quinta-feira, 16 de julho de 2009

Traços à Caiero


de tudo que já julgaram inútil
contesto apenas as demências
pois elas fazem sentido
poucos vêem com olhos lúcidos de hora integral

pensar é enlouquecer devagar
a cada segundo enlouquecer
de raiva e ciúme enlouquecer
enlouquecer até de não pensar

e de pensar
e ficar louco
devagar
pouco a pouco
aprendi a não procurar respostas
aceitando os exageros de minha futilidade
e dor

quando penso esqueço das horas saltadas
fora da sanidade
em um mundo de irreflexão e tolices
e volvo insano outra vez
de remorso e alivio bruto
devagar e bruto
louco
bruto

eis a fórmula d'alquimista!
pensar!
prefiro estar doente
a observar em eterno...
e não fazer juízo de minhas impressões

terça-feira, 14 de julho de 2009

O decorrer dos dias.


I

Quando a noite acorda, já é dia;
A estrela é o próprio céu trincado
E os olhares permanecem à deriva;
Das desovas, ou amores desolados.

No escuro nasceram os meus corvos;
Famintos, eles flutuam sobre os ares.
E se, porém, as tais estrelas caíssem,
Um "céu de penas" derreteria sobre os mares.

Quando as ondas lá nos rios conseguem ser
Tão mais mares do que pode se conter
Eis que o sal se acidula com a chuva
E a voz do continente se acentua:
"Do seu contrário e do desejo conseguistes
Faces lentas e quedas d'agua tristes!
Tornar a vir em sua meia volta;
Não é amor que lá na fonte se encontra!"


II

Quando o dia dorme, a noite sente.
O rastro vago e moribundo cala os ares;
E no cair da deslumbrante tarde quente,
As sombras gélidas ainda vagam pelos vales.

Águia - tuas belas asas!
Ao revoar de suas penas - saudosa voz!
Perdeste o ar - onde se escuta!
Em minha taça, tua inocência
A ser brindada com cicuta! - ou resistência!

E lá no mar - nosso calvário;
No aspirar das coisas mortas - o sal;
A onda brilha - o sepulcro!
A serrania despenca aos estilhaços
E os abraços na modéstia da insônia,
Afogam pedras nas velhas preces destes lagos:
"E cá, onde o mármore é líquido;
No brilho lúcido de nossa pureza,
O aroma pútrido de sua alma
Retornará sobre sua cabeça!"


III

No desejar flácido,
Dos bons tempos únicos...!

Por natureza - noite e dia!
Por necessidade - quente ou fria;
Mantive almas - especiarias;
Demasiado sangue a ser jorrado,
Ao puro amargor das vinhas!

Óh, adormecer traidor!
Na hora de se expor - por si basta;
Levas o delírio!
Ou a embriaguez da morte sangrenta,
Que no esfriar dos dedos flutua,
Carregará a sombra nua - sobre meus ombros.


Escrito em 22/06/2009.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

PONDERAÇÕES


















A vida do filho ainda segurava seus pés na escada
Na corda descansava o peso insuportável de sua desgraça
E não havia amor que desfizesse o nó na garganta. .

André Ulle. Ilustração: Joel Barcellos em cena de Jardim de Guerra (1970), de Neville D'Almeida.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

ALICIANDO


















Num contorno qualquer
No país das maravilhas
Os ruídos serenos vazaram em azul
Enquanto meus nervos vermelhos
Vagavam, vibrantes, pelas veias tortas

Nas brasas de cigarros vagabundos
Queimei o jardim de naipe copas
E na ferrugem da lata de leite
Vingou a flor roxa do desejo

Sem guilhotina e nada no avesso
Fios vermelhos de sentimentos
Queimaram totalmente o silêncio
E a água da chuva no espelho
Era o reverso do medo...


Patrícia Gomes Barbosa.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

HUMANO



















Pode haver feiura no teor da fala
na miopia e estreiteza de pensamentos
e até mesmo na boca que cala.

Quando presente, torna-me o dia
falsário e ladrão.

Não vem por acidente,
me ludibria,
se esconde no armário,
mas faz-me descrente e pagão.

Pecado sem castigo
sem punição,
é parte da vida, é dela um bocado,
sacia e não nutre,
maldita comida.

Eunucos, corcundas,
defeituosos,
nós, homens, somos sombras,
fracos, leprosos.

Nos deram uma alma
mas não ensinaram
que se não é sagrada
não serve pra nada.


Bianca Siotti. Ilustração: desenho anatômico de Leonardo Da Vinci mostrano as proporções do corpo humano.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O OVO DO MUNDO


















a gema do sol
de Dali
rompe a casca
deita se macia
nas águas do rio

as nuvens alaranjaram se
e raios de luz
abrem os caminhos

a grande casca branca
rompida ao meio
são portais
da beleza
do inferno na terra

o belo
era tão belo
que virou pesadelo


Calaça. Ilustração: Gema do Sol - Salvador Dali.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

MEDIDAS DO NOCAUTE






















Estátuas de sal crucificadas
Meu corrimão entardece
Tenho quilos de desvantagem na tua frente
Empobreço os olhares
Um beijo asséptico me condena
Tenho horrores nobres na tua frente
Encolho passáros venenosos
Um campo desnutrido me arreganha os dentes
Frente e verso de deslocamentos
Não tenho nudez
Esferas líquidas me vestem
Deduz-se que estou morta e procurada
Envolva-se com a minha vaidade
Artilharia desvirtuada de cínicos
O ritmo fervilhando
Os metros de inutilidade
Procuram-te.


Rita Medusa. Ilustração: Sempre Há Um Prisma - Rita Medusa.