sexta-feira, 28 de agosto de 2009

OLHOS DE RESSACA















Tua imagem
é céu nublado

blues,
noir,
a mente no ar...
nublada,
azul.

Teu olhar de inverno:
olhos de ressaca
-Capitu francesa-
ninfete


Marcelo Farias. Ilustração: close no olhar de minha ex-aluna Bruna Almeida Alves (foto retirada de seu orkut).

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

SEM TÍTULO NENHUM (e isso não é título?)















*
tecendo um colar
de contas transparentes
eu ouvia a chuva
me dar conselhos

a vida _dizia ela_
são as pedras que você atira.
e não vá por ali,
não entre no lamaçal.

a velha senhora
me ensinava tudo
pacientemente

e então eu adormecia
escutando seus miúdos passinhos
_para lá e para cá_
no meu telhado de vidro.


Allanna

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Com A Saliva No Sangue.


Dizem que brevemente eu morrerei
Na leve tortura de uma lembrança sua;
Destroçando a carne da esperança,
Afogando-a em loucuras diversas,
E respirando a água das chuvas tortas
No cintilar de uma íris perversa.

E lá - onde aqui me encontro -
Mesmo não dizendo quase nada
(Nem metade da lama em si)
Hei de voltar;
Com o cachecol no pescoço
E nas mãos, o esboço
Dos poemas (blasfêmias!)
Que escrevo em teu nome.
Pois é tudo pra ti.

Não te disse nada
Desde a cama em que durmo
Até a maré e a enxurrada
Onde a chuva, sozinha ameaça
Lavar-me inteira
Tirando o teu perfume de mim
Rasgando o teu nome daqui
Com suas quatro angustiosas letras.

Nos fins de minhas tardes, vejo-te
Parada ao vão da porta
Na caneta, meus melancólicos dedos
Descrevem o reflexo torrente de tua imagem embaçada
Tortas linhas,
Nas absortas gotas de orvalho em sangue que percorrem teu corpo
E que nunca te agradaram.

Ainda tenho paixão pelos teus cabelos!
Ouço no escuro, meus dedos a percorrê-los
No enlace do abraço nosso
Onde o contraste do meu sorriso
É o redemoinho de teu feitiço.

Ah! Se não te esqueço
É por preguiça - não medo -
De perder-me de teus olhos
De encontrar-me reluzente
No chão das rentes flores,
Que eu mesma desperdicei.

Estás calada, de boca fechada;
E, ainda assim,
Afundas tua língua negra em mim
Ao me ameaçar no cumprimento da palavra.

Há em mim a loucura!
Existe aqui, o fogo ardente!
Tenho tua voz emitida em meu cérebro frouxo,
No lúcido amor do copo
Que ouso beber todas as noites,
Ao brindar o meu horror!

Meu momento particular,
Já consegue ter duas cores:
Azul - me lembrando o teu céu,
Movimentando meu pescoço além da alma;
Vermelho - da chuva morta,
E o mar cinzento que tu navegas.

À noite eu sugo
Nos dentes negros de sabor agridoce
No manto de algum mosquito morto (catástrofe)
O sabor de suas entranhas.

Desejo que tu sintas desgosto,
Por ter um dia gostado de mim.

Existem úteros em seus olhos
Gerando calúnias ao amor - já morto
E os olhares rancorosos,
São os admiradores dos outros que rodeiam teu corpo.

Ah, se me ouço declamando
Os cadernos, ou choros...
No sentir do abandono,
Devoraria-me!
Ou as palavras que escrevo,
Retornariam ao purgatório
Onde as almas vizinhas
Repousam como hóspedes.

Tu te afastas;
Imitando com a boca o som da porta.
Abalas a ternura,
E sacrificas o porco na tua calúnia
Onde teu café é veneno.

Já me é possível ver reflexos na madeira!
E alargando meus ouvidos,
No corredor desabitado
O lastimável estado em que me encontro
É pura farsa! - adiante -.

As rimas duras noite adentro,
São minhas palavras ditas ao vento (ecoando sozinhas).

