segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

POEMA TENTADO























Vou tentar um poema novo.
Sem que o cálculo e a simetria
me impeçam de sonhar.
Será possível?
Não sei!
A mente é uma bolha lunática
difícil de represar.
Emoção,
eu queria compreender-te.
Saber prender-te.
Em vão!
A paixão é dona da vida
e a sina da vida é sentir.
Medindo a dura pressão
de um mar revolto no peito
quebrando contra a razão.


Marcelo Farias - Para Entender a Mágica. Ilustração: La Condition Humaine - Magritte.

domingo, 4 de janeiro de 2009

DEUS II























Vejo Deus na chuva
Vejo Deus no sol
Vejo Deus na lua
Vejo Deus nas árvores
Vejo Deus nos peixes
Vejo Deus nos répteis
Vejo Deus nos cães
Vejo Deus nos leões
Vejo Deus no homem
Vejo Deus nos rostos dos casais transando
Vejo Deus no torpor de uma boa tragada de maconha
Vejo Deus no porre e na ressaca
Vejo Deus nos olhos das putas
Vejo Deus na mão estendida dos mendigos
Vejo Deus no tiro fatal do homicida
Vejo Deus nas roupas espalhafatosas dos travestis
Vejo Deus nos manuscritos do Mar Morto
Vejo Deus nos hieróglifos egípcios
Vejo Deus na bola de sinuca
Vejo Deus no às de espada
Vejo Deus na guitarra distorcida
Vejo Deus no saxofone melancólico
Vejo Deus no Alcorão
Vejo Deus no Livro dos Vedas
Vejo Deus na mente dos loucos
Vejo Deus no bar da esquina
Vejo Deus passar num caminhão
Vejo Deus na fumaça da bomba
Vejo Deus negro, feio e sujo
Vejo Deus alto, bonito e musculoso
Vejo Deus nas trevas
Vejo Deus na luz
Vejo Deus no Demônio.



CARLOS CRUZ - 1989 (Tosqueiras). Ilustração: Detalhe de O Nascimento de Adão - Michelangelo, mostrando a cabaça de Desus.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Sobretudo



Navego desfilando pela linha da memória,
Pelos passos que me cabem na ladeira do destino,
Dos meus olhos que se vestem num coturno, em desatinos.
Sobre um canto vagaroso de verdade em seus acordes.
Meio ao ponto que intercede minha alma em dois caminhos.

Sou um eu, do qual se perde na neblina dos asseios,
Era um qual, de temeroso que destoa em incertezas.
Contundente no tremer bem curtido, em meus sorrisos,
Tem um cais de torpe antro de balelas ancoradas.
Vive quieto um rebotalho de águas rasas que se turvam
No intuito de se darem ao parecer de mais profundas...

Vou-me ao trafego do vento que me leva pela proa,
Entre o verbo torneado junto ao fôlego do tempo,
Erro tolo que distante dos sentidos, faz fugido,
Junto às cores sobre a face que me traem derradeiros.
Pelo véu desconhecido dos meus sonhos, vaga um mote
Que perdido tem na arte o refúgio que me vinga.

Aos fantasmas que povoam minhas vozes,
Faz do instinto um inquilino que prospera como um rei,
Que instaura o seu castelo em meio ao mar e suas turbas,
Que debanda em meio à guerra dos meus tomos em veredas,
E faz do feudo um regrado, um solo infértil para risos,
Dominado em meio às sombras das idéias...

Sobretudo, têm-se um hemisfério de motivos,
Mas que toma em sê humano, um uno inverno...

Sobretudo.

POEMA DE AMOR





















A noite se resume em mim:
anjos quebrados,
estúpidos pecadose esse gosto de sal e ódio
alimentando o desespero
e esse amor,
piegas e insuportável.

Mutilo teu rosto,
impotentemente.

Quero mastigar teus cacos
um a um.
Para depois cuspi-los de vez
na cara cínica
dessa solidão desproporcional.

Érica Cristiane.

CAI O PANO

















Eu devia engolir a fala
do modo que engulo o choro
e o retenho com um nó na garganta
e outras linhas emaranhadas

Mas a palavra me desata, me destorce
faca afiada me destrincha expondo trapos
desfia o alinhavo
da figura adquirida em banca de retalhos
mostra-me em cada laivo a artesania
dos adereços de rebotalhos
A isso que sou
..........................boneca de sonho
.................................................títere do som
não cabe reter a palavra que resvala



Iriene Borges.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

MESBLA























Em suma:
A nova.
Ou tua, ou outra,
Rua cama asfalto flora
Ou nua, ou roupa,
Gota grelo grão graçola,
A nova.

No sumo:
Toda. Ou tesa, ou torta,
Musa flama maço moça
Ou vil, ou glória,
Tira tora braço boca,
Toda.

Ou surto, ou sina,
a parede do lirismo
É riscada com giz de cera.

Ou solta, ou fixa,
a vontade do instinto
É a rixa entre retas e gretas.

No topo do caule,
A Rosa.
Tudo quanto haure,
Sopra.

Pois é no cume que está a nossa recompensa.
Mas é preciso ter fôlego.
Fôlego e delicadeza.

É preciso ser toda nova,
sem dispensar a dialética
Ou linho, ou Mesbla – ser qualquer Teresa,
Qualquer coisa que não seja,
essa coisa tão cônscia de sua beleza.



Carla Marangoni.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

ARBÍTRIO INQUIETO




















Penso no tremor
que mais tarde revela:
Não era bem assim?
Fecho o riso
Demito a esperança
Aterrizo
Fico de prontidão
Ouço mais de uma vez
A mesma canção
Sonhos aos pedaços
Dispersos no teto
Quero o inédito dos teus olhos
Ata-me como quem não evita o próximo beijo
Colisão no contrafluxo
Te amo de passagem...


Ivone fs.