro e, por favor,
cava-me.

Deixe que as asas nasçam entupidas
e as cores transbordem translúcidas.
As nascentes de marasmos
e a vadiagem nas pegadas

_o torto no seu mais sincero sorriso _
evitando as minhas trapaças
e os pássaros alucinatórios
nos divãs sambistas.

As pétalas cruas nos olhos.
Não evites o sétimo solo!
O olhar enviesado,
as unhas na terra,
a cama de cratera
_dormitório de toxina.



Rita Medusa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

SONETO CHEIO DE LIBERDADE
















Razão assiste ao submisso escravo
que beija e lambe os pés de sua dona,
pois que se amam, o gilhão é largo
e o cativeiro lhe é feliz redoma.

Mas não se iluda, ó Flor, que o amor é entravo

no ser feliz que a vida lhe abandona,
posto que o dócil traz em si o bravo
a tomar vida quando o vil questiona.

Para onde vaz? E quando volta? Gris?!
Com que perfume o mar em ti navega?
Me tens lacaio! Por que não sois feliz?!

Será o odor que a terra em ti esfrega
quando deitada em meus ervais carris?!
Dizei-me, musa, por que não te entregas?

Por quê?



Anderson H.