quinta-feira, 15 de outubro de 2009

GUARD' ALMA

















a Árvore, pobre árvore,
vizinha antiga enraizada no chão do bairro italiano,
guarda ampla visão de meus passos plact plact:

quatro mil
duzentos
e poucos.

penso que a Árvore, pobre árvore,
pelo amor que me tem de graça,
sabe mais das coisas da terra
que das coisas próprias das árvores:

então é seca...

sem pássaros que lhe defequem nos pés desnudos...

Árvore, pobre árvore,
por se importar mais com os buracos,

nascituros
esfomeados
que hão de comer-me
os tombos,

não observa a passagem do tempo.

é como as pombas sonorolentas
que espreitam os suicidas
do parapeito das janelas.

- toda-via, toda-via, não me iludo!
quando desabo num vão de estrada
sei que se ri das raízes à copa!
Anderson H

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

SONHOS























As mãos cansadas tateiam nos lençóis

Um pouco de voz da noite

As nuvens que passam sob meus olhos fechados

Observam o rio que toca o calcanhar dos meus sonhos

A luz da fresta do ontem

Descobre o rosto escondido pelo nó

Enquanto o tempo, descosturando os meus cabelos

Dança com meu peito

Embalado pelo sopro gentil de uma janela rara.


Flávio Umaguma

sábado, 10 de outubro de 2009

HOJE VISITEI MÁRIO DE ANDRADE



















Hoje visitei a casa do Mario de Andrade. Foi por acaso _dizem que nada é por acaso! _Mas estava na Barra Funda comendo um pedaço de abacaxi _desses mesmo que a gente compra numa banquinha de frutas na esquina _depois de enfrentar uma fila na Junta Comercial e ter "discutido" com o atendente que queria se livrar de todos em um minuto como que para demonstar sua eficiência. O cara não ouvia ninguém e na minha vez prometi a ele que se não me passasse todas as informações ia dar um beijo na boca dele na frente de todo mundo. Nunca vi alguém corar tão rápido e a fila inteira riu. De fato as informações estavam erradas e quase paguei inutilmente uma guia que não serviria para o fim que eu precisava. Comia o abacaxi e computava meu prejuízo do dia, guia: quinze reais, abacaxi: um real e o estacionamento: oito reais, tudo por uma exigência da Receita Federal e acabei ficando com um protocolo pra voltar em cinco dias. Eu falava com o Luiz Filho no msn pelo celular e dizia que as ruas da Barra Funda eram esquisitas e ele dizia que era questão de acostumar...uma vez eu disse pro Schawartz que não tinha nada na Praça Roosevelt... ele até twuintou minha frase... disse que rendeu muitas gargalhadas. O Schawartz é mais um que não acredita que nada é por acaso, pois foi por causa do absurdo que eu disse que acabei lá, na Praça Roosevelt, rodando em seus bares com a Rita Medusa, o José, o Mirisola, o Bactéria, Bortolotto, quer dizer o Bortolotto estava presente, só presente... E hoje, foi justamente quando eu praguejava as ruas da Barra Funda, que dei de cara com a Casa do Mario de Andrade. Lembrei do Muryel e por causa dele fotografei. Espero que ele goste das fotos.

"Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez."

Mario de Andrade


Ivone fs. Ilustração: placa indicando a casa de Mário de Andrade, em São Paulo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

OLHOS DE RESSACA















Tua imagem
é céu nublado

blues,
noir,
a mente no ar...
nublada,
azul.

Teu olhar de inverno:
olhos de ressaca
-Capitu francesa-
ninfete


Marcelo Farias. Ilustração: close no olhar de minha ex-aluna Bruna Almeida Alves (foto retirada de seu orkut).

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

SEM TÍTULO NENHUM (e isso não é título?)















*
tecendo um colar
de contas transparentes
eu ouvia a chuva
me dar conselhos

a vida _dizia ela_
são as pedras que você atira.
e não vá por ali,
não entre no lamaçal.

a velha senhora
me ensinava tudo
pacientemente

e então eu adormecia
escutando seus miúdos passinhos
_para lá e para cá_
no meu telhado de vidro.


Allanna

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Com A Saliva No Sangue.


