sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

UM DIA PERFEITO






















Relógio mostrando a hora exata em que a bomba de Hiroshima explodiu.


E quando o dia chegar e seu corpo desaparecer, nenhum mal mais o espera!
TAO TE KING – Lao Tse.



Caro diário,

Hoje acordei prevendo ter um dia daqueles. Trabalhei até 01:30 da madrugada no projeto do supermercado. O senhor Ikeda o queria para hoje, sem falta, e perdi preciosas horas de sono para terminá-lo. Não ouvi o despertador tocando e Yoko teve de me balançar para que eu acordasse. Aprontei-me correndo e só tomei uma xícara de chá para aquecer as entranhas. Perderia tempo se pegasse o ônibus, por isso tive de gastar mais em um táxi. A manhã estava clara e ensolarada, alegre para quem quisesse passear, péssima para quem se atrasava para o trabalho. Para pessoas como eu, um Sol amarelo e radiante no céu apenas quer dizer “você está atrasado, vagabundo!”
Acenei para o primeiro táxi que passou. Ele parou... mas não para mim. Uma senhora idosa o pegou. Não sou um cafajeste, mas estava pouco propenso a cavalheirismos hoje de manhã. Por fim um segundo táxi parou. Entrei, informei o endereço e exigi ao motorista: _Rápido, por favor!... O motorista seguiu o mais rápido que a lei permite. Queria eu estar ao volante, ou estar em um filme americano, pois assim o carro estaria voando. Aliás, foi nesse momento que lembrei que já faz muito tempo que não assisto a um filme americano. Exatamente quatro anos, desde que foi declarada a guerra.
Olhei o relógio, eram 08:00 horas, eu já estava no atraso. Hoje seria dia de eu ouvir... O senhor Ikeda jamais perdoa. Penso mesmo que seu lugar não é em uma empresa de consultoria, mas no comando de uma tropa no Pacífico. Pena que ele não está numa... Um morteiro americano prestaria um grande serviço à humanidade em atingi-lo. Ao invés disso, quem é atingido por um torpedo é Yugoro, nosso ex-office boy. O tiro foi tão bem dado que o navio partiu-se ao meio. Sua família ainda teve sorte de ter seu corpo de volta. Se tudo der certo, Kojiro vai voltar para casa mês que vem, papai ficou muito abalado desde sua ida para a Manchúria.
Aliás, hoje também andei sofrendo abalos... Pouco depois das tomar o táxi, tive uma ligeira perturbação. Uma espécie de flash explodiu em minha vista e ouvi um estalo que fez meus ouvidos zumbirem. Fiquei tonto por um tempo, uns quinze segundos, talvez. Penso que fiquei mais perplexo do que tonto. Quando abri os olhos perguntei ao motorista se também havia visto um relâmpago. Ele riu e disse não ter ouvido falar em rumores de chuva pelo rádio. Perguntou em seguida se eu havia comido antes de sair. Ao responder-lhe que tomei apenas uma xícara de chá, ele arrematou que era isso, eu estava fraco.
Concordei inteiramente com ele, dormi mal e quase não me alimentei, devo ter tido hipoglicemia. De qualquer forma, saltei do táxi sentido-me melhor. Aliás, não sentido nada de errado. Entrei apressado no escritório e para minha surpresa... estava havendo uma festa!... O senhor Tanaka estava de pé sobre uma mesa, como em um palanque improvisado, fazendo um efusivo discurso. Os colegas o aplaudiam e reverenciavam calorosamente. Recitava poemas!... Eu sequer sabia que ele fazia poemas. Perguntei à Keiko sobre o porquê daquilo e ela simplesmente me respondeu que era dia de alegria, para eu me alegrar também e não fazer perguntas.
Logo em seguida, cantando em coro, todos seguiram para a sala de reuniões, onde a mesa exibia um copioso banquete. Meus olhos ficaram estarrecidos com tanta comida. Saburo pôs um disco na vitrola e todos começaram a cantar a música e balançar os braços. Foi neste instante que fiz a ele a pergunta fatal:
_Saburo... será que o senhor Ikeda vai gostar dessa bagunça? Aliás, onde está o senhor Ikeda?...
_Ora, Hiroshi, esqueça o senhor Ikeda, ele deve ter ficado preso no trânsito... ou no banheiro!... rra-ra-ra-ra... _respondeu-me sarcasticamente.
Com esta resposta, decidi simplesmente me juntar aos loucos, pois se fosse despedido, pelo menos seria num dia feliz. Tirei o paletó e fui comer, rir e brincar. Senhora Suzuki cantou esplendidamente para espanto de todos. E... de repente, em uma entrada triunfal, ao som de tambores e flautas, Michiko apareceu de kimono, com o cabelo impecavelmente arranjado e o leque nas mãos. Estava linda!... Meu Deus, como estava linda!... Ela começou a dançar enquanto senhora Suzuki cantava. Foi um momento mágico. Todos ficaram calados, deslumbrados com aquela beleza. É uma pena que ela seja casada... e eu também...
