quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

POLAROID





















O dia apagou-se ao meu rastro,
como se por luz me perdesse em foco,
e ainda que me deixasse em partes,
não me tem por baliza...
Discorre fora de grau e do campo.

Rouba-me os cílios, induz-me os passos.
Montando errado o agora em terceira pessoa,
escondendo traços sob jargões, enganado
demais em meandros de interlocuções...
Catódico em versões, populismo bíblico.

Meu quebra-cabeça de prismas,
quebra a razão sobre cores
e faz da alma, espectro.
Que pelas minhas atitudes
a verdade esteja em foco.

e minha real face, em negativo.



Lucas Augustus. Ilustração: Intervenção sobre imagem de mediadas.lemond.fr - Alberto Taveira.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A FEBRE CAVA TEU DORMITÓRIO


















Quebra-me em três oitavos
e diz que está tudo lindo,
que o passo não é tão fundo
e as águas não são rasas.

Para tua informação,
eu preciso que me cavem
como enfiam o dedo no bolo
da gula coletiva.

É preciso que me deixem à deriva
nas senhas das bocas fechadas
_um segredo sussurrado
e lavagem estomacal periódica
na surdina.

Se o fixo perguntar por mim
diga que flutuo,
que do certo
não me asseguro e, por favor,
cava-me.

Deixe que as asas nasçam entupidas
e as cores transbordem translúcidas.
As nascentes de marasmos
e a vadiagem nas pegadas

_o torto no seu mais sincero sorriso _
evitando as minhas trapaças
e os pássaros alucinatórios
nos divãs sambistas.

As pétalas cruas nos olhos.
Não evites o sétimo solo!
O olhar enviesado,
as unhas na terra,
a cama de cratera
_dormitório de toxina.



Rita Medusa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

SONETO CHEIO DE LIBERDADE
















Razão assiste ao submisso escravo
que beija e lambe os pés de sua dona,
pois que se amam, o gilhão é largo
e o cativeiro lhe é feliz redoma.

Mas não se iluda, ó Flor, que o amor é entravo

no ser feliz que a vida lhe abandona,
posto que o dócil traz em si o bravo
a tomar vida quando o vil questiona.

Para onde vaz? E quando volta? Gris?!
Com que perfume o mar em ti navega?
Me tens lacaio! Por que não sois feliz?!

Será o odor que a terra em ti esfrega
quando deitada em meus ervais carris?!
Dizei-me, musa, por que não te entregas?

Por quê?



Anderson H.

domingo, 30 de novembro de 2008

QUARTO ESCURO


















Se estivesses aqui
neste quarto escuro,
ao som do ventilador de teto
e de David Bowie,

Talvez hesitasses no início,

mas depois repousarias
tua cabeça
em meu peito nu,
e ouvirias
meu coração bater,
finalmente tranqüilo.

Quanto aos olhos, tu
fechá-los-ia,
como se estivesses a dormir.

Eu escolheria algumas palavras
e as escreveria com o dedo
_uma carta
na tua pele.

Talvez entendesses, talvez não,

mas em teu corpo estaria escrito,
como tatuagem indolor.

Tudo o mais estaria esquecido.

Mas meus olhos abrem...

e vêem o mesmo quarto escuro
ao som do ventilador de teto
e de David Bowie...

e a mesma solidão.



André Espínola.

sábado, 1 de novembro de 2008

MEU, TEU PRAZER



















Amputa as pernas
e não estará satisfeito

arranca os olhos
corta os braços

e não estará satisfeito

desvia o sonho
tapa a boca
fecha os ouvidos

e não estará satisfeito

mas eu me abaixo,

de joelhos,
te provo o contrário.


Ivone fs.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

PARA ABRIR A CABEÇA



















Imagine um cidadão de bem, um candidato a escritor, que um belo dia acorda e se depara com uma VAGINA!!!... em sua testa. Isso mesmo! Uma vagina viva, dentada, irreverente, polêmica, que fala e vira sua vida de cabeça para baixo. É com este argumento escatológico, mesmo para Franz Kafka, que Márcio Santana nos apresenta sua obra mais recente, O HOMEM COM A ABERTURA NA TESTA, um livro que transforma o absurdo em uma delicada reflexão sobre a realidade. Autor de DOZE CONTOS AMAZÔNICOS (1998), A FUGA (romance - 2003) e ANOTAÇÕS PARA UM CONTO (conto - 2008), Márcio Santana mantém-se fiél ao realismo mágico, construindo estórias que desafiam a racionalidade, mas são plenas de conteúdo simbólico. Lançado no último dia 25 de outubro, no Espaço Cultural da livraria Valer, o livro pode ser adquirido ao valor de 10,0 $ reais, por reembolso postal. Basta acerssar o orkut http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=4124719550095143876. Grato amigos e boa piração!


Marcelo Farias.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

GRITO



Ah este sonho de amores perenes
Esta necessidade de tí tão exacerbada
Esta dor que dilacera e sangra
Em meu corpo, nos meus genes.

Esta saudade de um tempo
Que talvez nem existiu
É que esta dor é tão forte
Que não me deixa dar um piu

Nos insondáveis limites sem fim
Quedo-me de joelhos, perante ti.
Dono de minh´alma senhor de mim
Prisioneira em meu mundo só dizendo sim

Como um robô eu me submeto
A esta dor, a estas correntes
A estes grilhões que me impões
A este mundo escuro, preto

Esta solidão implacável
Ainda há de me matar
Dói demais, é impossível
Aguentar o tranco, suportar.

Eu só grito!


By Ana Kaya