quinta-feira, 24 de abril de 2008

zero


Fiz do zero a resposta mais justa
Mesmo que nula
Enxuta
Agora respondo a tudo com o zero
Só ele completa a fórmula das improbabilidades
O zero completa o sim e o não

Contar é não ver limites
Por isso não conto
Dou de ombros às reminiscências
Semidemências
Querências
Paro no ponto devido
Preciso
Embora não precise

Hoje quando acordei
Não vi números
Não vi
E é como se argumentasse contra as regras
Rezei para que não chovesse
A chuva zero atendeu
E não caiu baixinha
Fina

Que importa se as coisas vão certas
Mais vale a certeza não número
Certeza é necessidade do culpado
E eu
Incerto
Contos os passos em regressiva
Do zero ao zero

Meus pensamentos são o zero
Completa ausência
Zero de tristeza
Zero de prazer
Zero de culpa
zero e não
zero e um
zero

terça-feira, 22 de abril de 2008

O ARRANHÃO

















Toinho tinha 12 anos quando isso aconteceu. Já havia quatro anos que sua amada mãe havia morrido. A casa antiga da fazenda se tornava cada vez mais sombria. Os dias eram solitários, seu pai não lhe falava muito. As noites eram longas, os roncos de seu pai não lhe permitiam dormir. Ele ouvia cada som de noite. desde o vento na plantação, até os chiados das galinhas no porão. Mas nada superava os roncos de seu pai.
Certa noite, ouviu um barulho diferente sob o piso do quarto. De repente, as galinhas se alvoroçaram e subiu-lhe, às narinas, um cheiro de mata e cachorro molhado. Imaginou que o galinheiro estivesse sendo atacado por uma raposa. Pensou em chamar seu pai, mas seus roncos, infindáveis, denunciavam um sono de pedra.
Abaixou-se sobre o assoalho e pôs-se a olhar por suas frestas. Viu um vulto maior que um homem. Assustou-se e quis correr para o quarto do pai. Mas os roncos emanados de lá, o assustavam mais que o vulto. Voltou a abaixar-se e olhou novamente entre as frestas. Surpreendeu-se a notar, do outro lado das frestas, um par de olhos esbugalhados e vermelho-fogo. O detentor dos olhos vermelhos falou-lhe, em voz rouca hálito de fezes de galinha:
_Tá olhando o que moleque?
Silêncio.
_Quer chamar o papai? _Continuou.
_E eu chamo mesmo!
_Se ele se preocupasse com você já estaria acordado, não acha?
_Ele só tá cansado!
_De você?
Silêncio.
_Essa sua vidinha pode mudar, menino.
_Como?
_Acabando com seu medo.
E terminando de falar, o estranho encheu a boca de algo que pareceu, aos olhos de Toinho, uma suculenta farofa de pinhão.
_Eu posso te ajudar! _Contibuou, falando e comendo.
_Como?
_Venha até o galinheiro.
_Não sei!
_Não tenha medo, confie em mim! Venha aqui.
_Espera! _Foi falando e se dirigindo ao quarto do pai.
O grande home da roça dormia ente três travesseiros esfarrapados, uma colcha de retalhos velha e um lençol que não parava sobre o colchão. E roncava forte, como uma fera faminta e desorientada. Pensou em acordá-lo, mas depois do terceiro rosnado sonífero do pai, desistiu. Saiu pela casa, andando pé-ante-pé até a porta do porão, servido de galinheiro. Respirou fundo e entrou num pulo só. De olhos fechados sussurou:
_Estou aqui.
O homem-fera soltou um urro gutural e todas as aves do galinheiro sairam desesperadas pela porta, passando por cima de toinho e o derrubando ao chão. Apavorado, começou a gritar e esmurrar o ar. Por alguns segundos, ficou assim. Até percerber estar completamente só. Levantou-se com medo e olhou tudo ao redor. Não havia nada, nem ninguém... Limpou-se rapidamente e voltou para dentro de casa. Correu para sua cama e cobriu a cabeça. Depois de quase uma hora ouvindo os sons da noite, acalmou-se e percebu um arranhão em seu antebraço esquerdo.
Passaram-se 28 dias e o arranhão não se curava. Por dias ouviu o pai lhe recriminar por ser descuidado e desatento e por se machucar à toa. Além disso, nos últimos dias, o ronco do pai parecia mais alto, freqüente e irritante.
Naquela madrugada, 28 dias depois do ocorrido, o menino ouviu o mundo se silenciar... Foi até a janela, sentiu o cheiro de mata e de fezes de galinha. Sua boca secou, seus olhos viram muito mais longe do que já havia visto em sua vida. Num instante, o mundo ficou claro ao seu redor. O menino fechou os olhos e seguiu ouvindos os roncos de seu pai. Já à porta do quarto, sentiu o cheiro de fumo de rolo e estrume de vaca queimados, cachaça e limas da pérsia (que na verdade eram de seu quintal mesmo). Segundos pareciam horas. E os roncos pareciam cada vez mais altos. Sua cabeça parecia explodir. A dor era incontrolável... De repente, ouviu-se o som das unhas afiadas em carne macia e sebosa. E não se ouviu mais nada.
Naquela noite, depois de quatro anos, Toinho dormiu como um anjo. Um anjo da noite!