Dizem que brevemente eu morrerei
Na leve tortura de uma lembrança sua;
Destroçando a carne da esperança,
Afogando-a em loucuras diversas,
E respirando a água das chuvas tortas
No cintilar de uma íris perversa.

E lá - onde aqui me encontro -
Mesmo não dizendo quase nada
(Nem metade da lama em si)
Hei de voltar;
Com o cachecol no pescoço
E nas mãos, o esboço
Dos poemas (blasfêmias!)
Que escrevo em teu nome.
Pois é tudo pra ti.

Não te disse nada
Desde a cama em que durmo
Até a maré e a enxurrada
Onde a chuva, sozinha ameaça
Lavar-me inteira
Tirando o teu perfume de mim
Rasgando o teu nome daqui
Com suas quatro angustiosas letras.

Nos fins de minhas tardes, vejo-te
Parada ao vão da porta
Na caneta, meus melancólicos dedos
Descrevem o reflexo torrente de tua imagem embaçada
Tortas linhas,
Nas absortas gotas de orvalho em sangue que percorrem teu corpo
E que nunca te agradaram.

Ainda tenho paixão pelos teus cabelos!
Ouço no escuro, meus dedos a percorrê-los
No enlace do abraço nosso
Onde o contraste do meu sorriso
É o redemoinho de teu feitiço.

Ah! Se não te esqueço
É por preguiça - não medo -
De perder-me de teus olhos
De encontrar-me reluzente
No chão das rentes flores,
Que eu mesma desperdicei.

Estás calada, de boca fechada;
E, ainda assim,
Afundas tua língua negra em mim
Ao me ameaçar no cumprimento da palavra.

Há em mim a loucura!
Existe aqui, o fogo ardente!
Tenho tua voz emitida em meu cérebro frouxo,
No lúcido amor do copo
Que ouso beber todas as noites,
Ao brindar o meu horror!

Meu momento particular,
Já consegue ter duas cores:
Azul - me lembrando o teu céu,
Movimentando meu pescoço além da alma;
Vermelho - da chuva morta,
E o mar cinzento que tu navegas.

À noite eu sugo
Nos dentes negros de sabor agridoce
No manto de algum mosquito morto (catástrofe)
O sabor de suas entranhas.

Desejo que tu sintas desgosto,
Por ter um dia gostado de mim.

Existem úteros em seus olhos
Gerando calúnias ao amor - já morto
E os olhares rancorosos,
São os admiradores dos outros que rodeiam teu corpo.

Ah, se me ouço declamando
Os cadernos, ou choros...
No sentir do abandono,
Devoraria-me!
Ou as palavras que escrevo,
Retornariam ao purgatório
Onde as almas vizinhas
Repousam como hóspedes.

Tu te afastas;
Imitando com a boca o som da porta.
Abalas a ternura,
E sacrificas o porco na tua calúnia
Onde teu café é veneno.

Já me é possível ver reflexos na madeira!
E alargando meus ouvidos,
No corredor desabitado
O lastimável estado em que me encontro
É pura farsa! - adiante -.

As rimas duras noite adentro,
São minhas palavras ditas ao vento (ecoando sozinhas).

E só no ato
Ao reencontrar minha língua perdida na tua
Emergindo em tua garganta - promessa minha -,
Lembro-me:
Sou louca, e esquecida da realidade!
E tu, que não amas de verdade,
Diverte-se ao conter meu nome
Em tua rouca voz.

Tuas dores, são o sal que deslocam meus pensamentos;
E teus medos, são a doçura do horizonte de minha pele.

E não há algo tão lindo a ser observado no escuro:
Tu - ali - a me possuir - assim.

E aqui - tua morada -
Está guardada a tua lembrança.
No semblante do ardor cego,
E no verniz seco de meus pulmões (o suspiro ao dizer teu nome).

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

MINHA LÍNGUA


















Minha lingua tarada
Deflora palavras
As revira e apalpa
Até perderem a fala

Minha língua insana
Desregrada, encanta
Mesmo em trapos de sílaba
Arde em fortes chamas

Minha língua
Sempre volta
Desonrada
E louca

Nunca morre a míngua
Sem palavras na boca.


Alana