sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

SOLIDOMÍNOMO & SOLIDOMÔNIMO























levei-me o sono antes que o sol quedasse à escuridão da lua edredom.
levei-me o pensamento antes do arquitetar cinemascópico da mente...

ora solidomínomo & solidomônimo,

eis que me jurei honesto por dentro das veias
e os botões da camisa fugiram-me às casas!

eis que me jurei santo ante o cheiro da carne
e os mortos dançaram madeira e terra!

eis que me jurei a verdade em alto brado
e pus fim aos sabiás que enfeitavam o vento do dia!


Anderson H. Ilustração: água forte de Hans Baldung Grien.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

SAUDADE


















Quem vela teu sono
enquanto velo as horas
em que não durmo?

Teus cabelos guardam segredos
só decifro com meus dedos...

anéis justos cobrindo minhas mãos

Teu rosto, moço,
é o guardador da luz
que vigia a minha noite

Por onde andará teu pensamento
enquanto caminhas por aí, nas ruas,

Dessa cidade que não conheço?



Ivone fs.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

JUST A DREAM
















Sempre fui apaixonado pela Beatriz, sempre. E era uma tortura para mim ajudá-la a vestir sua camisola de seda azul. Nossa, como o azul lhe caía bem. Por que era torturante para mim ajudar a mulher pela qual eu era apaixonado a vestir sua camisola de seda ás duas da manhã? Porque eu era apenas o melhor amigo dela, só o melhor amigo. E ela também estava bêbada, e eu não achava muito justo me aproveitar disso. Eu a ajudei a vestir, e a deitei na cama, vendo-a adormecer quase instantaneamente, e como eu queria estar ali deitado ao seu lado. Saí e fui para o meu quarto.
Dividíamos um apartamento de três quartos com mais uma amiga nossa, a Ana, que quase sempre dormia na casa do namorado, como naquela noite.
Me joguei na cama e fiquei olhando para o teto. A imagem da Bia só de calcinha e eu vestindo nela a camisola não saía da minha cabeça. Claro que a minha imaginação estava frenética, e não sei por quanto tempo fiquei olhando para o nada.
Até que a porta do quarto se abriu, e ali estava ela. Beatriz, parada na minha porta com aquela camisola azul.
_ Eh... Hãã... Bia, eh... Precisa de alguma coisa?
_ Não, eu estou bem. Só pensei se podíamos conversar um pouco.
_Uhum, claro. – sentei-me na beirada da cama e ela se sentou ao meu lado.
Ela me olhava, apenas me olhava com aqueles seus olhos cor de chocolate que me hipnotizavam rapidamente. Ela colocou uma mão sua sobre a minha e a outra sobre o meu peito nu. Petrifiquei com o seu olhar, com seu toque, mas me forcei a despertar.
_Bia, o que cê...
_Shhh! – ela tapou meus lábios com o indicador – Não fala nada, eu sei que você sente o mesmo que eu. Eu posso ver nos seus olhos, Edu. Apenas sinta.
Então eu senti. Primeiro eu senti a mão dela passar pelo meu pescoço e repousar na minha nuca. Depois senti seus lábios nos meus. Eram quentes, tinham gosto de cereja, e se moviam suavemente junto dos meus. Depois senti sua língua invadindo minha boca suavemente. Vez ou outra me mordia o lábio com fervor e depois voltava a me beijar com ternura enquanto acariciava minha nuca e bagunçava o meu cabelo.
Ela chegou mais perto, então repousei minha mão na sua cintura, acariciando-lhe o corpo quente. Beijei seu pescoço e pude sentir o cheiro floral que vinha dos seus cabelos. Beijei todo o seu pescoço, até começar a descer e chegar ao seu colo, bem perto dos seios.
Ficamos em pé e ela começou a beijar todo o meu peito nu, e foi descendo até a barriga. Acariciou meu membro já firme e pronto, e continuou subindo seus beijos até chegar à minha boca novamente. Continuei cariciando seu corpo passando minhas mãos pela sua bunda e pela suas partes íntimas também. Fui levantando lentamente sua camisola enquanto lhe beijava o ombro e o pescoço, até que tirei completamente a peça de seda azul.
Então pude sentir com minhas mãos a sua pele, macia e quente, iluminada apenas pela luz do abajur. Passei minha mão pelo seu corpo até finalmente tocar-lhe os seios firmes e macios como a própria seda. Nossas respirações eram completamente audíveis de tão ofegantes. Não resisti e abocanhei um de seus seios. Nesse instante, Bia gemeu alto e levou suas mãos até a minha cabeça, incitando-me a continuar. Seus seios eram firmes e lindos, e eu quase podia sentir o gosto de pitanga enquanto passava minha língua pelo mamilo.
Bia puxou-me pelos cabelos até encontrar minha boca novamente. Eu podia ouvir os seus gemidos enquanto me beijava. Dessa vez não tinha tanta suavidade, tinha desejo e a pura luxúria. Mordia meus lábios com mais força, arranhava a minha costa e apertava-me entre as pernas. Então ela me empurrou de volta para a cama, onde caí deitado vendo-a tirar sua calcinha para então arrancar o meu calção e minha cueca. Ajoelhou-se no chão, passou as mãos pelas minhas pernas até agarrar meu membro e enfiá-lo na boca. Essa foi a minha vez de gemer alto, e ver as coisas saírem de foco. Ela era incrível. Chupava o meu membro, acariciava com a mão e com a língua. Tive de me conter, ou então acabaria gozando em sua boca.
Ela se levantou, pousou seus lábios levemente nos meus e sussurrou: “Dentro de mim!”, antes de sentar no meu pênis ainda rijo e começar a cavalgar loucamente. Vê-la sobre mim era maravilhoso. Como seus seios balançavam, como jogava a cabeça para trás e como mordia o lábio.
Ainda com ela sobre mim, sentei-me para chupar seus seios novamente, enquanto ela arranhava minha costa e gemia alto.
Então Bia começou a investir em movimentos mais rápidos e em beijos mais ardentes gemendo cada vez mais alto, quase chegando a gritar.
Então chegamos ao clímax juntos e pude me esvaziar por completo dentro dela enquanto ela gemia e cravava seus dentes no meu ombro.
Ficamos abraçados por um tempo, apenas um ouvindo a respiração do outro. Então me deitei e Bia se aconchegou ano meu lado repousando uma mão no meu peito nu. Deu-me um último beijo, quente e suave como o primeiro para então fechar os olhos e adormecer com um meio sorriso nos lábios rosados.
_ Acorda! Acorda, Edu!
_ Hã? – sentei-me na cama meio zonzo, sonolento.
_ Não vai trabalhar hoje?Já são quase oito da manhã.
_ Bia? – reparei que ela estava vestida e eu também.
_Não, eu sou um duende! Claro que sou eu! Anda logo, ou vai se atrasar. – disse ela já saindo do quarto.
_ Espera. Dormiu bem? – era a minha última esperança para ela me dizer: “Sim, você foi incrível ontem!”.
_Ah, sim, a noite toda – e saiu fechando a porta.
_Merda de sonho!



