terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O OLHO
















"Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!"
(René Magrite)


Na madrugada de maio daquele ano bissexto, Valdivino foi surpreendido com a presença de um Olho humano parado bem no meio do corredor de sua casa, quando ele dirigia-se ao banheiro para urinar. Valdivino que jurava já ter visto de tudo áquela altura de vida - tendo ele aqui, quarenta e poucos anos - achou que era mais uma daquelas aparições absurdas que sempre pontilharam sua vida até ali; ou então foi mesmo a pamonha estragada de D. Marcinha. Fosse o que fosse, havia ali, bem a sua frente, um Olho humano a encará-lo, e a propósito desse Olho humano, tratava-se de um Olho escuro e gordo. Um escuro e gordo Olho humano.
Um pouco mais calmo, Valdivino pôs-se a observar curioso o tal Olho. À parte do corpo que constitui o conjunto humano - raciocinou ele - um olho sozinho não teria função alguma, de modo que ele não poderia ameaçá-lo. Mas um olho é sempre um olho: Asqueroso. Punitivo. A função de um olho é tão somente a de bisbilhotar a alma alheia; cobrar dela aquilo que não se pode ver. Eis a função de um olho. Sem dúvida, o mais terrível dos órgãos. "Não é mesmo?" perguntou Valdivino ao Olho que não disse nada, limitando-se apenas a uma piscadela maliciosa. Valdivino recuou em passos leves de volta ao quarto, e ao lá chegar, cutucou a esposa que dormia á sono solto, sussurrando-lhe ao pé da orelha, "Mulher, acorda! Tem um Olho parado no corredor de nossa casa. O que faremos?" Em protesto a ouviu vociferar palavrões cabeludos que aqui não comvém mencionar. Amofinou-se. O queixo longo sobre as mãos em concha. Quem haveria de acreditar nele? E por que haveriam e acreditar nele? Quem até hoje acreditou na chuva de rãs coloridas que desabou no quintal de sua casa quando ele enviuvou de sua terceira esposa? E da pata de seu viveiro que às escondidas flertava com o rusker siberiano do vizinho ao lado, dando cria a oito cãeszinhos de igual raça? O mais recente daqueles casos escabrosos - e aqui ele lembra amargamente - quase foi linchado na fila de um banco ao afirmar veementemente que Cristo batera à porta de sua casa para juntos tomarem um aperitivo. É. Quem haveria mesmo de acreditar nele? E por que haveriam de acreditar nele? E quem era Valdivino afinal? O fato é que ele estava sozinho outra vez e agora às voltas com um Olho humano bloqueando-lhe a passagem.
AS PESSOAS NÃO CRÊEM NAQUILO
QUE ELAS NÃO QUEREM VER!
Desabafou Valdivino.
Voltou ao corredor decidido mesmo a encarar o Olho e acabar logo com aquilo. O Olho continuava lá, imóvel, porém mais gordo, pois que havia aumentado alguns diâmetros. Já poder-se-ia-ver a metade apequenada de Valdivino refletido dentro da pupila dilatado do Olho. Ele que nunca fez mal algum a um olho, perguntou, "O que você quer de mim afinal?" O Olho não disse nada. Olhava-o direto nos olhos. "Está atrapalhando a passagem e eu preciso ir ao banheiro." De nada valeu o apelo, o Olho só piscou em sinal de resposta . Valdivino sondou o sexo do Olho. Decerto que era um Olho feminino, levando em conta a delicadeza dos cílios e a pureza chamejante da íris. Ainda sim, era um Olho, e todo Olho é uma punição.
PUNIÇÃO
PUNIÇÃO
PUNIÇÃO
Uma solução imediata coriscou-lhe a mente. Pegou da espingarda presa à parede do corredor e apontou na direção do Olho, que aquela altura já havia crescido mais alguns diâmetros, tornando-se, portanto, mais asqueroso e ameaçador. "Diz logo o que voce quer?"
"BRAHMS!
BRAHMS!
BRAHMS!"Balbuciou o Olho. "Brahms? Mas que porra é essa de Brahms?" Valdivino engatilhou a arma no instante em que seu celular que ele trazia num dos bolsos de seu pijama ridiculo, vibrou. Atendeu. Uma voz lânguida e chorosa de mulher sussurrou do outro lado num tom conspiratório, peculiar das amantes. "Valdivino? Sou eu, amor, Ester! Por que não tem me ligado mais? Ando preocupada? O que tá acontecendo? Han? Fala Valdivino! Ela tá aí do teu lado, não é? Sei que tá; essa tua mudez eu conheço..." "Não posso falar com você agora, Ester." "Por que? Ela tá aí, não tá?" "Não é isso amor, é que tem um Olho bem no meio do corredor de casa; um Olho humano e eu preciso me livrar dele." "Um Olho, Valdivino? A desculpa agora é um Olho? A porra de um Olho, Valdivino?" "Amor, entenda..." "Sempre inventado coisas, Valdivino (E alterando a voz) VOCÊ É UM FILHO DA PUTA! UM GRANDISSISSIMO FILHO DA PUTA!"
"Querida, é verdade, juro!" "VOCÊ PEGA ESSE OLHO VALDIVINO E ENFIA ELE NO RABO!
E NÃO ME PROCURE MAIS!"
E é claro, desligou. Valdivino deu de ombros friamente. Voltou enfurecido para o Olho e tornou a apontar a arma em sua direção.
"BRAHMS! BRAHMS! BRAHMS!" O Olho insistia em tom jocoso. Um filete de lágrima descia calado pelo canto do Olho. Valdivino que podia ser bobo, lunático ou o que quer que fosse, mas não dado a chantagem alguma - e podia vir de quem quer que fosse, ainda mais de um Olho - disparou um certeiro no meio dele, dando o caso por encerrado. O interessante, e talvez ele não tenha se tocado disso, a não ser você e eu, leitor, é que o impacto do tiro sobre o Olho, foi semelhante ao estouro de um balão cheiinho d´água. Em menos de segundos, o globo ocular nada mais era do que uma poça de substancia cristalina e gelatinosa se espalhando pelo corredor. Valdivino tomou bastante cuidado para não escorregar na tal poça, e ao chegar ao banheiro ele pôde enfim urinar como um potrozinho. Depois voltou para o quarto e meteu-se debaixo do edredon para junto do corpo quentinho da esposa que ainda sonhambulava emitindo roncos de motor. Ele ficou ali de olhos abertos pensando que amanhã, após o trabalho, ele ligaria para a amante e tudo ficaria em paz outra vez. A vida é assim - pensou medianamente - é como um copo que sempre se recoloca de volta à prateleira, ou então como remendo de uma bota velha e gasta. Agora quanto ao Olho, jamais saberia o que ele buscava afinal. Mas e daí? foda-se! Ninguém iria acreditar mesmo!
E Valdivino fechou os olhos.



Márcio Santana. Ilustração: O Falso Espelho - René Magritte.

3 comentários:

MARCELO FARIAS disse...

Seria o Olho a própria materialização da auto-censura que temos em nós?...

Ana Kaya disse...

Concordo, isso isso isso, eu pensei a mesma coisa Marcelo.
Pensei que o olho seria nossa consciência.
Que texto louco caramba, vc quer nos enlouquecer é? ehehehehhe.
Desconcertante este texto. Delirante, doidamente concreto.
Bem, entre prós e contras, eu gostei bastante.
Que imaginação hein meu amigo?

Trish R. disse...

Texto totalmente desequilibrado e ótimo!

^^

Minha mente deu um giro de 360º aqui... =p