quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

COISAS DOS MEUS CADERNOS DE ANOTAÇÕES TRÔPEGAS























Os cotovelos sobre o balcão do bar.

Palhaço: Teu tio empresta a espingarda?
Domador de leões: Tá no forro da casa do sítio!
Palhaço: Onde?
Domador de leões: Em Sorocaba.

Flanela enxugando mesas.

Garçom: A monga adoeceu?

O garçom pôs a flanela nos ombros e acendeu um cigarro ordinário.

Dono do bar: Porra Eurestes! apaga essa merda!

O garçom pigarreou.

Palhaço: Vê a conta!
Dono do bar: Deixa pra lá!
Palhaço: Que merda é essa seu Perdeneiras?

Seu perdeneiras gaguejou.

Dono do bar: É que minha filha gosta muito do circo.
Garçom: Ouvi dizer que vai fechar!
Dono do bar: sério?
Domador de leões: A monga fugiu com os anões.

Escrito em 12/11/2004, na saída do bar Mac Intosh, no centro de Manaus.


Diego Moraes

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

BAILARINA























A bailarina dança no tempo um traço feito
a nanquim. Linhas e gestos, sapatilhas e mãos,
vestido feito de luz, cheiro de limão.

A menina baila no deserto árido, não há
vestígio de água nem sinal de contemplação.

Toda ternura do balé é oferecida exclusivamente
ao sol, que tinge sua face plástica com raios carmins.

A noite chega em silêncio, e as estrelas, tantas,
olham melancolicamente pra Terra vendo sua
irmã brilhar com sua solitária biolumenescência.

Do outro lado do mundo na grande cidade,
as pessoas transitam cegas, na mesma calçada,
numa coreografia dissonante.


Fernando Esselin

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

HORA























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o espelho mostra um esboço
um fundo de poço
um velho moço carcomido pelos erros
pelos enganos
pela ilusão
alguém que deixa filhos
versos maltrapilhos
e um grande nada como legado

ver-me verme
espectro tosco do sonho de criança
não me dá saudade angústia ou medo
apenas a certeza de que é hora
da partida sem despedida
em segredo

.


César Veneziani

domingo, 10 de janeiro de 2010

A HOLANDESA DE XAXIM
























Duda de Oliveira é uma pintora de cenas cotidianas. Pintadas à pena e não a pincel. O dia mais cinza, mais tedioso, ganha vida, cor e profundidade em suas crônicas. Como numa pintura impressionista _qualquer coisa entre Van Gogh e Renoir _ou como a pintura flamenga do século XVII. É incrível como a menina de uma minúscula e tediosa cidade do interior de Santa Catarina (Xaxim), pode se transformar em qualquer menina, de qualquer cidade, de qualquer lugar.
Duda encarna a "crônica diária" da vida feminina (ou da vida em geral) como se o momento mais insignificante fosse uma passagem poética. A vida conta histórias, Duda as reconta para nós. Seu tom vai da suavidade, passando pelo humor levemente sarcástico, até a apereza. Porém, sem nunca ferir o leitor, ao contrário, o encanta!... Soa como uma nota suave, mas precisa. Sua narrativa tem o sabor de um vinho branco seco... porém tão suave que chega a ser doce no fundo...


NOVEMBRO

Foi numa tarde em que Maria foi encontrá-lo na rodoviária. O dia estava lindo e não teria como não estar. Eles eram diferentes e todo mundo dizia que um completava o outro. Todo mundo não, porque quase ninguém sabia. Maria era quase mais alta que ele e, ainda assim, ele era quase intocável. Ele nunca ligava e, quando o fazia, ainda assim, não ligava. Maria o amava, ele se deixava amar. E eles eram felizes assim. Ela tinha bom gosto pra música, livros e cinema. Era orgulhosa, cheia de si. E precisava dele pra se sentir viva. Mas naquela tarde de novembro, Maria ficou imaginando como seria se não fosse daquele jeito. Enquanto segurava a mão dele, pensou em outras mãos e outros corpos e outras salivas e outras ruas e outra história. Enquanto ele quase a amava, ela descobriu que tinha um mundo pra entender e, pra saber das coisas, não mais podia ficar parada esperando ele ligar. O garoto parou de olhar pra rua e olhou pra ela, mas ela não estava mais lá. Maria pensou que morreria, mas não morreu. Aconteceu. Acontece sempre, com todo mundo, o tempo todo. Foi triste como tinha que ser e depois passou, como tudo passa. Maria lembrou disso dez anos depois, numa rodoviária, indo embora. Sempre com essa mania de ir e não guardar as coisas refletidas. Ela lembrou porque, se tivesse sido diferente, doeria igual. Ele ficou lá no interior, criando raízes. Maria saiu voando. E essa história não tem moral.

- Duda de Oliveira.


Marcelo Farias

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

BRASILIDADE

















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invoca-se a etnia
brasilidade
em toda e qualquer esquina

fisionomias dançantes
passos rápidos de pé virados
guarda-chuva em mundo de confete

invoco
outro copo de vodka
pra engolir os tambores
soar de chocalhos
imita a pior das cobras

penasde papagaio ou arara
enfeites
adornos feitos com varas

mas que pena
hoje, o rock
está fora da arena

prostra-se o rei
coroa de pandeiro
meu sangue é venenoso
não sou brasileiro.

