sábado, 10 de janeiro de 2009

Novembro






















Foi numa tarde em que Maria foi encontrá-lo na rodoviária. O dia estava lindo e não teria como não estar. Eles eram diferentes e todo mundo dizia que um completava o outro. Todo mundo não, porque quase ninguém sabia. Maria era quase mais alta que ele e, ainda assim, ele era quase intocável. Ele nunca ligava e, quando o fazia, ainda assim, não ligava. Maria o amava, ele se deixava amar.
E eles eram felizes assim.
Ela tinha bom gosto pra música, livros e cinema. Era orgulhosa, cheia de si. E precisava dele pra se sentir viva.
Mas naquela tarde de novembro, Maria ficou imaginando como seria se não fosse daquele jeito. Enquanto segurava a mão dele, pensou em outras mãos e outros corpos e outras salivas e outras ruas e outra história. Enquanto ele quase a amava, ela descobriu que tinha um mundo pra entender e, pra saber das coisas, não mais podia ficar parada esperando ele ligar.
O garoto parou de olhar pra rua e olhou pra ela, mas ela não estava mais lá. Maria pensou que morreria, mas não morreu. Aconteceu. Acontece sempre, com todo mundo, o tempo todo. Foi triste como tinha que ser e depois passou, como tudo passa.
Maria lembrou disso dez anos depois, numa rodoviária, indo embora. Sempre com essa mania de ir e não guardar as coisas refletidas. Ela lembrou porque, se tivesse sido diferente, doeria igual.
Ele ficou lá no interior, criando raízes. Maria saiu voando.
E essa história não tem moral.



- Duda de Oliveira.

2 comentários:

MARCELO FARIAS disse...

"A sina da vida é sentir."

Trish River disse...

Nossa! Isso é bem a minha estória atual...