E só no ato
Ao reencontrar minha língua perdida na tua
Emergindo em tua garganta - promessa minha -,
Lembro-me:
Sou louca, e esquecida da realidade!
E tu, que não amas de verdade,
Diverte-se ao conter meu nome
Em tua rouca voz.

Tuas dores, são o sal que deslocam meus pensamentos;
E teus medos, são a doçura do horizonte de minha pele.

E não há algo tão lindo a ser observado no escuro:
Tu - ali - a me possuir - assim.

E aqui - tua morada -
Está guardada a tua lembrança.
No semblante do ardor cego,
E no verniz seco de meus pulmões (o suspiro ao dizer teu nome).

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

MINHA LÍNGUA


















Minha lingua tarada
Deflora palavras
As revira e apalpa
Até perderem a fala

Minha língua insana
Desregrada, encanta
Mesmo em trapos de sílaba
Arde em fortes chamas

Minha língua
Sempre volta
Desonrada
E louca

Nunca morre a míngua
Sem palavras na boca.


Alana

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Traços à Caiero


de tudo que já julgaram inútil
contesto apenas as demências
pois elas fazem sentido
poucos vêem com olhos lúcidos de hora integral

pensar é enlouquecer devagar
a cada segundo enlouquecer
de raiva e ciúme enlouquecer
enlouquecer até de não pensar

e de pensar
e ficar louco
devagar
pouco a pouco
aprendi a não procurar respostas
aceitando os exageros de minha futilidade
e dor

quando penso esqueço das horas saltadas
fora da sanidade
em um mundo de irreflexão e tolices
e volvo insano outra vez
de remorso e alivio bruto
devagar e bruto
louco
bruto

eis a fórmula d'alquimista!
pensar!
prefiro estar doente
a observar em eterno...
e não fazer juízo de minhas impressões

terça-feira, 14 de julho de 2009

O decorrer dos dias.


I

Quando a noite acorda, já é dia;
A estrela é o próprio céu trincado
E os olhares permanecem à deriva;
Das desovas, ou amores desolados.

No escuro nasceram os meus corvos;
Famintos, eles flutuam sobre os ares.
E se, porém, as tais estrelas caíssem,
Um "céu de penas" derreteria sobre os mares.

Quando as ondas lá nos rios conseguem ser
Tão mais mares do que pode se conter
Eis que o sal se acidula com a chuva
E a voz do continente se acentua:
"Do seu contrário e do desejo conseguistes
Faces lentas e quedas d'agua tristes!
Tornar a vir em sua meia volta;
Não é amor que lá na fonte se encontra!"


II

Quando o dia dorme, a noite sente.
O rastro vago e moribundo cala os ares;
E no cair da deslumbrante tarde quente,
As sombras gélidas ainda vagam pelos vales.

Águia - tuas belas asas!
Ao revoar de suas penas - saudosa voz!
Perdeste o ar - onde se escuta!
Em minha taça, tua inocência
A ser brindada com cicuta! - ou resistência!

E lá no mar - nosso calvário;
No aspirar das coisas mortas - o sal;
A onda brilha - o sepulcro!
A serrania despenca aos estilhaços
E os abraços na modéstia da insônia,
Afogam pedras nas velhas preces destes lagos:
"E cá, onde o mármore é líquido;
No brilho lúcido de nossa pureza,
O aroma pútrido de sua alma
Retornará sobre sua cabeça!"


III

No desejar flácido,
Dos bons tempos únicos...!

Por natureza - noite e dia!
Por necessidade - quente ou fria;
Mantive almas - especiarias;
Demasiado sangue a ser jorrado,
Ao puro amargor das vinhas!

Óh, adormecer traidor!
Na hora de se expor - por si basta;
Levas o delírio!
Ou a embriaguez da morte sangrenta,
Que no esfriar dos dedos flutua,
Carregará a sombra nua - sobre meus ombros.


Escrito em 22/06/2009.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

PONDERAÇÕES


















A vida do filho ainda segurava seus pés na escada
Na corda descansava o peso insuportável de sua desgraça
E não havia amor que desfizesse o nó na garganta. .

André Ulle. Ilustração: Joel Barcellos em cena de Jardim de Guerra (1970), de Neville D'Almeida.