sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A ENTREVISTA


















Eu havia vendido alguns dos meus livros naquela noite e pare no bar do Lusitano para tomar umas cervejas que ninguém é de ferro. Foi lá que conheci Anne Rocha, uma cantora da noite. Ela bebia sozinha no balcão bem ao meu lado. Olhava curiosa para mim e para a pilha de livros dispostos no balcão de vidro. Quis saber se eu é que tinha escrito aqueles livros e eu respondi que sim, que eu era escritor. Pediu gentilmente para olhar e eu a deixei deixei folheando um deles enquanto fui apanhar uma cerveja. Quando voltei, ela me recebeu com um sorriso doce de bêbada e perguntou: "Quanto é que está vendendo?" Disse-lhe que era R$10,00, então ela disse: "Não posso levar hoje porque estou dura, mas você pode divulgar esse seu livro na Rádio Porto Fluvial, fala com o Saraiva amigo meu que é locutor, diz pra ele que você é escritor e que é amigo da Anne Rocha." Então eu disse: "Poxa, que legal! Tudo de que preciso é de um espaço, ainda mais numa rádio. Quando posso ir?" "Amanhã, as dez. Eu vou estar lá." "Então eu vou." E ficamos conversando um pouco mais até ela anunciar que já ia embora porque esava ficando pesada demais, então eu resolvi ofertar-lhe um livro de graça e prometi que pela manhã, as dez, eu estaria lá na tal Rádio. Aí ela se foi.
Não pude ir pela manhã porque acordei com uma puta ressaca e já passavam das onze, de modo que arrisquei ir à tarde. As três em ponto, eu já estava lá atravessando a rampa do Porto Hidroviário atrás da tal rádio. A tarde declinava em calor, tédio e ressaca. Eu ainda ouvia vozes dos bares de ontem chacoalhando dentro da minha cabeça. Alguém me informou que o estúdio ficana na parte superior e eu subi as escadas que me levariam finalmente à rádio. Como era uma sexta feira, o movimento era intenso no Porto, "Se aquela gente toda me ouvir vai ser muito legal!", eu pensei alegrementeenquanto passeava meus olhos ao redor. Chegando, dei logo de frente com o Saraiva, o locutor. Um cara com uma cara de Amado Batista; um rosto redondo e chato, mas ele me sorriu amigavelmente e pediu para que eu entrasse e sentasse enquanto anunciava a chegada de um barco que vinha de um interior desses qualquer. Quando pôde mé dá uma atenção, eu disse: "Sou um amigo da cantora Anne Rocha, ela canta na noite e divinamente bem, diga-se de passagem, (eu na verdade menti, nunca a vi cantar até ali, mas é preciso rolar os dados)ela falou da rádio e do espaço que eu poderia ter para eu divulgar o meu livro. Sou um escritor." Mostrei o livro pra ele. Ele pegou o livro. olhou a capa como quem se olha algo estranho, virou as páginas e deteve-se numa das linhas, foi aí que percebi que seu semblante foi ficando pesado à medida que ele aprofundava-se na leitura. Vi logo que o livro pareceu não agradar muito, dado a grave estética facial dele que se avolumava. Depois de um tempo, ele finalmente disse: "Mas isso aqui é um livro pornográfico!" Aquilo me pegou de surpresa. Reagi. "Livro pornográfico?" Me ajeitei melhor na cadeira e equilibrei o riso. "Meu amigo, voce fala aqui de vagina, pênis, cu e sei lá mais o quê, e vem me dizer que não é pornográfico? Eu não vou divulgar isso aqui na minha rádio não, cidadão." "São símbolos, metáforas; trata-se de um recurso estilistico muito usado pelos realistas mágicos." Tentei convencê-lo. "Mas olha isso aqui: "o pênis apontava em direção ao firmamento explicando as estrelas, pois que gostava tanto da física quanto das palavras." E olhando sério pra mim, disse: "O cara segurando um pênis, porra!" Começava a ficar engraçado. "Não há ninguém segurando o pênis, Saraiva (e eu já estava ficando intimo do cara) o pênis tem articulação própria, assim como a vagina e o anus, eles são membros desprendidos do corpo e portanto, tem vida própria, estão em busca de uma identidade, de afirmação, pois que não