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Éffe

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

PACTOS E CLEMÊNCIAS























Auxilei na construção de uma usina, hoje
fiz um presépio de demônios
e menti beijos para cascatas
Não fui decente, como devia
nem maculei órbitas

minha felicidade perdeu-se em quilômetros de soda
O cão rejeitou meu osso
e fui ficando inquieta, como não devia
a casa pegou fogo e continuei no solo, vadiando sombras
eram futilidades que me possuíam nos sedativos
O cão roeu toda minha praça e comeu as pombas
escrevi uma estória que, certamente
não devia.

Fui declarada inimiga particular das portas
Não compareci em nenhuma aula dos necrotérios de ninfas
nem vendi jóias para os camaleões
a inutilidade sangra como meu único prazer.

Exerci a crueldade, como me foi prometido na última lua
O dia foi belo como um hímen fatigado
Matei bailarinas com dados e teorias psicanalíticas
O funeral acontecerá no meu pulmão e não engolirei flores.


Rita Medusa. Ilustração: René Magritte - La Memoire.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LITERATURA E INTERNET























Jung costumava falar, muito frequentemente, no misoneismo, o medo de tudo o que é novo. Desde de seu surgimento, em meados da década de 1990, que a Internet é alvo constante deste mal. Culpa-se a Internet por muitos males _o pior deles: a pornografia infantil. Suas virtudes, no entanto, são sempre vistas de forma míope, obliqua, estereotipada. Trata-se a Internet ainda como aquela coisa exótica, feita para adolescentes empolgados, para nerds e punheteiros de escritório, para solitários em busca de fantasias, para desocupados e para pessoas "que não sabem viver a vida real". Somente as pessoas que realmente fazem uso _que descobriram! _a Internet _essa mídia direta, feita por mim e por você!... essa ferramenta sem igual para os mais ilimitados fins _é que sabem como ela está repleta de criação, de novo, de um novo mundo que se faz e que acontece!...
A literatura, por exemplo _que para muitos professores e estudiosos, parou lá na Geração de 45, na Beat Generation, no Movimento Mimeógrafo, Marginal dos anos 70 _continua não apenas produzindo, como produzindo uma nova geração de escritores, antenados com um novo momento, com novos desafios, novas configurações, que não é compreendido pela mente arcaica daqueles que continuam defendo que hoje vivemos apenas um triste... pós-tudo (pós-45, pós-marginalismo, pós-modernismo, pós-beat... pós-pós...).
A literatura atual não apenas existe, como possui personalidade própria. Uma personalidade, aliás, muito forte! Espalhados em blogs e comunidades do Orkut, escritores das mais diversas regiões do Brasil _de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Fortaleza, Recife até Manaus _criam, se expressam, renovam o cenário literário nacional. Escritores de todas as idade, de 16 a 60 anos, que, em sua maioria, nunca publicaram um livro, mas já deixaram sua marca na WEB. Para conhcecê-los, basta acessar blogs como este BACANAL - O Canal dos Bacantes (http://canalbacana.blogspot.com/), como o blog da revista amazonense SIRROSE (http://sirrose.blogspot.com/), blogs pessoais como o de Gabriela Nieri (http://peripeciasdegabi.blogspot.com/), de Duda de Oliveira (http://digressaopassional.blogspot.com/), de Denise Machado (http://virgulaantenada.blogspot.com/), de Márcio Santana (http://notasdeumdegenerado.blogspot.com/), Diego Moraes (http://diego-moraes.blogspot.com/) ou blogs como o gótico VALE DAS SOMBRAS (http://valedassombrasmemorte.blogspot.com/), ou do Movimento Tavernista de São Gonsalo (RJ) (http://acorjavirtual.blogspot.com/) e de comunidades do Orkut como o BAR DO ESCRITOR (www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=3891757).
Faz-se literatura no Brasil, mais do que nunca. Mulheres escrevem mais do que nunca. Nunca vi uma geração de escritores com tantas ESCRITORAS!!! Rita Medusa, Sirley Passolongo, IvoneFS, Bárbara Leite, Gabriela Nieri, Duda de Oliveira, Trish River, Jalna Gordiano, Poliana Furtado, Denise Machado, Me Morte, e muitas e muitas outras. A lista masculina também não é pequena: Beto Reis, Márcio Santana, Diego Moraes, Flávio Mello, Muryel De Zoppa, Anderson H, dos Anjos, Zé DS, Eduardo Perrone, Lucas Augustus, Lanoia, Calaça, Antônio Carlos Rocha, Romulo Narducci, muitos outros e eu... Marcelo Farias, é claro! =))...
A literatura deixou de ser apenas uma forma de arte, para tornar-se uma "língua", uma forma de comunicação entre as pessoas. A geração de hoje se comunica através da literatura. E nenhum veículo serve mais a esta comunicação do que a Internet.
A mídia convencional, a TV, sobretudo, tem o dever de descubrir essa nova geração literária, de mostrar ao telespectador, que há um mundo fervendo e brilhando... bem debaixo de seu nariz!...


Marcelo Farias