Quando ela terminou todos aplaudiram efusivamente. Kyoko, Haruko e as outras mulheres estavam com lágrimas escorrendo dos olhos. O senhor Matsushita enxugava as suas com o lenço. Em seguida, já começando a palhaçada, Saburo tirou um disco de dentro de um saco verde e aveludado. Escondeu-o atrás de si, olhou com um sorriso rasgado para todos.
_Aaaaahhh... adivinhem o que tenho aqui?...
Todos pediram para ele mostrar. Saburo então virou de costas, tendo cuidado de não mostrar a capa do disco. Tirou o vinil da capa, o pôs no aparelho e... era jazz!!! Louis Armstrong!
_Uuuuuuhhhh... fizeram todos aplaudindo e assobiando.
Dançamos o resto da manhã. Tive o imenso prazer de convidar Michiko para dançar, mesmo ela estando de kimono. Por sinal, o fato de o kimono ser apertado às pernas até deu-lhe um toque de Ginger Rogers. A festa terminou pouco depois do meio dia. Sai relaxado, carregando o paletó às costas. A rua também parecia alegre, muitas pessoas sorriam e se cumprimentavam cordialmente. Onde estava o sisudo corre-corre? Acenei para o primeiro táxi que passou e ele parou. O motorista abriu a porta sorrindo gentilmente. Conversamos durante a viagem e ele me falou que esta seria sua última corrida, pois ia sair de férias.
Eu olhava para as lojas e elas mais pareciam jardins, tantas eram as flores ornamentando suas entradas. Por fim cheguei em casa. Quis pagar o taxista, mas ele me surpreendeu:
_Não precisa, esta corrida foi cortesia.
Abri o portão de casa como se tivesse acabado de chegar de longas férias. Yoko e as crianças me receberam fazendo festa. Rodearam-me pulando e agarrando-me como se tivessem preparado uma surpresa. Novamente me espantei.
_Mas o que está acontecendo? Hoje é o dia dos loucos?... _perguntei bem humorado.
Entrei em casa abraçado à Yoko e com Ken e Tamiko me puxando pelas calças. A mesa estava posta de maneira simples, mas alegre. Sentamos, comemos e nos alegramos. Ao fim da refeição, Ken e Tamiko foram brincar e eu fui com Yoko tomar um banho. Ficamos juntos a tarde toda como se fosse um sábado. Ao cair da noite, ela foi contar estórias às crianças, que logo adormeceram. Depois, enquanto jantávamos tranqüila e confortavelmente, Akira e Haruko chegaram de surpresa. Os recebemos com muita satisfação e eles passaram a noite conosco, lembrando saudosamente o dia de nossos casamentos.
Não quis ser inoportuno, mas perguntei a Akira se ele já pagara sua dívida com o banco. Ele sorriu e respondeu:
_Ora, Hiroshi!... Nem lhe conto! O banco perdoou minha dívida. Ligaram para mim por volta das 08:00 horas e me disseram que eu havia sido agraciado com um prêmio. Meu prêmio é justamente não ter de pagar mais nada e ainda ter todo meu crédito de volta!... rra-ra-ra-ra...
Ao soar das 22:00 horas eles se foram. Quando nos recolhemos disse a Yoko o quanto estava estranhando tudo estar tão bem, tão perfeito.
_Até os Watanabe não fizeram barulho hoje. _comentei. _Aliás, eles viajaram? Sua casa está fechada, não há ninguém lá...
Yoko então segurou meu rosto com suas duas mãos e me disse ternamente:
_Por que se perturba Hiroshi?... Está tudo bem, querido. Tudo em ordem. Foi só um dia feliz, só isso. Vamos dormir, amanhã será um novo dia, você não tem de se preocupar. _ e tendo falado isso, olhou-me cheia de amor e beijou-me.
Estava deitado com Yoko ainda há pouco. Deixei-a dormindo profundamente na cama. Estou agora aqui, prestando contas a você como faço todas as noites. Confesso que ainda estou perplexo. Não apenas com tanta felicidade, mas com as ausências do dia de hoje. O senhor Ikeda não é de faltar e mesmo se faltasse mandaria algum recado. Os Watanabe não disseram a ninguém que iam viajar. Por sinal, ninguém soube me informar para onde foram ou porque partiram. Também acabo de lembrar que Jiro não ligou hoje. Ele sempre me informa o estado de saúde de papai.
É... meu caro diário, talvez eu seja, realmente, um sujeito muito preocupado que não sabe ser feliz, porque nunca se sentiu inteiramente assim. Penso que devo aprender a partir de hoje. É engraçado, nunca pensei que se precisasse aprender a ser feliz. De qualquer forma, o projeto que o senhor Ikeda queria está pronto e não terei de me preocupar com a gritaria dos Watanabe. Estou me sentindo muito bem, apesar do mal estar de hoje de manhã e não senti um pingo culpa pelo que fiz ou pensei. Mesmo quando me maravilhei com Michiko. Aliás, diário, sinceramente, felizes eram os xoguns que podiam ter várias mulheres. Fique com esta! Boa noite.


Nakamura Hiroshi, Hiroshima, 06 de agosto de 1945, 23:31 da noite.

Um comentário:

Sirlei disse...

sem dúvida uma história pra ser refletida todos os dias... Parabéns pelo blog!