dependem mais do conjunto humano. É disso que eu falo: do desmembramento." "Meu amigo, isso aqui é uma rádio de respeito, lá embaixo tem gente de família, crianças e eles não vão gostar do que vão ouvir. Isso é literatura pornográfica!" "Não é não,Saraiva, está sendo taxativo, isso é literatura universal." "Se ainda falasse das coisas da terra, como os outros artistas que aqui estiveram, mas convenhamos, falar de vaginas e outros orificios, isso aqui não rola na minha rádio. " "Já tem gente que faça isso. Eu escrevo sobre outras coisas. " "Foi uma luta pra não tocar mais esses forrós de baixo calão, pra moralizar essa rádio, e voce vem com esse livro." Nesse instante, entrou um cara alto e bem vestido e interrompeu a conversa. Trazia consigo um cd da Mariza Monte e pediu para que o Saraiva tocasse.
Ele ouviu um pouco da conversa e quis saber com polidez do que se tratava, tendo em vista a irritação estampada na cara do Saraiva. "Este rapaz aqui quer divulgar um livro que ele escreveu, mas não tem condição, doutor. " Olhei de relance pro cara e notei que ele usava um crachá da policia civil. Agora ferrou de vez. Certamente ele iria pensar o mesmo. O mundo estava perdido. A minha literatura estava perdida. Pensei tudo isso. "Posso olhar?" Perguntou ele. "Sim, por favor!" " O conteúdo é pornográfico!" Insistiu o Saraiva. " Do que se trata o teu livro mesmo?" "Bom, - me posicionei como um pugilista pronto para um outro round -é sobre um órgão sexual feminino que surge na testa de um cidadão comum, aspirante a escritor, e esse órgão fala, tem vontade própria e acaba transformando a vida pacata desse cidadão num completo absurdo. Mas é claro que não se trata apenas disso, o livro trata também das relações humanas, da busca pela afirmação, do amor, de um cotidiano brutal a que todos nós incondicionalmente estamos inseridos. " "E o que há de errado nisso, Saraiva? Eu também tenho uma vagina na testa, você não?" Respirei com alivio. Havia ganho um aliado. "Deixa que o leitor faça a sua própria interpretação. Nelson Rodrigues - e aí ele se estendeu um pouco - foi um escritor muito censurado em sua época porque achavam que o que ele escrevia eram textos pornográficos, no entanto, o que ele falava era tão somente da hipocrisia de uma sociedade. E ele está aí, e é o mais lido na atualidade e eu adoro Nelson Rodrigues." E virando-se pra mim, perguntou: "Você já leu o Anjo Pornográfico?" "A biografia? sim, já li." (e eu de fato lera, também gosto de Nelson Rodrigues). "Viu Saraiva? vê-se logo que o jovem aqui tem leitura. Deixa o cara! Quanto é esse teu livro?" "R$10,00" Sacou da carteira com a insignia da policia civil e retirou de dentro dela a quantia certa. "Assina ai: Tenente Álvaro." Autografei o livro com uma satisfação e com uma alegria que não cabia dentro de mim. Fiquei imaginando a reação indignada do locutor com cara de Amado Batista. "Pronto!" Entreguei o livro a ele. "Vou ler ainda hoje. E não esquenta não, ele vai divulgar o teu livro, não é Saraiva?" E aquele homem bom e sensato despediu-se dando uns tapinhas nas minhas costas. Saraiva virou pra mim com uma cara de poucos amigos e disse: "Escuta, Mário, eu vou divulgar esse teu livro sem mencionar esses detalhes, embora eu não aprecie este tipo de literatura." E pegou o microfone e divulgou o livro. Foi estranho e engraçado ouvir o meu nome e o nome do meu livro sendo anunciado no alto falante de uma rádio. Não rolou entrevista alguma, é claro, tampouco apareceu alguém no estúdio para ver o livro. Mas que importância tem? Deixei o lugar com a certeza de mais uma vitória e subi feliz como um gigante pequeno a Avenida Eduardo Ribeiro em direção ao Bar do Lusitano para comemorar.



Márcio Santana.

2 comentários:

MARCELO FARIAS disse...

Um pedaço do cotidiano! Muito bom!

Tutu disse...

Márcio Santana, um velho safado e verdadeiro contador de histórias verdadeiras.