terça-feira, 29 de dezembro de 2009

OGUNIÊ, AGÁ!
















tenho alguns cabelos e pensamentos africanos
que me foram colocados na época de menino:

- coisa de cosme e damião...

eu andava pelas ruas com uma sacola de papel
a pegar tudo quera bala e pirulito e diagrama
e novidade de vidro e céu, de terra e cor.

mas também havia aquele lance dos tambores,
dos pés velozes,
dos colares carmins e coralíneos,

e aquele esquema de fechar corpos
e da insurgência da mulher entidade
que batia de mão fechada...

minha avó de branco,
meu avô de azul,
eu atabaque e meu primo Siê,

Siê de pai e mãe,
a cantar inocente sem saber na vida
que tudo que é espírito carnavalesca!

nesse finalzinho de ano,
do ano em que perdi minha avó,
me resta imaginar São Jorge
derribado do cavalo
a gritar do meio da favela
em que nasci lá nos setenta:

- oguniê, Agá minino! oguniê!


Anderson H

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O PALHAÇO DE VIDRO: Um comentário sobre Flávio Mello.























Flávio Mello é qualquer coisa entre Capinan e Torquato Neto. Se é que é possível conciliar estas duas personalidades em alguém... De fato, Capinan faz com que Flávio não se mate. Se Flávio fosse apenas Torquato, não nasceria, seria abortado!... A escrita de Flávio Mello é um vômito do codiano. Ela flui com a própria imprevisibilidade do imediato. Esta forma de narrar está bem em cotexto com os dias de hoje. Se observarmos a sequência de imagens de um filme brasileiro atual, veremos que é assim: cortes abruptos, tudo é mostrado em sequências fragmentadas... porém lógicas! É a lógica interior.
A literatura, bem antes do cinema, adotou essa forma de narrar faz tempo. Na época de Proust, isso era chamado de "tempo psicólogico". Flávio, no entanto, não expressa apenas tempo, mas uma forma de ser e sentir. Um sentir que está em sintonia com os dias de hoje, com 1 milhão de outros Flávios e Flávias existentes por ai e até dentro de nós. É como se você interpretasse alguma peça do Asdrubal apenas para si mesmo, tendo você como único ator... e não querendo ser engraçado. Se você é um palhaço, não o é por opção, mas por maldição!... A maldição de todo ser moderno: viver sobre a corda banba do picadeiro abaixo dos edifícios... com os carros correndo como crocodilos no rio grafite de asfalto, onde será arrastada a pasta do teu corpo quando ele cair... para o delírio e aplauso da platéia!...
Talvez seja uma forma mais dramática, mais "trash metal" , ou "mangue beat" de Luís Fernando Veríssimo. O fato é que Flávio Mello nos reporta ao imediato, ao agora, como se você estivesse vendo a cena se movimentar de dentro dele: o narrador. O narrador "é" você! Pois você vive o cotidiano que ele vive. Ache você medíocre, ou não. Sei que é chato se sentir um palhaço de vidro: ridículo, engraçado e que se quebrará daqui pra ali... (e isso é que fará todo mundo rir!). Mas isto é o cotidiano. Uma peça em palco pobre, onde entramos desde o dia em que nascemos. E que talvez, quando morrermos... percebamos que foi apenas um sonho. Um sonho tolo que julgamos ser real.


Marcelo Farias. Ilustração: Palhaço, de Michel Mendes.

sábado, 28 de novembro de 2009

QUEDA (LIVRE)























Subiu a escada
Desceu a escada

Como sempre, tudo muito normal

Subiu a escada
Desceu a escada

Como sempre, tudo muito comum

Subiu a escada
Desceu a escada

Como sempre, tudo muito trivial

Subiu a escada
Caiu da escada

E nunca mais subiu a lugar nenhum

Eder Ferreira

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Escolha




Em tudo crio
um lânguido olhar teu - infame sacrifício
À enterrar-me aos pés de ilusões perfeitas.

Assim como o sol arde em claridade;
Assim, a claridade segue apagando meus ideais.


Do desencanto,
espero nascer a nostalgia (engano)
desde os teus pés a caminhar sobre o meu chão
até o meu rosto que encontra-se entre os dois...

Quero queimar-me!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

QUANDO A VIDA ERA MENINA

















Um pedacinho de arco-íris
Nuvens que pareciam
Flocos de algodão
Por trás dos olhos que riam... O sol
Com fina neblina
Embaraçando a retina.
A vida era uma menina...
O vento, as flores, os matagais
Era abrir as cortinas
E olhar um pouco mais...


Sirlei L. Passolongo

domingo, 1 de novembro de 2009

PENSANDO O TEMPO























Gostaria que o tempo
fosse como uma corda.
Não como uma cobra
de veneno sutil e lento.


José Ferreira

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O QUADRO INACABADO






















Aquele quadro que está ali na parede
É minha obra inacabada
Percebam que não tem espaço vazio
Os prados, os montes, a casinha da colina
As crianças, o lobo, o rio com peixinhos coloridos
Preenchem cada vão da minha arte inacabada

Percebam, eu estou lá
Em algum lugar tentando explodir
Uma pedra
Tentando escrever algo de domingo
Rabiscando agendas
Chorando palavras jogadas
Com tinta sangue

Aquele quadro que está ali na parede
Tem muito de mim
Percebam que as pessoas não param
E o vento inquieto faz cócega nas folhas das palmeiras
Percebam a inquietação dos coelhinhos
E a irritação dos potros

Percebam, eu estou lá
Sentado nalgum lugar
Entre as prisões que eu mesmo pintei
Tem tudo de mim neste quadro
Percebam
Os sentimentos, as emoções, esta ânsia de amar
Percebam
Eu estou lá, em algum lugar tentando explodir uma pedra.


Radyr. Ilustração: quadro sem título de Augustin de Lassus.