Lary Baker.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

SEU MAIA























No mês em que completou oitenta anos de idade, seu Maia deu-se ao luxo de um presente todo especial: morrer como sempre sonhou, com o pau fincado dentro de uma vagina jovem e carnuda. Dessa vez não arregaria para nenhum de seus desejos mais obscenos; tampouco se deixaria vencer pela moral e bons costumes que sempre o acompanharam ao longo de toda sua vida. Para tanto, tomou uma dose cavalar de viagra, vestiu a melhor roupa, calçou o melhor sapato, deitou no corpo o melhor perfume, e antes mesmo de partir, cantarolou para sua própria alma – dançando frente ao espelho – a valsa imaginária dos anciões.
Atravessou a cidade rumo ao baixo meretrício, desembocando na Praça da Matriz. Era um sábado de aleluia e os puteiros em contrito acolhiam desde cedo os pecados humanos dos que buscavam o seu calor e a sua morte. Os sinos, em vão, badalavam com fome de reza. Ele subiu os degraus do lupanar e ajeitou-se por ali como uma coruja velha. Foi lhe servido sim, uma cerveja, enquanto seus olhos perscrutavam todo o ambiente. Não tardou e ele grudou o olhar numa pequena de cor morena, que amuadinha, esgueirava-se por ali. Jovem e bem apanhada, seu Maia logo se engraçou dela convidando-lhe à mesa:
“Sentas aqui, meu coração e pedes o que quiseres.” Não botou muita fé, não, caçoando dele. Mas com a insistência do velho e a solidão das primeiras horas, acabou arriscando, ademais, estava necessitada de grana, de modo que aceitara o convite na esperança que o ancião aliviasse o aperreio.
“Maia, seu criado. Vossa graça?”
“Etelvina.” Apresentaram-se. Mandou ver cervejas, cigarros, tira-gostos, e até uma rosa vermelha artificial que deu a ela arrancando de seu rosto a máscara emburrada que havia. Não obstante a idade, Seu Maia tinha a pressa dos jovens e o galanteio da velhice, pousando suas mãos grandes e rugosas sobre as mãozinhas pequenas e mornas de Etelvina, que não reagiu. “Ao menos na velhice tem-se o direito da escolha”, pensou esta frase quando mais tarde viu-se rodeado de outras putinhas, que atraídas pela festa o cercaram de paparicos parecendo besourinhos em volta da lâmpada. Elas também queriam sua atenção, mas seu coração já pertencia àquela pequena. Pouco antes das dez, Etelvina sugeriu o Millennium porque era barato e limpinho. Ele nem pestanejou. Havia chegado a sua hora. Pagou as despesas e desceram as escadas. Saiu radiante para a rua lá fora. Sentiu o frescor da noite e o perfume livre e barato das vielas prostitutas. Uma lua acabrunhada tombava por trás dos armazéns do velho cais. De algum boteco indigente, parecia ouvir um bolero malogrado rogando-lhe à alma, um último apelo. Apelo em vão, pois que seguiu decidido e a contar em silêncio os passos curtos e os minutos da noite que lhe restavam para a eternidade.