Beto Reis.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

PROSA (ou Antinomia Entre Pollyanna Furtado e Duda de Oliveira)






















É preciso ter tédio para fazer prosa.
Poetas não fazem prosa.
Quem não sente frio não pari prosa.
A prosa tem mãe no ambiente
e não no sangue da gente.
A prosa é urbana,
desumana!
A prosa é a moça que mostra o corpo no filme pornográfico.
No foco certo, no ângulo exato.
Não é atriz de teatro.
A prosa é um saco
de segredos guardados mas sem paixão.
Razão que não engasga no depoimento.
É o silêncio
do verso oco e desnaturado.
A prosa é o fato.
Que passa fora de mim
e espera minha reação.



Marcelo Farias - Ultramodernidade.

domingo, 20 de abril de 2008

INÉDITO























A chama acesa
geme
os olhos paraliso,
...pele branca...

_Flor de lis _me diz.

Risca e cola
lábios, lambe, escorre...

Lá fora tem o tempo, as horas, os outros
e nem me lembro.



Ivonefs. Ilustração: Mulher - Salvador Dali.

domingo, 13 de abril de 2008

Festa da Saudade


DIA


saudade canta
no peito,

s a l t a

tal qual criança
pulando corda.

depois, bêbada,

tropeça

vomita no chão,
e do chão
pinta as paredes
com o vermelho
da solidão.

levanta-se
como se cair fosse
um passo de dança

e faz roda de ciranda
de mãos dadas
com as
lembranças.


NOITE


já suada,
tira a roupa,
vai pra cama,

abre as pernas

e diz

- vem.

aí dorme eu dentro dela,
ela dentro d'eu

sem saber se
eu sou ela
ou se ela sou eu.

André Espínola

quarta-feira, 9 de abril de 2008

TEU PAU

















Ondula em minha língua.
Teu desejo bruto,
hexaedro, poliedro
qual diamante cristaliza-se.

Atrai-me em fascínio!

Pego pela boca,
danço e cubro
todo o espaço...

-Teu pau é lindo!

Tua tez saliva meu corpo,
jorra céu em terra úmida
acende,
encosta,
mostra o inatingível,
suga meus mamilos!

Subo,
aperto,
contraio a tua essência

vestida em teu corpo.
Grito... teu nome...



Ivonefs.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Bom Dia!

















Tem uma época da vida em que a gente não sabe o que quer fazer: Jornalismo ou Letras, namorar ou ficar sozinha, fazer festa ou morrer estudando.
Fui dormir pensando nisso e acordei meia hora atrasada. Pra quem não sabe, eu odeio acordar atrasada. Odeio muito. Eu fico de mau humor durante uma semana inteira quando isso acontece. Atrasada, fui tomar banho. Fiz o mais rápido possível. Vesti-me rapidamente e fui logo para a cozinha, torcendo pra que desse tempo de tomar meu café-com-leite e comer meus biscoitos salgados. Não tinha mais biscoitos. Nem presunto. Comi queijo com pão quase chorando de raiva. Faltavam 5 minutos pra eu ter de sair, então fui logo passar lápis de olho. Quase fiquei cega. Aí eu chorei, mesmo sem querer. Meu olho lacrimejava contra a minha vontade por causa do delineador que tinha vazado. Entreguei-me como um bebê e chorei, chorei muito. Pus as mãos no rosto e, deitada na cama (que não estava arrumada devido ao atraso), comecei a soluçar. Cessadas as lágrimas vindas de um ridículo mau humor matinal, sequei o rosto vermelho e entrei na van (aquela cuja porta quebrou na crônica anterior). Bom dia, eu disse. E sorri. Meu dia começou ali.


- Duda de Oliveira.