sábado, 24 de janeiro de 2009

O ANIVERSÁRIO


















Naquela noite, após o trabalho, fui abraçar uma velha amiga escritora que fazia aniversário. Cheguei numa hora meio imprópria, ela discutia com seu namorado: “Porra, Jairo! – Vamos chamá-lo assim – Quando andavas atrás de mim e eu te esnobava, ficávamos até tarde da noite bebendo, agora que te dou atenção e carinho, queres ir cedo pra casa. Hoje é o meu aniversário, porra!” O cara lá caladão, sem dizer nada. As “Folhas de Relva” do Whitman em seu colo. Um volumão. Outro dia andava as voltas com Pessoa. O cara até que lia. Pedi uma cerveja. Brindamos. Ela pareceu contente em me ver, mas seus olhos estavam tristes. Era seu aniversário e alguém queria apagar sua vela. Quando ele foi ao banheiro, ela virou seu copo e me disse: “É justo, Mário? No dia do meu aniversário cismou em ir cedo pra casa.” “Deixa ele ir, você fica. Vamos beber até os nossos fígados gritarem.” Ela fez um esforcinho e sorriu. Na outra mesa, uns aprendizes de junkies bebiam e discutiam alto. Havia uma aureola pesada demais em volta do bar, naquele dia. Senti isso. Bom, ele voltou do banheiro decidido mesmo em ir embora. Comecei a folhear as relvas do Whitman pra disfarçar enquanto eles discutiam. Ele queria mesmo estragar tudo. Aí chegou um outro amigo meu, muito popular por ali e que também escrevia uns troços interessantes. Não lembro como chegamos até Bucowsky, só sei que ele insistia em nos dizer que o alterego do escritor era mais canalha que o seu criador. Literatura americana demais na mesa. Mas os olhinhos dela se acenderam. É que ela havia se tornado recentemente uma leitora voraz de Bucowsky. “Me explica isso!” Perguntou a este amigo. O cara dela levantou-se imperativo. Ela escureceu como uma folha. “70% dos leitores de Bucowsky são mulheres, sabiam?” Disse eu. “Sério?” Espantou-se. “Sério”. Sério nada. Inventei aquilo que era pra chamar sua atenção e vê-la sorrir em seu aniversário. Os aniversários são geralmente deprimentes, acho que é por isso que Deus não faz aniversário. Pensei este absurdo. Aquilo ali tava ficando azedo demais. Foi então que os aprendizes de junkies da mesa vizinha resolveram se engalfinhar e o bar veio abaixo. O troço foi feio porque vi um deles sangrando pelo nariz e gritando: “Porra! Ele torceu o meu nariz com o meu alicate! Ele torceu o meu nariz com o meu alicate!
Mudamos para um outro bar. Neste outro bar tocava Caetano e ela ainda insistia pra ele ficar. Em vão. Ele entregou as chaves da casa e deixou o lugar. Ficamos ali olhando ele se afastar e sumir. Ela foi escurecendo devagar. Então me veio esta frase: “Quando os homens partem, suas mulheres ficam negras como as folhas.” “Que nada! “ Virou-se pra nós estalando os dedos: “Vamos beber até os nossos fígados gritarem!” E ficamos ali os três, bebendo e conversando. Ela nos disse que começaria um trabalho novo como garçonete num bar vip e que estava bastante animada. Falou de sua última crônica e de alguns poemas novos que havia escrito, e nos contou também, pela enésima vez o episodio engraçado com o francês voador, um gringo que ela havia conhecido e que despencara do terceiro andar da janela de um hotel. Rimos um bocado. “Por que não escreve sobre isso?” Sugeri. Ela então pediu um papel e uma caneta e rabiscou alguma coisa:

“O Francês Voador”

Certa noite, estava eu e o tal francês, no finado Macintosh. Bebidos e cheirados. Lá pelas tantas, secamos os nossos copos e subimos pro quarto onde o fedorento estava hospedado. Essa história de que francês não gosta de tomar banho não é mentira não, o cara era fedorento mesmo, mas estava bancando o rock. Me deitei na cama e me espreguicei bem gostoso como uma gata, a sua espera. Ele lá, sentado na janela do quarto, noiadão. Foi tudo muito rápido. Entre um fechar e abrir dos olhos. Não estava mais lá, o porra do francês. Havia despencado dali e eu não pude fazer nada. A não ser rir, cai na risada porque entre o riso e a tragédia eu prefiro ainda o riso, e portanto, eu apenas ri, ri, ri e ri, vendo ele lá estatalado, mas vivo. Foi um custo tira-lo de lá, o francês era gordo e fedia muito.
Na manhã seguinte, nos cobraram o prejuízo e alguma explicação. Não colou não a história de que uma toalha molhada havia despencado dali e feito um estrago daqueles. Saímos bem cedo, eu e o francês para comprar telhas novas. Nossas cabeças ainda giravam pesadas, e o sol espocava em nossas retinas.”


“Só um esboço.” Ela disse. “Gostei” Guardei com carinho o escrito no bolso. Voltamos a conversar sobre variadas coisas, mas depois, os assuntos se esvaziaram e ela ficou muito triste e pensativa. Apagou seu ultimo cigarro nas botas novas e pretas desse outro amigo e nos disse que já ia embora. “Tá cedo.” Não disse nada. Levantou-se e partiu, atravessando a rua com seus passos lânguidos de bêbada. Combativa. Esgueirando-se da morte e das armadilhas do amor.
“Sabe, acho que vou reescrever o primeiro capítulo do “À mesa com os Escarnecedores”. Não ficou legal. Sinto isso. Ando bebendo pouco, eu acho.“Falou esse meu amigo querendo animar a mesa e a noite, mas já não seria a mesma coisa. Vendo ela partir, foi a minha vez de escurecer. Sabe, certas amizades são mesmo pra valer. De repente, me dou conta dessa amizade que é verdadeira e paternal. Não sei bem explicar. Acho que não precisa não. Gosto dela e de quase tudo que escreve. Acho bem original. No fundo ela não quer provar nada a ninguém. O suficiente para eu admira-la ainda mais. Nunca soube disso. Talvez agora saiba.
Partiu num carro sem um aceno, deixando pra trás seu aroma de sonhos e a lembrança de mais um aniversário.

Para Jalna Gordiano
19.03.2007

Marcio Santana

3 comentários:

MARCELO FARIAS disse...

Isso não é uma crônica, é um retrato da vida de quem escreve...

Rita Medusa disse...

não dei permissão para esta foto,não gostei da surpresa,retire!

Adestrador de Tempestades disse...

grande homenagem, santana é um sujeito de bom coração...

diego moraes