Márcio Santana - Crimidéia. Ilustração: Dançarina - Henri Toulouse Lautrec.

MERETRIZ EM NÚPCIAS





















Com postura nada tímida
ela insistia em olhares insinuantes,
que eu percebia
a cada alçar das pálpebras.
Era mais baixa que eu
que me equilibrava em salto.
Ensaiava um ar submisso
que chegou como emboscada.
E isto ao invés de me fazer Golias,
me tecia átomo.
Ínfima!
Miseravelmente ínfima!
Quando eu sem pedir licença invadia as luzes e seus lares,
os carros e seus sonhos,
os concretos e seus abstratos,
ela sedutora profissional me flertava,
me rondava,
me pedia.
Eu sabia de sua ausência de castidade
e de todos os seus amantes.
Meus pés fizeram-se nus
num ímpeto,
minhas pernas se distanciaram
para tal senhora deslumbrante.
E eu amei São Paulo
com toda intensidade.



Barbara Leite

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

SEXO E ETC...


















Quero borboletas não, nem flores, nem mais promessa.
Quero café e etc.
Troco meu Martini por um solúvel,
insolúvel é você!
E se não se diluirnão diluir meu lado volúvel, doce Martini branco, branca em mim
e diluir-se no seu próprio amargo, adeus.
Deixa eu misturar café na maresia
e a maresia te corroer... Sem proteção de capa
acabar contigo, castigar e não te sobrar nada.

Vem maestro, me doma, me pauta.
Usa essa sua batuta na minha vulva.
Chega assim, igual gole de Rum que nunca bebi
certeiro sem ser mastro.
Entorpece a mente para que eu esqueça o asco.

Vem coração, paixão, vazão, bregas endiabrados de ãos,
néctar vão cheio de imensidão vazia
que irá me livrar de dúvidas, responsável por arrependimentose deixando somente nãos.

Vem que a morte é certa em teia tecida de cetim,
mesmo sabendo do afã da tua vontade.
Mas com variáveis minhas escondendo o sim, escondendo o fim
de quem não quer outra coisa vã
de quem não quer mais nada.

Vem se fazer de querida, meu querido, meu macho.
Vem, esbraveja no meio do meu silêncio
e se entitula, se nomeia incalculável, indecifrável, imensurável,
pois há mentiras sustentáveis.
E há de haver outros pontos em vista, incredulidade.
Voa no mar que sou, mesmo firme continente
e dê braçadas, nadando na minha língua...
Me mima.

Isso. Pensa que sou domável, que irei ceder,
que sou lataque sou dourado falso,
de bijuteria...
Estou frívola feito máscara...
Vem tirar minha casca.
Me cura.

E aí, no seu lamento
chegou a hora.

Entro, enfiando-te inteiro
e te mostro:
Antes, a vontade do corte
durante, a falta de norte
depois, o devaneio da morte.

Agora sai, tira, acabou, esquece a partitura.
deixa eu voltar pro meu Martini,
Não quero repetir essa melodia nem solucionar.
Quero nadar em outro solúvel etc.
Fora.



Denise Machado.

POEMA TENTADO























Vou tentar um poema novo.
Sem que o cálculo e a simetria
me impeçam de sonhar.
Será possível?
Não sei!
A mente é uma bolha lunática
difícil de represar.
Emoção,
eu queria compreender-te.
Saber prender-te.
Em vão!
A paixão é dona da vida
e a sina da vida é sentir.
Medindo a dura pressão
de um mar revolto no peito
quebrando contra a razão.


Marcelo Farias - Para Entender a Mágica. Ilustração: La Condition Humaine - Magritte.